O cansaço do velho almoxarife
Ele estava muito cansado de trabalhar naquele almoxarifado. Foi-se o tempo de glória do grande DVN, Deposito Vocabulário Nacional. Como muitas das instituições culturais do país, mais esta sofreu com os processos dinâmicos que no fim das contas são naturais e até necessários, mas que para quem está dentro e vê o mundo das certezas ruir debaixo de seus pés, por certo não é coisa fácil de se gerir emocionalmente. São já quase trinta anos que se ocupa de armazenar os vocábulos da língua portuguesa falada no Brasil. Viu de tudo acontecer nesses anos de grande trabalho. Não se lembra de um único dia sequer onde não tivesse que fazer umas horas extras para poder dar conta do serviço. Quando caía um acento, era um deus nos acuda. Tocava fazer uma verdadeira revolução nas enormes e aparentemente infinitas prateleiras lexicográficas. Chegou a dormir por uma semana no seu pequeno escritório no tempo da reforma ortográfica. Foi na mesma ocasião que, depois de brigar com a direção, conseguiu um aspirador de pó no lugar do velho espanador, que praticamente somente deslocava a poeira lexical de um lugar pra outro.
Depois tinha o quebra cabeças que era o de como organizar tudo. Vários métodos foram utilizados. Uma vez, lá pelos anos 70, ia de moda o sistema japonês de organização, muito limpo e sistemático. Ele começou então a separar as palavras por categorias muito bem definidas. Tentou-se a inicio uma distinção funcional. Do ponto de vista organizacional até que a manobra pode-se-ia definir um sucesso, mas do ponto de vista prático, inúmeros problemas vieram se somar à sua já estressante jornada de trabalho, acrescentando a ela o risco e o perigo. Por exemplo, uma vez reuniu todas as palavras pesadas em uma única sala e por pouco não ocorre uma tragédia, com o piso que ia cedendo. Iria destruir nosso acervo de expressões idiomáticas no andar de baixo. O mesmo pode-se dizer de quando colocou uma partida de discursos inflamados perto demais de sarcasmos inconseqüentes. Teve que chamar os homens do socorro lingüístico que lançaram toneladas de espuma deixa disso e bem oito mil litros de termos diplomáticos para apagar os ânimos.
Com essas e outras experiências desagradáveis teve que, contraditóriamente, começar a entremear os termos em busca de um equilíbrio. Palavrões gritados com sussurros de carinho, elogios com insultos e assim por diante. O problema é que as coisas voltavam a se confundir e trocava-se facilmente uma pelo outra, causando enormes transtornos.
Decidiu-se tentar uma nova forma. Separar tudo a partir dos atributos. Paroxítonas pra cá, oxítonas pra lá e mãos à obra. Mais problemas surgiram. Estava ficando surdo com o rumor na sala dos monossílabos tônicos, sofrendo com a vibração em todo o andar das palavras com R, a névoa úmida e nojenta dos departamentos F e V, sem falar que certas proparoxítonas simplesmente não cabiam todas em uma mesma prateleira, ocupando enormes espaços.
Muitos outros métodos foram tentados, mas a vivacidade da língua foi ganhando a batalha contra a organização. Ele até sabe que é natural, mas pra ele que é o responsável por tudo aquilo, é também frustraste. O caso é que ao longo dos anos, ele foi relaxando e hoje o método é aquele de fazer pilhas heterogêneas no meio dos depósitos e começar a encher outro quando este lota. Pronomes oblíquos átonos repousam sobre mantos de locuções adjetivas. Verbos espalhados, presente misturado com futuro, gerúndio por tudo que é lado. Jargões, que antes ocupavam armários específicos, agora se encontram embaralhados. Quem entra hoje ali, percebe que ele está mesmo cansado. Cansado e sentindo-se incapaz de acompanhar a evolução dos tempos.
Mas na verdade, todos os problemas de organização não seriam nada, se não fosse a maior das mudanças, a das pessoas que freqüentam o depósito. Se tudo se transformou em um caos, uma razão principal existe. Ele se lembra com dolorida saudade do tempo que recebia literatos, professores, escritores e poetas. Iam para conhecer, fazer um passeio, bater um papo e não raro, admirar. Simplesmente admirar aquele imenso patrimônio. Hoje, estes personagens passam, mas olham do outro lado da calçada. Os que ali chegam, invariavelmente vem trazer alguma palavra nova. Naqueles tempos, tinha o seu Rosa, que era o que mais trazia palavras. E que palavras! Ah, bons tempos. Hoje, sente arrepios quando toca o interfone. São, desde personagens do submundo da televisão, a funkeiros e pagodeiros. Adolescentes também, vem aos montes, sempre com novidades. Para ele representa não somente mais trabalho, mas também uma certa frustração. Alguns tantos pedem sempre que a nova palavra ocupe o lugar de uma outra. Não seria um problema se a nova fosse realmente nova e não algum termo encontrado em alguma descarga clandestina onde teve o número de série raspado e o sentido completamente invertido.
Mas o inferno mesmo para ele, aquilo que o tem feito perder o sono, começa quando chega alguém que faz parte do que chama "malditissima trindade", ou seja: publicitário, jornalista ou informático. Eles foram responsáveis sozinhos por grande parte da confusão recente de todo o almoxarifado e o conseqüente desânimo do almoxarife. Teve que mandar construir ampliações de emergência para os pavilhões W, Y e X, tradicionalmente tranqüilos e de pequenas dimensões. Teve além disso que criar um novo departamento: o das "palavras usadas sem o menor sentido, direção ou função mas que soam bem pra caralho", o PUSMSDOFMQSBPC.
O seu filho caçula de uns tempos pra cá notou a mudança no velho pai. Diz sempre que deve resistir, faltam poucos anos para a aposentadoria. Ele não sabe o que vai ser. Olha para todas aqueles vocábulos jogados pelos cantos, alguns debaixo do sofá, outros por cima dos móveis. Quando muito, hoje em dia ele reúne um tanto de termos escorregadios, e se diverte no pátio. Consegue sorrir um pouco. E depois, melancolicamente volta a seus pensamentos observando entre comovido e perturbado, as doces e flébeis evoluções das palavras ao vento.
Comments
GEnial!!!
Aí, mermão, o quê você tem contra "palavras usadas sem o menor sentido, direção ou função mas que soam bem pra caralho"?
"Enquanto ser humano", compreendo a meta linguagem contida nesse hipertexto e suas implicações a nível de proto-anarquismo epistemológico hehehehehehe
zuei!
Sorte e saúde pra todos!
Posted by: Ane Brasil | novembro 5, 2007 3:14 AM
Ontem, jantar na zona sul de Porto Alegre. De repente, duas pessoas começam a rir comentando um blog engraçadíssimo, sensacional. Falavam de Flavio Prada.
Posted by: Milton Ribeiro | agosto 23, 2007 6:25 PM
Reli .
E reli.
sensacional
Posted by: gugala | agosto 16, 2007 8:14 PM
Um dos teus melhores textos.
Mas é tudo uma questão semântica.
Posted by: Allan | agosto 11, 2007 3:22 AM
Ótimo.
Bem disse o Drummond: "Lutar com palavras é luta mais vã. Entanto lutamos, mal rompe a manhã."
Somos seres-de-linguagem, forjados na e pela palavra. Lacan insistiu em dizer: o inconsciente é formado pela linguagem. Piaget concluiu: "pensamos porque falamos, ao contrário do que pode parecer." Enfim, blogamos: quer mais?
Posted by: Cláudio Costa | agosto 2, 2007 2:16 AM