A grama cresce quando quer
Entrei no templo com um certo receio. A luz era pouca e o cheiro de incenso me causava certo enjôo. Depois de alguns segundos, quando meus olhos se habituaram ao escuro, pude começar a distinguir as enormes colunas colocadas em modo assimétrico e próximas demais umas das outras. Formavam um espaço demasiadamente reduzido, lembrando muito um labirinto. Mas não tinha onde se perder ali. O interior do enorme templo de terra, era proporcionalmente muito pequeno. Cheguei ali como resultado de minha busca pela verdade da vida. Depois de uma viagem de cinco horas de avião, mais duas de ônibus e ainda uma caminhada de oito quilômetros, finalmente estava prestes a obter um pouco do conhecimento de que era possuidor aquele povo perdido naquelas montanhas nevadas. A atmosfera quase irreal daquele interior majestoso e ao mesmo tempo despojado, me faziam já refletir sobre a existência e a concretude das coisas do mundo. Aos poucos percebo que por todo o tempo que estava ali, um homem que eu não havia visto, me observava. Era baixo e com uma grave expressão, ainda que com olhos amistosos. Ele estava ali todo o tempo, mas sou convicto que só pude vê-lo quando ele quis. Não sei explicar isso. Eu estava excitado mas também assustado. Me dirigi a ele:
-Senhor.
-Humm
-Como posso chamá-lo?
-Mestre.
-Somente Mestre?
-Semente? Que pape è esse? Mestre es dequementes!
-Ahm, o seu nome è Mestre Esdeque Mentes? Entendi bem?
-Perra! Mestre es dequementes pra eu saber que vece è e cliente que a agencia de viagens mandeu.
O guru falava com um sotaque que me confundiu no início mas depois me habituei. Eu estava impressionado com a argúcia desse homem iluminado. Como ele poderia saber que eu tinha comprado o pacote de viagem “Quem procura acha”? Percebi de imediato que ele tinha uma capacidade de entendimento sobrehumana e segredos para ele era algo inexistente. Depois de mostrar os documentos, me pus a fazer perguntas:
-Mestre!
-Mestre e que? Que vece quer que eu mestre?
-Deixa pra lá, posso chamá-lo de professor?
-Tede bem!
-Professor, tenho estado com o meu coração apertado, com mil preocupações em relação ao futuro. Tenho dormido mal, penso demais em tudo, sobre o que pode acontecer ainda em minha vida, me preocupo com tudo e no entanto não encontro energias para reagir.
-A grama cresce quande quer.
-A… grama… cresce.. quando.. quer. A..a..acho que entendi. Sim, genial. A grama cresce quando quer! Maravilha, é isso mesmo.
-E nãe faz barulhe.
-Sim, e não faz barulho. Puxa, não pensei que teria tanta sabedoria assim de cara. Pô, to todo arrepiado.
- E é precise carregar e farde
-Sim, professor, me sinto muito melhor com tuas palavras.
Ele me olhava em modo estranho. Nos seus olhos eu vi uma certa dúvida e na boca um quase sorriso malicioso. Mas a luz era pouca e eu podia estar imaginando coisas. Continuei a ouvi-lo atentamente. Ele se sentou e começou a falar:
-Veja, a vida de um hemem pure nãe é fácil. Mas também nãe é difícil. Depende.
-Sim.
-Es prefetas sempre tiveram muites preblemas. Meisés per exemple, tinha uma capacidade enerme em abrir um mar em duas fatias. Desde pequene se divertia na piscina de clube a fazer seus amigues se esberracharem quando mergulhavam. Mas per eutre lade, nae tinha nenhum sense de direçãe. Quande veltava pra casa, tinha que atravessar e deserte e levava 40 anes para faze-le! Sua mulher achava que era pape furade dele, demerar tante pra chegar em casa de trabalhe, mas ele jurava em neme des dez mandamentes que da prexima vez ia levar uma bussela.
Eu ouvia tudo isso em estase, mas algo dentro de mim dizia que era meio estranha a historia de piscina de clube em pleno Egito faraônico e bem, bussola e etc, mas continuei a ouvi-lo atentamente:
-Eutre que teve muites preblemas fei Jenas. Ele era um surfista de Criste e quande engateu e melher tube de teda a sua vida, fei enguelido per um peixe enerme que estava ali ha anes esperando pela epertunidade de vingar as mertes de centenas de amigues e parentes seus. A serte de Jenas é que prefetas em geral sao altamente indigestes para peixes gigantes e este e vemiteu depeis de tres dias temando litres de sal de fruta.
-Hmmm, o senhor esta falando sério?
-Clare. Perque pergunta?
-Não, nada, quem sou eu para colocar uma mínima dúvida sobre o que o senhor disse, mas o peixe que engoliu Jonas tomava sal de fruta? E Jonas era surfista? Eu nunca li isso na bíblia.
-È perque vece anda lende a biblia errada. Mas nãe te culpe. Basta que se arrependa de que disse.
-Sim, me arrependo.
-È peuque, nãe basta. Beije meus pés.
Fiquei por algo como trinta segundos imóvel como um poste de luz, mas daqueles com a lâmpada queimada. Uma incrível sensação ruim foi se avolumando dentro de mim. Mesmo assim, fui me abaixando lentamente e tentando olhar o professor nos olhos. A meio metro do chão comecei a sentir o fedor de chulé que emanava daqueles pés que ele acabara de tirar de uns sapatos de couro crú. Pensei que deveria jogar fora minha arrogância de ser racional ocidental e provar a mim mesmo que era capaz de um gesto de humildade estrema. Fechei os olhos e beijei os pés do professor ao mesmo tempo que tentava segurar o regurgito que me vinha natural. Quando levantei os olhos pude ver que o professor estava rindo. Pensei que era para testar minha força interior. Mas foi um momento difícil, asseguro.
Depois disso, o professor disse que havia terminado meu tempo e em meio segundo desapareceu entre as colunas, dizendo que eu teria que estudar a historia da polenta para completar meu percurso espiritual.
Fiquei ainda alguns minutos, nem sei quantos, no templo, como a metabolizar a impactante experiencia transcendental a qual havia apenas vivido. Me sentia a pessoa mais sortuda do mundo, mas ao mesmo tempo não sabia bem porque. Voltei ao hotel.
Ao entrar em meu quarto percebi que tinha sido roubado. Levaram absolutamente tudo. Botei a mão no bolso para procurar o número da agência de viagens e percebi que minha carteira também havia sumido. Desci à recepção e pedi para que ligassem à agencia de viagens. Ninguém me entendia e com isso minha paciência foi se acabando. Me sentia mal por estar fraquejando apenas poucos minutos depois de ter recebido a mais bela lição de vida. Mas no final a paciência acabou mesmo e comecei a agredir o porteiro, pois era o menor dos que estavam ali. Terminou que fui preso e passei um mês na cadeia mais imunda que alguém possa imaginar. Ao final desse período, por sorte fui deportado e expulso do pais e assim pude viajar de volta pra casa.
Mas algo ma chamou a atenção quando eu estava sendo transferido ao aeroporto e que me fez refletir muito sobre tudo o que havia passado. Eu estava acompanhado por um funcionário da embaixada e dois policiais locais. Quando passamos perto da área dos taxis pude ouvir um dos motoristas gritando aos turistas que chegavam:
-Passeies pela cidade com guia e lanche incluide!
Era o guru! Custei a reconhecê-lo com aquelas roupas coloridas, mas era sem duvida o meu mentor. Fiz menção de voltar e falar-lhe mas fui contido pelos policiais. Expliquei ao funcionário da embaixada e ele riu como quem ouviu a melhor piada:
-Aquele baixinho é o teu guru? Aquele cara é conhecido aqui na cidade como o maior malandro da paróquia e que aplica os golpes mancumonado com certas agências de viagem não muito recomendáveis. Precisa abrir o olho com ele. O senhor teve algum contato com essa pessoa?
-Eu? Bem, não, claro que não.
Tive que mentir. Não teve jeito. Como vou explicar certas sutilezas da alma para um bronco e insensível funcionário burocrático?
Comments
Não só a grama cresce quando quer, mas o capim também. Por isso os burros não morrem de fome, só de muito pensar. O post é zen! Zen-sa-cional.
Posted by: Cláudio Costa | julho 6, 2007 5:03 PM
Caro Paglia,
Não sei a razão, mas este guru me lembrou um misto de Padre Charbonneau com Vladislao Kubala.
Bjs Prostáticos
HP
Posted by: Hocus Pocus | julho 5, 2007 6:44 PM
hahaha, eu voltei desse temple enrolando a lingam.
Posted by: christiana | julho 5, 2007 1:46 AM
ahahahaha. História perfeita pra ser desenhada pelo Hergé. Sensecionel.
Posted by: gugala | julho 4, 2007 10:56 PM
A burecracia sempre atrapalhande e crescimente espiritual. Medite, amigue, medite.
Posted by: Allan | julho 4, 2007 7:40 AM
Genial esse teu guru. E o post.abs
Posted by: D. Afonso XX o Chato | julho 3, 2007 10:50 PM