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- Finalmente! Fim dos trabalhos! Olha, não é porque foi eu que fiz, mas achei que está muito bom o projeto. Mas não vamos ficar só na minha imparcial opinião não, vou te levar a brochura até aí para você avaliar. Veja bem, te adianto algo, eu consegui respeitar totalmente o orçamento, respeitei seja os nossos standards de qualidade que os dos fornecedores e segundo meu ponto de vista, responde integralmente ao programa do cliente. E já que estou me pavoneando digo mais: vou te mostrar alguns detalhes inovadores que sem falsa modéstia, estão geniais. Em cinco minutos chego aí.
Desliguei o telefone, me recostei na cadeira por alguns instantes e senti que a respiração voltava a ser profunda e revigorante. Havia trabalhado com minha equipe por três semanas em modo muito intenso e agora estava prestes a mostrar aos meus superiores o resultado do trabalho. Olhei para todos, rostos claros, vozes de almofada, cigarros esquecidos acesos no cinzeiro, paz. Não posso negar que me sentia orgulhoso pelo resultado e já podia prever os sorrisos, os convites para jantar e quem sabe uma promoção. Um aumento de salário talvez fosse oportuno requerer. Botei o paletó, apanhei o material e subi até a sala do gerente do setor técnico, meu chefe. Depois de falarmos do mar, das crianças e dos atentados terroristas, comecei a apresentar tudo a ele. Percebi o quanto ele ficou entusiasmado com o que viu e ouviu. De repente, franziu o cenho e me disse em tom confidencial:
- Olha, não é uma critica, nem tampouco uma sugestão de mudança, mas penso que certos desenhos poderiam ter um pouco mais de cor, para valorizar mais, sabe como? Vende melhor... eu acho.
- Sim, eu até pensei nisso, mas eu quis imprimir uma certa personalidade própria à apresentação. O pessoal da minha equipe abraçou a idéia imediatamente. Penso que seja bem esse o charme do projeto. Se você prestar atenção, verá que trabalhamos com apenas os diversos tons de apenas dois matizes.
- Sem duvida é inovador. Só espero que o pessoal lá de cima aprove. Meu medo é esse, sabe?
- Sei bem como é, mas pensei nisso também, fique tranqüilo.
- Ok, vou pedir para agendarem a tua apresentação para o Osvaldo.
Um responsável de setor que se chame Osvaldo, invariavelmente será um tanto quanto despótico, mas no fundo o nosso Osvaldo tinha seus traços de humanidade, resquícios de sabe-se lá que tipo de passado. Entrei e ele fumava baforando pelos lados, cigarro pendurado, óculos na ponta do nariz, nervoso, o céu parece que mudou, vai chover. Me disse sem levantar nem os olhos:
-Senta aí e espera um minuto.
Depois de quinze daqueles minutos, onde o silêncio me cortou as veias, finalmente ele me olhou, sorriso de décimos de segundo e falando rápido:
-Me mostra logo isso, que eu não tenho muito tempo hoje.
Quando eu estava ainda na introdução, depois de apenas três minutos, ele me interrompe:
- Pode parar, esses desenhos estão sem cor.
- Eu chego a esse detalhe. Primeiro queria falar sobre o orçamento que foi totalmente respeitado e do...
- Como orçamento respeitado? Tá louco?
- Não, quer dizer, acho que não.
- Se você respeita totalmente o orçamento quer dizer que o cliente vai cortar algo fundamental e aí tuas belas idéias vão pras cucuias, isso porque é garantido que o cliente vai cortar algo. Quem foi o brilhante que teve a idéia de respeitar o orçamento?
- Eu... a equipe... nós todos. Na verdade foram eles que insistiram e me venceram pelo cansaço. Eu fui contra desde o início.
- Bem, mexe nisso e bota mais cor que acho que tá legal. Mas de qualquer forma, mostra para o Lucas, vê o que ele diz.
- Lucas... o diretor? Sim claro, porque o outro Lucas é da contabilidade e não teria mesmo motivo para...
- Sim, chega de papo, vai vai vai.. ciao.
Lucas era já no andar de cima. Era outro patamar. Secretária, sala de espera com bebidas geladas e quadros de verdade nas paredes. Chego com um certo receio e peço à Ângela, a secretária - e que secretária - para me encaixar na agenda porque devo tomar somente cinco minutos de Lucas, o diretor de divisão, mais conhecido como “Mordida”, sei lá por que motivo. Ângela me diz que posso entrar pois ele acabou de chegar de fora e ainda não atendeu ninguém. Me alertou porém que chegou de péssimo humor. Bem, entro:
- Bom dia.
- Vamos direto ao ponto, pentelho!
- Eu vim mostrar o proj...
- Eu sei o que você veio fazer, o Osvaldo já me falou que vocês estão cheios de problemas lá no setor. Entendo, mas quero que você resolva tudo em forma autônoma e não me venha fazer perder tempo com bobagens tipo escolhas de cores etc. Ele disse que a apresentação está digna de um estudante de primeiro ano.
- Sim, eu...
- O que levou vocês a fazer algo dentro do orçamento?
- Eu.. falei.. com o Osvaldo, temos que rever muita coisa lá no departamento. Eu acho que..
- Não acha nada! Quero o responsável dessa perda de tempo absurda. Sabe quem é?
- Sim, claro. Será chamado e... vamos ...ver.
- Severamente punido, você quer dizer.
- Sim.
- O nome?
- De quem?
- De quem? Do teu pai, seu asno!
- Meu pai?
- Do responsável, imbecil! Parece que você ainda não se refez da anestesia do teu próprio parto, seu lesma!
- Ah, pode-se dizer que o responsável pelo projeto estar desse jeito é o ... o ... Mauro.
- Pois diga pra ele ir apresentar essa merda ao boss. Pode ir. Peça para a dona Ângela pegar meus tacos de golfe e chamar um motorista.
- Ok.
Voltei ao meu setor e chamei Mauro para lhe dar a péssima notícia. Meu coração estava apertado como um pé de chinesa. Mas era meu dever colocar as coisas nos seus devidos lugares.
- Mauro, você se lembra de quando eu te disse que não podemos nos fixar no orçamento como se fosse uma bíblia. Lembra-se que te disse também pra abusar nas cores e você me fez tudo ao contrário?
- Eu? Você disse pra abusar nas cores? Não me lembro disso, juro. Lembro do contrário pra ser sincero.
- Mauro – botei a mão nas costas dele, como um verdadeiro amigo faz, gesto de proteção- meu caro Mauro, eu já te disse que o que você fuma e bebe não nos diz respeito e você é livre pra fazer o que quiser da tua vida, mas quando isso interfere em sua memória e isso interfere no trabalho, isso passa a ser meu problema também.
- Eu fumo unzinho muito de vez em quando pra relaxar, minha memória esta ótima.
- Vamos fazer o seguinte, confie no que eu digo. Estou dizendo que você disse e fez certas coisas que você não se lembra e isso porque usa drogas.
- Ei, ei, devagar, calma. Pega leve.
- Olha, consegui com muito custo convencer o Mordida a não te demitir. Sabe como ele é. Além dos erros no projeto, tem essas motivações, entende? Bem, você acredita no que eu digo e eu esqueço do foi dito aqui, ninguém precisa saber. Fica entre nós.
- Mas você tem certeza de que fui eu que insisti em fazer só em duas cores?
- Estou te dizendo.
- E o que você quer que eu faça?
- Não que eu queira, mas você vai fazer: apresentar o projeto ao presidente e vai explicar tudo a ele.
Mauro me olhou fixo por alguns instantes, fez um suspiro profundo, arregalou os olhos e foi tomar um café. Eu me sentia um bosta, mas um bosta aliviado.
No dia seguinte cheguei cedo e fiz o que pude para tranqüilizar o pobre Mauro. Ele patéticamente me chamou em um canto e me disse que começava a se lembrar de tudo. Coitado. Bem, ele foi. Ficou mais de duas horas fora. Minha ânsia foi aos céus. Imaginei de tudo. Cheguei a pensar que o desgraçado tinha se atirado debaixo de um caminhão depois de ter sido humilhado além do limite suportável. Uma culpa me invadia, mas meu sistema de escoamento de culpa tem acionamento automático e o desconforto durava poucos minutos. Mas o caso é que naquelas duas horas não consegui me concentrar em nada. Fingi estar trabalhado. Depois de ter feito o quinquagésimo reload na mesma página da internet, Mauro entra no escritório. Chegou com a cabeça baixa, boca em meia lua com as pontas pra baixo.
- Foi pior do que eu pensei.
- Mauro, encare pelo lado positivo.... Mauro... você... você está rindo?
- Hahaha, eu não sei fingir.
- Tá rindo de que?
- O homem adorou o projeto. Me elogiou do começo ao fim. Amou as duas cores, entendeu tudo da minha idéia.
- Tua idéia? Como tua idéia? Tá maluco? Somos uma equipe, esqueceu? Ah essa sua memória, Mauro!
- Mas, mas...
- Não brinque que te dei essa chance de você se soltar, você precisava disso, te dei essa força e você foi lá e se fez de dono de todos os méritos? Não tem vergonha? Anos de trabalho de grupo e você trai o esforço de todos nós pra satisfazer esse teu ego, vamos dizer, enfumaçado?
- Não tô entendendo mais nada.
- Deixa pra lá, você é meio lento mesmo. Parece que não se recuperou da anestesia do teu próprio parto. Mas me diga, o que mais ele falou?
- Disse que pensa em rever umas coisas aqui no departamento. Eu concordei com ele. Nós temos muito em comum.
- Mauro, sou um homem de paz, mas saiba que em nome da paz muitos assassinatos já foram cometidos e eu não hesitaria em fazer de você uma peça de mortadela se minha carreira fosse inclinada por tua causa. Ele sorriu.
A apresentação ao cliente foi marcada para dali uma semana. Foi uma semana inteira de pensamentos contraditórios e incertezas. Tentei durante todo esse tempo, ler os pensamentos das outras pessoas. Nas vezes que consegui, estavam tramando contra mim, pensando em me derrubar, me ver estendido como um tapete persa. Na manhã da apresentação, o boss em pessoa veio até minha sala e categórico como um general:
- Você foi o escolhido para assessorar o Mauro na apresentação.
- Assessorar? O Mauro? Dispersão de recursos, não?
- Vai cagar. Faz o que estou mandando.
O cliente chegou pontual. Tirou o casaco e jogou em modo enérgico sobre a mesa, derrubando uns papéis e uma calculadora. Sorria. Os primeiros sons de sua voz anunciavam trovoadas:
- Sei como funcionam as coisas. Vocês põe sempre algo a mais, sabendo que o cliente vai cortar esse algo do orçamento. Mas vamos fazer diferente aqui. Antes de ver o projeto, quero manter tudo, mas com um desconto de 25%.
Vozes abafadas aos montes, cochichos, olhares indecisos. Todos olham para o Mauro, que me olha, enquanto olho para o teto, assobiando sem som. Mauro toma a palavra:
- Veja bem, er, senhor, nós nos desdobramos para oferecer o melhor e ficarmos dentro do orçamento. Desconto dessa magnitude é impossível.
- Me mostre o que vocês fizeram.
Mauro fez a apresentação de sua vida. Falou pelos cotovelos e parecia se empolgar enquanto falava. Desfiou todo um discurso técnico/científico com argumentos à prova de choque. Demonstrava que sua segurança e lucidez aumentavam a cada frase, cada palavra. Terminada a apresentação, os colegas não se contiveram e aplaudiram. Somente duas pessoas não batiam as mãos, eu e o cliente. Este, levantando-se de um salto disse:
- Fazia tempo que eu não assistia a uma apresentação de projeto feita com esse garbo e categoria.
- Obrigado, senhor - disse Mauro, com um sorriso de 45 dentes.
- O pecado é que o projeto é uma merda. E o fato de o terem feito em duas cores demonstra que a economia começou já no plano conceitual. Vocês querem ganhar em cima de mim, me oferecendo idéias aleijadas. Se vocês fossem um restaurante me serviriam duas cenouras refogadas e me fariam pagar como se fosse lagosta. Eu disse no inicio que não cortaria nada e me enganei, eu corto absolutamente tudo. Não fazemos mais nada. Onde pus meu casaco?
Burburinho geral, falação sem direção, gente se entre-olhando incrédula. Me levanto lentamente e me dirijo à porta. Fecho-a com um pontapé vigoroso e girando-me encaro o cliente que já ia vestindo o casaco:
- Onde pensa que vai, baixinho?
- Como disse?
- Foi o que você ouviu mesmo. Você não vai a lugar nenhum sem antes assinar o contrato.
- Ficou maluco você também?
- Hahahaha! Acho que conseguimos o que queríamos, acho que já podemos deixar de representar. Peço mil perdões pelas palavras que usei pouco atrás, mas faziam parte de nossa estratégia de apresentação. Elaboramos esse modo pouco ortodoxo de demonstração, com o objetivo de tornar evidente o quanto um projeto bem elaborado pode perder totalmente sua força se apresentado em modo asséptico e robotizado. E em contraste, como palavras duras podem aferrar completamente a atenção ainda que possam ferir sentimentos e...
- A troco de que? Conseguiram me irritar, isso sim. Não entendo o nexo.
- Senhor, como chefe da divisão de projetos, tenho a honra de apresentá-lo o novo projeto, o verdadeiro. E com 25% de desconto!
Enquanto dizia isso, abri uma pasta de onde saltou fora o projeto mais colorido que alguém já pôde observar. Tinha todas a cores que me foram permitidas pelo computador em meu trabalho nas longas noites da última semana.
As vezes na vida, fazemos e dizemos coisas sem sentido, movidos pelo desespero, mas que no final acabam por nos dar a vitória. As vezes também, as vitórias não são completas e alguns terminam por perder algo. Nesse caso, a empresa perdeu todo o lucro e mais uns 12% do projeto, que teve que financiar. Por outro lado, ganhou um cliente que promete muito. Outro que perdeu foi Mauro. Não aceitou ser mandado ao almoxarifado e pediu demissão. Soube que tentou abrir um bar mas faliu em pouco tempo. Eu, de minha parte, perdi alguns amigos, mas pouco me importa. O que ganhei compensa tudo. Ângela, minha nova secretária vive me dizendo que não devo ser tão insensível. Ângela, adorável Ângela, estúpida Ângela. Uma fêmea e tanto. Adoro vê-la quando carrega meus tacos de golfe.
Sexta feira 13, dia de comemorar e esquecer dos problemas. Dia de encher a cara e comer bacalhau. O Allan Robert me deu uma idéia ótima. Fazer esta coluna semanal "porque hoje é sexta", e eu aderi de imediato. Outros blogs fazem algo parecido, mas a nossa coluna é muito melhor que qualquer outra que, humm, digamos, sai aos sábados. Estamos um dia à frente, arrojados, dinâmicos, joviais. Bem, a diva de hoje é a famosíssima Brigitte Bardot.

Uma verdadeira musa que desde que deixou o cinema cresceu muito, em todas as direções.

Adoro quando ela fica rezando e se perguntando "o que aconteceu meu pai do céu?"

Eis o que aconteceu, a vida foi seguindo e deixando todos nós boquiabertos.

O que será que ela está pensando? Será o mesmo que eu?

No encontro com Uri Gueller, pediu mil vezes para que ele fizesse um truque, mas dessa vez não funcionou.
Espero que o fato de em breve ter que ficar sem internet por um período não me impeça de continuar postando aqui. Estou analisando alguns fios que saem da casa de meu vizinho para tentar uma solução alternativa ao problema da falta de linha aqui em casa. Me falta só um alicate com cabo isolado pra poder concluir o serviço. Vou tentar isolá-lo com uma câmera de ar. Bem isso são detalhes técnicos que não interessam a ninguém. O que importa (e como!) é que vou estar sempre aqui, custe o que custar. Ai.
Entrei no templo com um certo receio. A luz era pouca e o cheiro de incenso me causava certo enjôo. Depois de alguns segundos, quando meus olhos se habituaram ao escuro, pude começar a distinguir as enormes colunas colocadas em modo assimétrico e próximas demais umas das outras. Formavam um espaço demasiadamente reduzido, lembrando muito um labirinto. Mas não tinha onde se perder ali. O interior do enorme templo de terra, era proporcionalmente muito pequeno. Cheguei ali como resultado de minha busca pela verdade da vida. Depois de uma viagem de cinco horas de avião, mais duas de ônibus e ainda uma caminhada de oito quilômetros, finalmente estava prestes a obter um pouco do conhecimento de que era possuidor aquele povo perdido naquelas montanhas nevadas. A atmosfera quase irreal daquele interior majestoso e ao mesmo tempo despojado, me faziam já refletir sobre a existência e a concretude das coisas do mundo. Aos poucos percebo que por todo o tempo que estava ali, um homem que eu não havia visto, me observava. Era baixo e com uma grave expressão, ainda que com olhos amistosos. Ele estava ali todo o tempo, mas sou convicto que só pude vê-lo quando ele quis. Não sei explicar isso. Eu estava excitado mas também assustado. Me dirigi a ele:
-Senhor.
-Humm
-Como posso chamá-lo?
-Mestre.
-Somente Mestre?
-Semente? Que pape è esse? Mestre es dequementes!
-Ahm, o seu nome è Mestre Esdeque Mentes? Entendi bem?
-Perra! Mestre es dequementes pra eu saber que vece è e cliente que a agencia de viagens mandeu.
O guru falava com um sotaque que me confundiu no início mas depois me habituei. Eu estava impressionado com a argúcia desse homem iluminado. Como ele poderia saber que eu tinha comprado o pacote de viagem “Quem procura acha”? Percebi de imediato que ele tinha uma capacidade de entendimento sobrehumana e segredos para ele era algo inexistente. Depois de mostrar os documentos, me pus a fazer perguntas:
-Mestre!
-Mestre e que? Que vece quer que eu mestre?
-Deixa pra lá, posso chamá-lo de professor?
-Tede bem!
-Professor, tenho estado com o meu coração apertado, com mil preocupações em relação ao futuro. Tenho dormido mal, penso demais em tudo, sobre o que pode acontecer ainda em minha vida, me preocupo com tudo e no entanto não encontro energias para reagir.
-A grama cresce quande quer.
-A… grama… cresce.. quando.. quer. A..a..acho que entendi. Sim, genial. A grama cresce quando quer! Maravilha, é isso mesmo.
-E nãe faz barulhe.
-Sim, e não faz barulho. Puxa, não pensei que teria tanta sabedoria assim de cara. Pô, to todo arrepiado.
- E é precise carregar e farde
-Sim, professor, me sinto muito melhor com tuas palavras.
Ele me olhava em modo estranho. Nos seus olhos eu vi uma certa dúvida e na boca um quase sorriso malicioso. Mas a luz era pouca e eu podia estar imaginando coisas. Continuei a ouvi-lo atentamente. Ele se sentou e começou a falar:
-Veja, a vida de um hemem pure nãe é fácil. Mas também nãe é difícil. Depende.
-Sim.
-Es prefetas sempre tiveram muites preblemas. Meisés per exemple, tinha uma capacidade enerme em abrir um mar em duas fatias. Desde pequene se divertia na piscina de clube a fazer seus amigues se esberracharem quando mergulhavam. Mas per eutre lade, nae tinha nenhum sense de direçãe. Quande veltava pra casa, tinha que atravessar e deserte e levava 40 anes para faze-le! Sua mulher achava que era pape furade dele, demerar tante pra chegar em casa de trabalhe, mas ele jurava em neme des dez mandamentes que da prexima vez ia levar uma bussela.
Eu ouvia tudo isso em estase, mas algo dentro de mim dizia que era meio estranha a historia de piscina de clube em pleno Egito faraônico e bem, bussola e etc, mas continuei a ouvi-lo atentamente:
-Eutre que teve muites preblemas fei Jenas. Ele era um surfista de Criste e quande engateu e melher tube de teda a sua vida, fei enguelido per um peixe enerme que estava ali ha anes esperando pela epertunidade de vingar as mertes de centenas de amigues e parentes seus. A serte de Jenas é que prefetas em geral sao altamente indigestes para peixes gigantes e este e vemiteu depeis de tres dias temando litres de sal de fruta.
-Hmmm, o senhor esta falando sério?
-Clare. Perque pergunta?
-Não, nada, quem sou eu para colocar uma mínima dúvida sobre o que o senhor disse, mas o peixe que engoliu Jonas tomava sal de fruta? E Jonas era surfista? Eu nunca li isso na bíblia.
-È perque vece anda lende a biblia errada. Mas nãe te culpe. Basta que se arrependa de que disse.
-Sim, me arrependo.
-È peuque, nãe basta. Beije meus pés.
Fiquei por algo como trinta segundos imóvel como um poste de luz, mas daqueles com a lâmpada queimada. Uma incrível sensação ruim foi se avolumando dentro de mim. Mesmo assim, fui me abaixando lentamente e tentando olhar o professor nos olhos. A meio metro do chão comecei a sentir o fedor de chulé que emanava daqueles pés que ele acabara de tirar de uns sapatos de couro crú. Pensei que deveria jogar fora minha arrogância de ser racional ocidental e provar a mim mesmo que era capaz de um gesto de humildade estrema. Fechei os olhos e beijei os pés do professor ao mesmo tempo que tentava segurar o regurgito que me vinha natural. Quando levantei os olhos pude ver que o professor estava rindo. Pensei que era para testar minha força interior. Mas foi um momento difícil, asseguro.
Depois disso, o professor disse que havia terminado meu tempo e em meio segundo desapareceu entre as colunas, dizendo que eu teria que estudar a historia da polenta para completar meu percurso espiritual.
Fiquei ainda alguns minutos, nem sei quantos, no templo, como a metabolizar a impactante experiencia transcendental a qual havia apenas vivido. Me sentia a pessoa mais sortuda do mundo, mas ao mesmo tempo não sabia bem porque. Voltei ao hotel.
Ao entrar em meu quarto percebi que tinha sido roubado. Levaram absolutamente tudo. Botei a mão no bolso para procurar o número da agência de viagens e percebi que minha carteira também havia sumido. Desci à recepção e pedi para que ligassem à agencia de viagens. Ninguém me entendia e com isso minha paciência foi se acabando. Me sentia mal por estar fraquejando apenas poucos minutos depois de ter recebido a mais bela lição de vida. Mas no final a paciência acabou mesmo e comecei a agredir o porteiro, pois era o menor dos que estavam ali. Terminou que fui preso e passei um mês na cadeia mais imunda que alguém possa imaginar. Ao final desse período, por sorte fui deportado e expulso do pais e assim pude viajar de volta pra casa.
Mas algo ma chamou a atenção quando eu estava sendo transferido ao aeroporto e que me fez refletir muito sobre tudo o que havia passado. Eu estava acompanhado por um funcionário da embaixada e dois policiais locais. Quando passamos perto da área dos taxis pude ouvir um dos motoristas gritando aos turistas que chegavam:
-Passeies pela cidade com guia e lanche incluide!
Era o guru! Custei a reconhecê-lo com aquelas roupas coloridas, mas era sem duvida o meu mentor. Fiz menção de voltar e falar-lhe mas fui contido pelos policiais. Expliquei ao funcionário da embaixada e ele riu como quem ouviu a melhor piada:
-Aquele baixinho é o teu guru? Aquele cara é conhecido aqui na cidade como o maior malandro da paróquia e que aplica os golpes mancumonado com certas agências de viagem não muito recomendáveis. Precisa abrir o olho com ele. O senhor teve algum contato com essa pessoa?
-Eu? Bem, não, claro que não.
Tive que mentir. Não teve jeito. Como vou explicar certas sutilezas da alma para um bronco e insensível funcionário burocrático?