Marialisa e os remédios
Na quinta-feira de manhã Marialisa Concadoro não tinha ido a escola. Com seus seis anos, ela ainda dependia da mãe para que arrumasse os materiais e a acompanhasse no trajeto não muito longo. Naquele dia Marialisa estava ainda em casa as oito da manhã porque mamãe disse que não se sentia bem. Disse também que havia ligado para o papai, que chegaria logo. Marialisa estava olhando pela janela da sala, exatamente para ver quando o pai chegasse, quando sentiu algo lancinante. Sentiu o aço de uma faca de cozinha, daquela de se servir carne, lâmina de 11 centímetros e serrilhada, entrar em suas costas. Entrou quatro vezes e todas as vezes em modo profundo, sendo que uma delas perfurou o pulmão e outra raspou a aorta. A menina gritou. Conseguiu ainda correr e tentar se esconder no seu quarto. Mas naquela manhã sua mãe não estava mesmo muito bem. A seguiu e desferiu-lhe ainda mais 12 facadas. Algumas delas claramente colheram a pequena em atitude de defesa, pois as mãos estavam laceradas e um dos braços rasgado do pulso ao cotovelo. Ela ainda gritou e gritou. Vizinhos disseram que ouviram os terríveis sons, alguns pensaram tratar-se de alguém matando um animal, outros se preocuparam. Mas só. Nesse nosso mundo do individualismo e da privacidade assegurada, ninguém mexe um músculo, nem quando mamãe nos estraçalha com a faca da cozinha.
Quando papai finalmente chegou em casa encontrou a mulher e mãe de sua filha em pé na entrada que lhe disse simplesmente: “Olha ela ali”. O que viu era digno dos filmes de horror trash. Uma pequena criatura indefesa, deitada no corredor de entrada, sobre um lago de sangue. O mesmo sangue que pintou quase todo o apartamento, a demonstrar a dramaticidade da luta e da agonia. Chamados os paramédicos, Marialisa resistiu ainda por duas horas, mas as feridas eram muitas e o sangue perdido foi demais. As dez da manhã de quinta-feira, Marialisa, a simpática menina de 6 anos que naquele dia não foi à escola, morreu no hospital Santa Chiara de Trento.
O que me chama a atenção em um caso como esse, é que certos aspectos e detalhes que penso sejam fundamentais na elucidação, são apenas ventilados e imagino bem o porque disso. Explico. Os casos de mães que matam os filhos sem motivos aparentes e em geral em um “raptus” de loucura, são cada vez mais frequentes. Em todos os casos, sim, todos, as mães estariam com depressão mas medicadas e tomando remédios antidepressivos. Nas primeiras notícias sobre as tragédias esse detalhe aparece de relance para depois desaparecer completamente. Quando alguém afunda os cornos em um muro com o carro, correm a fazer o exame de sangue no infeliz e não é raro que se encontre do álcool à maconha ou cocaína. Isso é alardeado e explica a cagada. Seja porque são drogas ilegais ou porque o combate aos abusos do álcool seja quase tao consensual quanto o é o seu consumo.
Estranhamente, ou não, quando se levantam suspeitas a respeito de fármacos psicotrópicos legalmente adquiridos em farmácia com receita médica, um manto de silêncio cobre tudo. No caso em questão, a mãe agora será tratada como louca de pedra e coerentemente será dopada com quilos de fármacos, seguramente mais potentes e aniquilantes do que aquele que tomava antes. Até porque além de todos os eventuais problemas de depressão que já tinha, agora terá que administrar uma imensa culpa e que deverá assumir sozinha. Ninguém poderá dizer que essas loucuras possam ser causadas por uma pessoa que em um momento de maior desconforto possa ter engolido quatro ou cinco bolinhas a mais. Isso parece impossível. Alias, alguns doutores dirão que a simples suspeita de que fármacos desse tipo possam induzir comportamentos violentos só demonstram a ignorância sobre o assunto. Porém, se assim é, porque o debate não avança? Porque se mata o questionamento com prova de títulos e não com argumentos?
Eu conheci um rapaz há muitos anos que valendo-se da pouca ética de um farmacêutico, comprava sem receita um famoso remédio para tosse. Tomado em doses maiores o tal xarope o fazia ver coisas e pessoas. Ele conversou com Nero bem no meio do incêndio de Roma entre outros episódios. Esse remédio foi retirado do mercado. Porém os que entraram formam uma lista enorme. Quantas são as tias velhas completamente viciadas nessas pastilhas e que vivem como zumbis?
Será que basta escrever na bula os possíveis efeitos não desejados para poder se isentar de responsabilidade? Aliás, a leitura dessas bulas deveria ser uma matéria das escolas de segundo grau. Seja para informar que formar, ou seja, conhecer os efeitos dessas drogas e aprender a ler aqueles termos jogados ali. Porque, vamos dizer que você tenha um simples problema de ma digestão, compra umas pastilhas e vai ler o papelzinho pra saber o que pode causar. Vê coisas escabrosas ali mas toma mesmo assim e fica pensando que algo vai acontecer a qualquer momento. Isso porque ler bulas sem preparação pode te levar à depressão. E aí sim que você vai estar com problemas.
Comments
Fiquei chocado com a notícia, pouco divulgada pelos jornais e telejornais. Lendo o post o motivo me parece óbvio. Droga só é permitida com bula e receita.
...Mas é sempre droga.
Posted by: Allan | junho 9, 2007 3:48 PM
De início pensei que seria mais uma de suas crônicas fantasiosas. Infelizmente me enganei.
Sabemos que a auto-medicação é perigosa mas o que dizer quando o próprio médico receita o AD e não acompanha adequadamente o paciente? E quanto aos efeitos colaterrais ainda não suficientemente documentados?
Eu me pergunto se um caso como esse que você descreveu ou o do rabino Sobel, por exemplo, não poderiam ter sido prevenidos através de um acompanhamento mais próximo. Será que a pessoa surta de uma vez ou vai apresentando sintomas aos poucos?
Posted by: Viva | junho 8, 2007 3:12 AM
eu conheço muita gente que toma antidepressivo como se fosse aspirina, sem orientação médica. tomam quando querem, na dosagem que acham conveniente. muito triste essa história.
Posted by: Ana Maria | junho 5, 2007 12:39 AM
Oi, Flavio,
contra o poder de uma industria,como a dos remédios, as coiisas ficam difíceis. Mais fácil, culpar uma eventual depressão, do que condenar.
Coisa horrível!
abraçõs
fernando cals
Posted by: fernando cals | junho 5, 2007 12:35 AM
Oi Flavio,
Moro na Italia como voce, so que em Bolonha (Oliveto). Eu recentemente fiz um curso sobre genero e um dos paineis referia-se a essa questao da depressao feminina. E interessante verificar que essas mulheres-maes-esposas-trabalhadoras, enfim, essas mulheres, apesar de terem tudo(casa, comida, saude, trabalho, "familia") vivem uma enorme insatisfaçao. E essa insatisfaçao muitos dizem que decorre da quantidade de papeis que elas sao "obrigadas" socialmente a viver. Aqui na Italia, a sociedade è de base rural, a mulher AINDA è vista como uma nao "vedente" uma nao "capaz", mesmo tendo um emprego, tendo uma carreira. O homem italiano è muito estranho, alias, falava-se que atualmente o homem italiano, esta se tornando um hibrido, algo que nao encontra lugar e por isso, nao desempenha nenhum papel de apoio. Uma coisa interessante, so pra finalizar, è que sexualmente, essas mulheres depois que tem filhos, morrem. A libido vai a zero e, tambèm as mulheres brasileiras passam por isso (caso da brasileira que se jogou do teto do edificio com a filha de dois anos de idade, aqui em Bolonha). Seria bom se perguntar o que acontece com a maioria das mulheres depois que casam e tem filhos, aqui na Italia. Ultimamente essa situaçao de suicidio/infanticidio, tem me deixado muito pensierosa, sobre a sociedade italiana.
Um abraço
Rose
Posted by: Rosemary | junho 4, 2007 7:00 PM
Ainda mais: 80% das consultas clínicas em postos de saúde detectam "queixas" de sofrimento mental. 60% do ambulatório da UFMG, há alguns anos, segundo pesquisa, se referiam a 'problemas emocionais'. A maior parte dos ansiolíticos (lexotan et alii) é receitada por clínicos, não por psiquiátras. Aqui em BH, os Centros de Saúde são procurados por inúmeros cidadãos apenas para 'pegar receita de diazepan, rivotril e antidepressivo'!!! Mesmo sabendo que AD não causa vício, há dependência psicológica para "amortecimento" dos sofrimentos normais do dia-a-dia. Abusa-se de remédio como se abusa de álcool e outras substâncias. Li em publicações médicas que há uma "tendência" já detectada nos USA em se criar uma 'psiquiatria estética' para ministrar AD a pessoas normais, visando melhorar sua performance na vida diária! Putz! é o cúmulo: ninguém mais quer saber de aprender a sofrer as mazelas do cotidiano: prazer, prazer, prazer, felicidade plena, 100% de eficiência, produtividade a 1000, NO STRESS, ansiedade ZERO! Eis a que chegamos na sociedade pós industrial... E tem gente lucrando com isso. Até que os compradores morram todos ou se matem...
Posted by: Cláudio Costa | junho 4, 2007 5:44 PM
Em minha vivência de 30 anos como psiquiatra nunca tive um caso de paciente em uso de medicamentos AD que surtasse. Mas é mais do que sabido que os AD e outras drogas prescritas por nós têm efeitos colaterais que vão de um "quase nada" a tudo. Aqui no Brasil dois casos ganharam a mídia, recentemente: o de um figurinista e o do Sobel, o Rabino. Ambos, segundo li e ouvi, eram - ou são - usuários de "substâncias psicoativas prescritas pelos seus médicos". Há muitíssimos trabalhos alertando para os cuidados que devem acompanhar os pacientes que tomam medicamentos AD: há risco aumentado de AutoExtermínio nas primeiras semanas: isso é fato, está documentado e consta das bulas. Se existe um excesso de medicação e auto-medicação, existe leniência ou cumplicidade de muitos profissionais (e legislação) que se prestam a, simplesmente, serem prescritores, sem falar e muito menos escutar quem os procura. Triste e revoltante.
Posted by: Cláudio Costa | junho 4, 2007 5:35 PM
isso que dá não ter um plebiscito sobre facas na cozinha.
Posted by: gugala | junho 4, 2007 5:06 PM
é uma máfia a indústria farmacêutica. aqui no brasil a proposta quanto a bula era que primeiro, as letras fossem maiores e segundo a linguagem deixasse de ser tão hermética aos leigos. acho que essa idéia não vingou. creio que haja interesse me nos manter desinformados, porque exatamente não sei, mas imagino que uma indústria que utiliza animais e pessoas para suas experiências científicas, deve ter muita coisa prá esconder.
Posted by: anna | junho 4, 2007 4:46 PM
Estou sem palavras!
Uma boa semana pra ti.
abraço, garoto
Posted by: denise | junho 4, 2007 12:29 AM