Há muito tempo era diferente.
15.000 A.C., Vale dos ossos, caminho dos babuínos 32, caverna maior, buraco de estar, sol ainda alto. A fêmea chega e encontra o macho dormindo, coloca as folhas e os ramos que recolheu no canto da fogueira e vai também repousar um pouquinho. Está com os pés cortados pelos espinhos dos arbustos e depois de se limpar as feridas, deita-se ao lado do macho. Este, acorda e sem muita cerimônia dispara:
-Onde è que andava?
-Fui recolher ramos para o fogo
-Papo mole, você foi se encontrar com o bugre pintudo lá do vale.
-Que bugre pintudo? Tá sonhando? Acorda rapaz!
-Eu tô bem acordado, tô sabendo de tudo.
-Não seja ridículo. Eu sou mulher séria, do trabalho pra casa, da casa pro trabalho.
-Eu tô sentindo um fedor de bugre pintudo.
-Mas vai te catar, você ta confundindo tudo. Eu andei no lombo do mamute, é dele o cheiro.
-Mamute é?
-Sim… e olha, esse sim que è pintudo.
Com essa ultima frase da fêmea, o macho ficou ali por alguns minutos em silêncio, entregue a seus pensamentos, Imaginou milhões de coisas. Ficou tentando entender se a fêmea estava sendo irônica ou se tinha mesmo algo a ver com o mamute. O problema é que nem sabia o que vem a ser ironia. Pensou que era verdade. Mas era difícil de acreditar, impossível, inconcebível. Sua expressão facial era sempre mais atônita e depois de cinco minutos parecia já completamente imbecil. Ficou ali imbecil por mais cinco minutos e de repente, em um segundo a expressão mudou para raivosa. No segundo seguinte se dirigiu à fêmea:
-Me explica isso! – a fêmea dormia, chegando a roncolar levemente. Deu um salto:
-Explicar? O que?
-Essa historia do mamute!
-Mas o que è que houve com você? Bebeu de novo baba de tigre fermentada?
-Não desconversa, vagabunda.
-Vagabunda eu te mostro quem è, seu corno.
-Corno? – a essa altura o macho espumava pela boca enquanto repetia a plenos pulmões: - Corno? Corno? Repete se tem coragem!
-Corno, querido, no sentido de touro potente e raivoso.
-Ah! Touro potente? Você acha mesmo que eu me encaixo nessa imagem metafórica?
-O que? Imagem metafórica? Que merda è essa?
-Sei la, de vez em quando me vem umas coisas assim pra enfeitar o papo.
-Sei não, hein?
-Que que è? Agora vai dizer que meu papo não ta legal?
-Não, é que tá meio esquisito, meio fresco.
-Fresco? Você tá me abusando mulher! Você não sabe do que eu sou capaz! Olha pra mim, fico aqui o dia todo na caverna, lavo, passo, cozinho, deixo tudo arrumadinho pra você e você nem liga. Você deve pensar que eu passo o dia todo dormindo, que eu não faço nada. Na tua cabeça eu sou inútil. Só porque você é que caça e recolhe as frutas, não quer dizer que eu esteja aqui somente penteando as bonecas. Eu sou um macho sabe, e por isso mesmo, cheio de sentimentos.
-Ah, vem cá bobinho, não faz charminho não. Vem que eu te dou colo.
-Me da outra coisa também?
-Dou.
E assim a paz voltou no vale, depois da habitual batida de bicos de todos os dias, pura carência afetiva. A noite foi caindo devagar com seus mantos cor de cinza. Os pássaros buscavam voltar a seus ninhos, enquanto os outros animais procuravam um abrigo. Ao longe se ouvia um grunhido rouco. Parecia um gemido de prazer, como se um grande animal estivesse… rindo. Era o mamute.
Comments
Vc não me conhece e vice-versa, porém acho que posso opinar sobre seus conceitos, se me permite.
Vi e gostei sendo a primeira vez que desfruto das ideias e ideais deste site.
Para os que se preocupam em manifestar seus conhecimentos sobre como fazer bebida ao invés de admirar um pensador e sua ideia de mundo atual só me resta lamentar.
Posted by: Philemon | maio 25, 2007 8:35 PM
Baba de tigre fermentada? E eu que achava que a fermentação de frutas para extrair bebidas alcoólicas era daquele tempo...
Posted by: Allan | maio 19, 2007 5:05 PM
Touro potente, Mamute, Bugre pintudo... ...sei. Tem todos os elementos de um Nelson Rodrigues Neolítico.
T§
Posted by: que o Társis Salvatore, pensava assim: | maio 18, 2007 4:48 PM
guga, vc sempre me tirando dos equívocos.
Posted by: anna | maio 17, 2007 3:20 PM
anna, DUAS pontas e UM buraco de estar. ahahaha bj
Posted by: gugala | maio 15, 2007 11:44 PM
mais um belo romance com 3 pontas.
Posted by: anna | maio 15, 2007 7:43 PM
sensacional, flavio
abç
Posted by: gugala | maio 15, 2007 3:43 PM
Huahuahua, adorei, genial! Mudam os protagonsistas e os endereços, mas a estória é a mesma.
Posted by: Viva | maio 15, 2007 3:38 PM