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A música que faz mal

A família de músicos buscava um lugar onde reinasse a paz e a tranquilidade para poder exercitar sua arte. O pai, professor do conservatório musical de Trento, pianista, a mãe, clarinetista e o filho, um promissor violinista. Encontraram o tão sonhado paraíso às margens do lago de Caldonazzo, a alguns quilômetros da capital da província. Casa bela, espaçosa e com uma vista maravilhosa. Os dias da família transcorrem entre os sons imaginados por Mozart, Bach e Beethoven e ninguém, nem algum destes mesmos, poderia imaginar que essa vida pacata e cheia de arte fosse o motivo de uma ação judicial por moléstias de rumores e distúrbio da ordem. Mas assim foi.
Esta semana, a família que morava na casa ao lado, se mudou de lá, ao mesmo tempo em que apresentava uma denúncia e a apertura de uma ação para ressarcimento de danos. A família incomodada fez o que todo incomodado que se preze deve fazer, que é se mudar. Porém alegou que os ensaios e mini concertos familiares causaram distúrbios psicológicos à filha de vinte anos do casal. Ela começou a ter estados de ânsia e ataques de pânico, comprovados por laudos médicos e que a família atribui como causa a música que provinha da casa ao lado. Tudo agora esta nas mãos do ministério público. Anteriormente os músicos já tinham sido chamados ao juiz de pequenas causas e na ocasião, instalaram um revestimento fono-absorvente para minimizar os vôos dos acordes e arpejos. Mas ao que parece não foi suficiente. O anti musical vizinho alegou estar pronto a voltar e retirar a queixa caso haja o compromisso de se limitar os horários de ensaios. A família de músicos ainda não se pronunciou.
Interessante como as coisas são relativas. Chegou-se a afirmar que até vacas produzem mais leite debaixo das suaves melodias clássicas. No Japão, para produzir uma carne especial extra-macia, fazem os boizinhos ouvirem sonatas e quartetos de cordas. Mas como a pobre filha ansiosa pelo jeito não tem nada de vaca, sofreu muito com aquilo que as boas amigas bovinas apreciam. A música que se paga para ouvir, que enleva o espirito e nos livra dos demônios interiores, também pode fazer mal. Eu tenho meu rádio ligado e em geral com musica clássica, praticamente o dia todo. Essa gente poderia economiza horrores tendo de graça a música que quisessem, mas não gostaram disso. Talvez porque não tinham controle sobre isso. Precisamos controlar tudo à nossa volta. Temos obrigação de pilotar tudo, e, mais importante, protegendo a nossa sacrossanta privacy. O que é um retumbante engano aliado à uma redonda ilusão.
Começo a imaginar coisas. Imagino que seria uma ótima oportunidade não só de ter musica de graça mas de aprender algo com essa gente. E também a partir de uma possível amizade, ou quando muito, uma cordialidade de vizinhos, combinar civilizadamente os tais horários.
Mas a realidade vai além da imaginação. Fosse Milton Ribeiro o vizinho dos músicos, certamente o caso não pararia nos jornais, quando muito no seu blog. Ou quem sabe Milton se enfastiaria da mesma maneira? Estou confuso, confesso. Bem, como sempre.

Comments

eu toco piano mal e mesmo assim meus vizinhos pedem bis. só pq é aquele som lindo invadindo a rua... e tb pq eu toco muito pouco :)

Ouvir concertos ao vivo é ótimo mas os ensaios costumam ser realmente chatos. O que não dá pra entender é a falta de diálogo.

durante um tempo, tive um filho violinista.
não acredito que os vizinhos gostavam...

Eles precisavam morar só um fim de semana aqui onde eu moro.O pessoal dono da rua e dos ouvidos alheios param seus carros com o som mais alto possivel e haja mau gosto!A moça doente dos nervos iria parar num hospicio.

tem gente que prefere advogado a músico. Coitados

Nem toda música é música, porém todo cachorro late.

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