Meta-se uma meta.
Quando alguém faz algo de extraordinário, dizem que aquele fulano conseguiu tirar leite das pedras. Mas como o mundo está cheio e repleto de coisas extraordinárias, hà alguns anos que a humanidade pôde perceber um enorme desenvolvimento material graças não ao leite das pedras, mas ao óleo delas. A palavra petróleo deriva do latim “petroleum” que por sua vez vem do grego “petrelaion” que quer dizer simplesmente “oleo da pedra”.
Até hoje não se sabe bem como foi formado. A corrente preponderante sustenta a tese de que teria sido originado pela decomposição orgânica de enormes quantidades de material que ficaram sepultados e formaram uma substancia chamada querogênio, basicamente carbono e hidrogênio. Submetida a pressões altíssimas e consequentemente a calor, esse querogênio se transformou em petróleo, um hidrocarboneto, assim como o gás que em geral divide com ele os espaços entre as placas rochosas onde habitam. Existe também a teoria da origem inorgânica, mas è menos conhecida e aceita.
Seja qual for a origem entretanto, o fato è que hoje temos o seguinte quadro em relação a esse produto. Devemos quase todo o desenvolvimento e progresso dos últimos 100 anos a ele, pois o seu baixo custo aliado a facilidade de utilização, conseguido com a tecnologia, permitiu que um cem numero de possibilidades fossem transformadas em realidade. Uma das outras grandes responsáveis è a eletricidade, mas aqui estamos falando do petróleo e vamos nos ater a ele, ainda que è importante entender que todo um sistema de utilização de energia barata foi colocado em ação. A facilidade de transporte e a utilização de maquinas permitiu a extinção da escravidão em grandes áreas do mundo. Ou ao menos amenizou e transformou a mesma. A massificação e reprodução dos bens só foi possível a partir do emprego de fomas de energia a baixo custo. Os conceitos de produção em massa e mercado tomaram um impulso notável nesse período. Milhões de pessoas foram incluídas no chamado mercado consumidor.
Mas cedo os problemas desse crescimento se fizeram evidentes. As cidades sofreram um processo de inchaço insuportavel. Enormes quantidades de pessoas se moveram do campo para as cidades, criando as metrópoles com os seus problemas de segurança e infraestrutura que todos conhecemos. Além disso, a queima concentrada de combustíveis fosseis, qual é o petróleo, começou a produzir o smog e outros fenômenos de poluição do ar. Na década de 1950 em Londres, centenas de pessoas morreram em virtude da péssima qualidade do ar a disposição. O óleo da pedra mostrava seu lado negativo. E era somente o começo.
Descobriu-se mais tarde que a queima de qualquer substancia que contenha carbono e que produz consequentemente gás carbônico, gera na atmosfera o hoje famoso efeito estufa. Ou seja, o gás carbônico que hoje em dia se apresenta dissolvido no ar em concentrações altíssimas, permite a passagem do calor que vem do sol sob forma de raios eletromagnéticos infravermelhos e por uma série de mecanismos esse calor chega até o solo e não é refletido como vinha sendo há milênios. Essa teoria claramente carece de demonstração, mas as evidencias são enormes e muito recentemente em um congresso de ciências essa tese foi elevada è condição de verdade cientifica. Tanto é que inúmeros projetos para a conversão ou estocagem de gás carbônico estão sendo produzidos. Restara saber quem vai pagar para tentar reduzir o CO2 através de mecanismos ou técnicas caríssimas e que não gerarão nada além disso. Além do mais, isso já deveria estar sendo feito, os danos já estão se fazendo sentir.
Fruto do mais puro pensamento magico coletivo, o projeto de uma sociedade baseada no petróleo, mais cedo ou mais tarde faliria ou falirá, pelo simples motivo de que se fundou um complexo e gigantesco sistema a partir de uma atividade de extrativismo e que tem seus dias contados. Todos se lembram da professora da escola elementar explicando os ciclos econômicos do Brasil e sublinhando a decadência dos ciclos de característica extrativista, pelo próprio esgotamento natural do recurso. È provável que não falte quem acredite que o petróleo è inesgotável, mas è ainda mais provável que estas mesmas pessoas vivam o suficiente para ver o fim da era do ouro negro.
Não foi por outro motivo que a consciência da futura escassez que se produziram e se produzem sempre mais guerras para seu controle. Isso tenderá a diminuir com o advento e desenvolvimento de outras formas de utilização de energia, porém certos grandes problemas permanecerão. Um dos maiores deles è que a energia a baixo custo permitiu o progresso de uma parte da humanidade e estimulou um aumento explosivo da população mundial, respaldado por sistemas políticos onde a promessa de progresso era para todos. Na verdade, nem todos, ou melhor, somente poucos tem acesso a esses recursos. Com o passar do tempo, as demandas de inclusão nesse sistema estão fazendo com que mais e mais pessoas façam parte dele. Mais e mais pessoas passam a ter escravos mecânicos e queimam combustível. Todos querem fazer parte do clube da energia barata. Mas, com a escassez, os combustíveis tenderão a encarecer. Isso faz com que se abram dilemas sem tamanho. Muita gente querendo queimar combustíveis e poluir, mas com direito, já que o sistema todo è baseado nesse ideal e a promessa de felicidade vai nessa direção
Mas temos para o futuro dois cenários. A energia para fazer mover tudo e para todos será extremamente cara, ou sera muito escassa. Como as duas coisas são diretamente proporcionais, é provável que no futuro tenhamos todas as duas situações. Então, o que fazer? Essa enorme massa de população deverá reaprender a viver de uma outra forma que não se sabe bem ainda qual seria mas certamente sem o uso de combustíveis fosseis, e isso certamente a parte que até hoje se manteve na pobreza de recursos não vai querer. A alternativa depende de se encontrar novas formas de energia, que sejam acessíveis e não poluentes. Mas digamos que se se possa desenvolver formas de energia que venham a substituir o petróleo e sejam tao ou mais baratas. O estimulo ao crescimento do sistema e de consequência, da população, será mantido. O planeta resiste?
Penso que a chave de tudo seja uma mudança radical de modo de vida. Vamos deixar a idade medieval da queima de combustíveis e vamos pensar no renascimento das formas de energia recicláveis. Vamos desacelerar tudo. Segundo os manuais de qualidade total, devemos nos matar de trabalhar para fazer feliz o cliente. Em outras palavras, devemos ser bons escravos para servir a quem possa pagar. No mundo do renascimento, as pessoas estão preocupadas com a própria qualidade de vida e por isso o cliente pode esperar um pouco.
Vamos retribalizar. Com a tecnologia e novas formas de trabalho, não tem logica viajar quatro horas para atingir o local de trabalho.
Vamos mudar a escala de valores. Aquilo que a publicidade vende como mundo ideal, muita gente já descobriu que é o mundo ideal dos anunciantes e governantes, que gostam de gente pilotada por controle remoto. A vida pode ser muito melhor sem publicidade e seus estímulos vazios.
Bem, o tema é vasto e posso estar, ou melhor, estou desviando do assunto, outra hora volto a falar de estilo de vida. Como foi colocado no post anterior, nesse dia da terra, uma bela coisa seria a de fixar uma meta a cumprir, com o objetivo de reduzir o impacto ambiental pessoal. Eu tenho como meta reduzir meu consumo de gasolina. Terei que buscar formas alternativas para andar ao trabalho, que mesmo sendo perto, faço de carro simplesmente porque tem subidas terríveis. Trabalhar mais dias em casa será a primeira que me vem em mente. Passeios usando mais a bicicleta também. Comprar jornais aos domingos a 500 metros de casa pode ser feito a pé, eu acho. Vou tentar hoje. De tempos em tempos vou postar algo sobre meu esforço. Daqui a um ano espero ter atingido a meta. Não vai ser fácil, admito, mas vou tentar tirar leite das pedras.


