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março 27, 2007

Minha luta

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Biajoni rima com Berlusconi. E vice e versa. Claro que não se pode comparar um com outro. Enquanto um é um explorador de pessoas completamente inescrupuloso e sem limites, o outro é apenas um empresário italiano multimilionário.
Conhecendo Biajoni na intimidade, a certeza de que as aparências enganam, se reforça. Ele faz pose de moço bonzinho que posa de bad boy, para que todos pensem que ele é no fundo uma boa alma por trás de uma estética anti-establishment que faz pose de ovelha negra da familia que finge ser a mosca da cabeça branca na sopa do coronel. Nada mais falso. Na verdade ele é um crápula mesmo, que manipula as pessoas em beneficio próprio e que calcula milimétricamente cada passo, cada jogada de seu jogo fosco. O que vou revelar aqui pode surpreender muitas pessoas que tem esta pessoa em boa conta, mas não posso me subtrair ao dever de expor a verdade nua e crua, duela a quien duela.
Conheci Biajoni através da internet. No segundo e-mail que trocamos, já se referia à minha pessoa com o apelativo de “guei”. Percebi tratar-se de uma estratégia com um objetivo duplo. Caso fosse eu um gay de verdade, poderia facilmente cair na sua rede e, declarando-me, me transformar em sua vitima de chantagens. Caso não fosse, chamar-me de “guei” serviria para minar minhas defesas morais e levar-me à exaustão psicológica. Eu iria reagir, esbravejar, tornando-me assim presa fácil de sua mente maléfica. Não entrei nesse jogo e o respondi sempre chamando-o de “ilustre senhor Biajoni”. No fundo, ele deve saber que odeio ser chamado de guei pelo simples motivo que algo se mexe dentro de mim quando ele diz isso e eu fico bem assustadinho com isso.
Em seguida ele me convidou para participar escrevendo para seu site “Tiro e queda”. O nome do site é já todo revelador das intenções mafiosas do mesmo. Reunia uma multidão de tipos mal encarados que colaboravam com aquela farsa monstruosa. Mas eu não caio em qualquer arapuca não, que eu sou esperto pra burro. Consegui, através de alguns amigos na policia federal desbaratar a quadrilha e fechar o site, mas, para meu desprazer, pude constatar o quão quente são as costas desse “ilustre senhor Biajoni”. Depois de uma operação que envolveu 47 agentes à paisana e um à rigor e que teve de tudo: escuta telefônica, câmeras escondidas em banheiros públicos, perseguições de bicicleta, e finalmente um tiroteio onde morreram oito pessoas, um cavalo e quatro periquitos; ele no final caiu em pé e ainda por cima inaugurou um blog com seu próprio nome, tamanha desfaçatez e arrogância, típicas de quem vive ao arrepio da lei e da moral. A esse ponto, fiz o que deveria fazer. Inaugurei também eu um blog, no mesmo condomínio que hospeda o dele, na esperança de poder obter mais informações quentes a seu respeito, ao mesmo tempo que iniciava uma campanha para desmascará-lo. Meu blog tem como único objetivo colocar a nú Luís Biajoni.

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Publiquei fotos do tempo que ele dava aulas particulares, mas ninguém pareceu perceber a seriedade de tudo isso. Postei também uma crítica contundente e recheada de indícios elucidativos do seu abjeto livro pornográfico, mas mais uma vez, não fui compreendido. Afinal, luto contra alguém que tem a mídia nas mãos. Que manipula os meios de comunicação como quem brinca com uma caneta entre os dedos.
Sentindo-me no dever de desmantelar essa enorme farsa, não tive outra alternativa que não fosse a de tratar pessoalmente do assunto. Comprei minha passagem ao Brasil sabendo que uma duríssima missão me aguardava, mas que eu iria fazer de tudo para vê-la bem cumprida. Eu teria que enfrentar Luís Gustavo de Oliveira Guimarães Biajoni cara a cara, frente a frente, olhos nos olhos. Não sei, me vem uma coisa só de lembrar.
Como disse, a sua rede é enorme e muito poderosa.
Meus problemas começaram já no aeroporto em Milão. Fui atropelado três vezes pelo mesmo garoto impertinente que empurrava um carrinho com malas e que percebi tratar-se de um sicário anão que tive que sutilmente fazer despencar escada rolante abaixo com carrinho e tudo. Tive que fingir horror com uma pose ridícula com as mãos na boca, mas consegui assim despistar a gang. Por pouco tempo porém. Sabia que ele tentaria algo no avião. Dito e feito. Colocou a meu lado uma velha com um mau hálito tão horroroso e com um papo tão sonífero que tudo isso evidenciava o aspecto criminoso sem limites de nosso personagem. Tive que agir rápido. Uma cotovelada no queixo durante a decolagem pôs fim ao intento mortífero de meu adversário. Ao menos naquele momento. Tive que repetir a operação ainda quatro vezes e só recorri à droga na bebida quando o queixo da velha já dava sinais de inchaço muito evidentes. O importante porém, é que consegui chegar são e salvo.
No aeroporto, mais problemas. Desta vez quando fui ao banheiro. Mas esses detalhes prefiro não comentar aqui. Quem quiser saber, me telefone.
Não tentei nada nos primeiros dias, pois gastei-os recobrando as forças devido ao jet leg e ao que aconteceu no, hum, banheiro do aeroporto, bem, deixa pra lá. Eu sabia que teria que ter toda a energia possível para poder atravessar incólume os piores dias de minha vida. Se não os piores, ao menos os mais desafiadores e importantes. Mas por pouco não me deixei surpreender. Certa manhã, talvez sabendo que me encontrava ainda sem a benção matinal de Padre Pio e portanto completamente desprotegido, ele tomou a ofensiva e me telefonou, ameaçador:

- E aí “guei”?
- (glup) Quem fala? (tentado fingir naturalidade para ganhar tempo)
- Bia. E aí Flavião? Chegou bem?
- Você ...parece surpreso pelo fato de eu ter chegado ...bem.
- Não tô te entendendo, mas tudo bem. Vamo fazer um churrasco hoje?
- Err ...churrasco ...sim, claro.

Uma a zero para ele. Conseguiu me golpear e como é seu estilo, com um chute abaixo da linha da cintura. Existiria plano mais perfeito que o de me colocar dentro de sua própria casa, onde mantém uma familia de fachada com filha pequena cenográfica e tudo, para poder executar seu plano de me eliminar, mancomunado com seus cupinchas mais íntimos? Mas ao mesmo tempo era a minha grande chance de encarar o perigo de frente e tentar virar o jogo. Cheguei disposto a tudo, incluindo qualquer coisa. O ambiente se fazia a cada minuto mais tenso:

- E aí Flavio Prada, vamos fazer o churrasquinho?
- Eu ...sim, não. Conforme eu disse, quer dizer, eu não disse ainda, mas ia dizer, eu ...sim, churrasquinho.
- Relaxa mermão.

Mais um truque sujo, me mandar relaxar. Claro, era tudo o que ele queria, me ver largado e à mercê da sanha homicida dos seus chacais, que atendem pelos codinomes esdrúxulos “Shiraga”, “Brigatti” e “Montanher”. Imagino o que colocariam na carne a mim destinada. Por sorte, nesse momento, percebo que tenho um aliado, aliás, uma aliada. Karem, a mulher que ele mantém enclausurada em cárcere privado com o objetivo de mostrar à opinião publica que tem uma familia feliz, se mostrou uma lutadora e desafiando o big boss, declarou:

- Seria melhor fazer algo diferente!

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Imediatamente, percebi o recado. Era a voz de uma pessoa oprimida que se rebelava e me dava também a chance de agir. Eu disse então, rápido como um relâmpago que deixassem comigo, eu faria o jantar. Pude perceber pelo canto dos olhos, que Biajoni mordeu os lábios de raiva com tamanha força que a boca de Brigatti começou a sangrar. Imediatamente pus-me a despanelar os mais refinados pratos que minha inventiva conseguia conceber com os parcos ingredientes à disposição. Ao final de quinze minutos, produzi oito pratos de entrada, quatro massas, incluindo a verdadeira lasanha à bolognesa, cinco carnes, três tipos de salada, um bandeijão kosher e duas sobremesas, sendo uma light, além das batatas fritas com salsicha para o bebê (Lia, uma gracinha). Calculei que se mantivesse aqueles facínoras comendo e bebendo, ao final de algumas horas, conseguiria colocá-los para dormir e assim poderia escapar ileso.

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Mas eles não nasceram ontem e isso ficou claro, quando empurravam tudo para o japonês, que comia como uma draga de rio. Pensei que ao menos ele ficaria baleado, mas não, foi fabricado pra isso ao que parece. Foi quando o coronel das Americanas, nos convidou para tomar umas lá fora na varanda. Ele queria porque queria me embriagar. Inútil repetir os motivos.

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Contra ataquei então, pedindo para pegarem o violão, que eu iria presenteá-los com minha voz molebdênica. Mas ao invés de deleitá-los, usei a tática 489X da KGB. Emiti sons com freqüências obtusângolas, de modo que as suas ondas mentais ficaram embaralhadas. Depois de uma hora de massacre, fui arrefecendo a milonga, pensando que houvesse ganho a disputa. Mas qual o que!

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Ele usou os dois golpes mortais que são já sua marca registrada: o cajuzinho servido junto com o bolo “Jesus te ama”. Eu simplesmente não podia acreditar no que estava presenciando. Esse homem tem sete vidas, por isso todos o consideram um gato.
Mas o destino faz curvas que nem mesmo os meteorologistas podem prever, ainda que meteorologistas não prevêem curvas de nenhum tipo, quanto mais as do destino. Bem, não importa. O que importa é que a arma de Biajoni, virou-se contra ele mesmo. Depois de deglutir nacos daquele bolo nojento, pus-me a vomitar em modo valente e ascintoso e com essa manobra, escapuli por entre as pernas dos convidados, ganhando em seguida a via publica, onde depois de quarenta minutos correndo tomei o primeiro ônibus que passou, sei lá pra onde. O que sei é que chegando lá, voltei a pé para o hotel.
Passei os oito dias seguintes no hospital e agora que voltei para casa, resolvi publicar aqui estas verdades. Porque pensei muito em tudo e resolvi vir a público para declarar que isso é só o começo. Não desistirei enquanto viver. Ainda nos debateremos senhor Biajoni e rolaremos na grama e espero que seja logo! Até porque, uma saudadezinha dele, às vezes, lá no fundo, eu sinto.

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março 19, 2007

Happy Allways

O brasileiro é um povo muito estranho. Uma gente alegre, emotiva, vitalidade e energia positiva, mas quando se trata de compromissos, ele continua sendo furão. Me cansei de ir a encontros onde não se encontra ninguém. Estou no Brasil para um retiro espiritual, mas nao obstante, continuam me chamando para a sbórnia, e invariavelmente, nao encontro plicas.
Uma desconhecida me ligou no sábado, convocando-me para uma reunião de bloguentos em São Paulo. Dizia chamar-se Lucia Carvalho e que era minha leitora. Pensei: pobrezinha, vamos lá dar uma atençãozinha pra garota, já que se leitora minha é, qualquer problema deve ter. Iria para dar uma força moral a uma pobre alma. Ela me disse que iriam também dois amigos seus, Jayme Serva e Guga Alayon dos quais nunca ouvi falar e pior, também leitores meus. Voltei a pensar: epa, vai ser terapia de grupo.

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Cheguei ao local combinado na hora exata, como é meu costume. Logo vi tratar-se de um antro perdido na selva de pedra, onde pobres infelizes se encontram para afogar suas mágoas em intermináveis goles de bebidas espirituosas.

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A moça que me ligou, à minha pergunta sobre como iria reconhecê-los, me respondeu fornecendo-me um endereço internet, onde, disse-me, eu poderia ver as caras dos cujos. Foi com surpresa que constatei então que todos dessa turma usam o mesmo oculos em forma de tarja preta. Mil coisas me passaram pela mente, tentando imaginar que raça de tara seria aquela. Mas como com gente doida não se brinca, nebulizei os pensamentos e deixei pra lá.

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Fiquei por duas horas procurando esses três inocentes, ao cabo das quais, resolvi sentar-me e tomar também algo, como todos os demais. E nada de aparecer alguém tarjado. E fui tomando todas. Me esqueci entretanto de me lembrar que nos bolsos carregava apenas o rolinho de papel higienico de emergência, o parafuso de estimação e vinte centavos de euro em moedas de um, para eventuais gorjetas chique.

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O brasileiro é um povo realmente muito estranho. Diante de uma argumentação impecável, qual a minha, onde demonstrei que minha falta de dinheiro era absolutamente conjuntural, nada estrutural e que bons ventos me trariam de volta àquele bar para o devido acerto de contas, bastava que eles mantivessem alto o nivel da esperança, eles foram implacáveis e irredutíveis. Colocaram o próprio nivel de esperança ao nível do pavimento e me inflingiram uma espécie de tortura compensatória, metendo-me a lavar copos.

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Sou um homem de mil habilidades. Porém este método primitivo de limpeza, me induziu à imperícia e com isso alguns copos foram quebrados. Cento e oitenta e quatro para ser exato. Isso inexplicavelmente pareceu enfurecer ainda mais o gerente. Pedi então para fazer uma ligação, pois isso era meu direito constitucional. Antes que pudesse terminar a palavra “constitucional”, fui elegantemente convidado a ir respirar o ar lá de fora.
O que posso dizer? Posso somente agradecer à Lucia, Jayme e Guga, pela tarde maravilhosa que me proporcionaram. Verdadeiro Happy Allways.

A seguir: Biajoni dorme às dez e Bloguentos indianos de São Paulo.