A festa
A festa estava como toda festa de que já participei. Chegaram todos em seus automóvies, dos lugares mais diversos e reuniram-se todos ali. Cada qual, ao adentrar no salão, armava-se de sorrisos a quem quer que fosse. Havia mulheres que riam pelo único motivo de estarem portando jóias. Olhavam nervosamente para todos os lados. Acima, abaixo, os pés, mãos, cabelos, à direita, à esquerda. Incansáveis senhoras. Fingiam aparentemente muito bem estarem interessadíssimas nas conversas. Alguns homens discutiam, cordialmente é claro, assuntos importantíssimos. Escondiam raivas e ódios mútuos com sorrisos amarelos de eficiência comprovada. Crianças revelavam tudo o que aprenderam, destruindo-se umas às outras. Outros, afogavam sua adolescência em intermináveis golas de vodka. As garotas, é óbvio, achavam isso simplesmente lindo, ou talvez não. Os rapazes vomitavam pelo chão, paredes, mesas. Realmente lindo, ou não. Todos gritavam. Absolutamente não por algum outro motivo, senão pelo volume da música de fundo. Vendo tudo isso, apanhei meu décimo copo de uisque escocês-engarrafado-ali-na-cozinha, pois também queria afogar não sabia bem o que. Não estava triste. Afinal, em meia hora apenas, já ficara sabendo quem engravidara quem; quem faliu; quem morreu; quem fugiu; quem comeu quem; quem faz fez isso ou aquilo. Também me contaram as novíssimas piadas mais antigas do planeta. E eu ri de todas elas. Fora convidado `a “aparecer lá em casa” tantas vezes que isso me deixou realmente contente. Mais ainda ficaria se me dessem os endereços, mas o que vale, eu sei, é a intenção. Tantos apertos de mão, sorrisos, abraços, beijos e eu ali, não sabia bem o que estava sentindo. Porém, num dado momento, estas minhas impressões se dissiparam. A anfitriã dirigindo-se a mim perguntou:
- Está gostando da festa?
Num átimo, num instante, naquele preciso e único instante, como que forças sobrehumanas me arrebatassem a consciência, a memória, a inteligência, tudo, me senti nú. E complatamente nú, disse:
- Sim, adorando.
Comments
Lembrou-me Buñel e "O discreto charme da burguesia". Ótimo
Posted by: gugala | janeiro 24, 2007 5:52 PM
Para os racionalista a hipocrisia é a locomotiva do mundo. PC
Posted by: Paulo CorrêA | janeiro 24, 2007 2:15 AM
Se eu fosse Presidente da República eu iria fazer um decreto te obrigando a escrever todos os dias, as “coisas” que você escreve são muito divertidas. Existe algum outro lugar onde possamos conferir o seu trabalho?
Posted by: Thiago | janeiro 24, 2007 1:59 AM
Falso!
abração verdadeiro
Posted by: JULIO CESAR CORRÊA | janeiro 23, 2007 9:01 PM
Me inclua fora dessa!
Beijos
Posted by: Sandra | janeiro 23, 2007 1:18 AM
Allan, isso é o que se pode chamar de um programa de índio. Beijocas
Posted by: Yvonne | janeiro 22, 2007 10:57 AM
hmm... parece umas festas de multinacional... um puxando o saco do outro pra ver se fecha algum negócio, ou pra "fidelizar" clientes...
Posted by: Fê... | janeiro 22, 2007 12:42 AM
The show must go on
Posted by: Allan | janeiro 21, 2007 8:20 PM