Confissões íntimas
Vamos lá. Estou inaugurando uma nova fase neste blog. Depois de muito pensar e repensar, coisa que já se fazia sentir até nas vizinhanças, resolvi mudar radicalmente o estilo dos textos aqui. Decidi finalmente falar de minha vida privada, expor meus sentimentos, me abrir e me mostrar. Acho que não estou inventando nada, todo mundo faz isso. Acho que minha vida pessoal e meus pensamentos íntimos são coisas importantíssimas e devem ser compartilhadas. Tenho absoluta certeza que a partir de agora vou conseguir mais leitores e promover uma maior interação entre mim e quem aqui chega.
Começo falando de minhas fraquezas. Devo admitir que sinto inveja. Principalmente daquelas pessoas que tem uma opinião formada e não tem dúvidas de espécie alguma. São pessoas que tem preferências e gostos rigorosos. Gente muito refinada que consegue eleger os melhores e mais-mais de cada categoria de coisas que o bom deus botou nesse mundo. O melhor semáforo, o ovo mais frito, a melhor bandeira de flanela, o mais perfeito cano de esgoto, e por aí vai. Na feira, eles conseguem tirar da pilha de frutas somente as melhores e depois em casa fazem a escolha da campeã, que pobrezinha acaba na barriga do mesmo jeito. Mas ao menos, é devorada sentindo-se merecedora das nobres e reconhecedoras mordidas.
Eu não, não consigo preferir nada e sinto inveja desses gênios da eleição das coisas. Nem música preferida eu tenho, uma vergonha pandorgal. Para mim, as melhores músicas sempre foram as que duravam 2 minutos e 34 segundos, porém são varias e não uma só. Mas até nisso eu já mudei de idéia e agora estou preferindo as que duram 3 minutos e 54 segundos. Acho que com a idade a gente vai mudando mesmo. Fazer o que?
Minha psicopediatra me disse essa semana que para vencer esse sentimento escroto que é a inveja, eu devo me esforçar para me superar da melhor maneira possível e tentar esquecer essa merda de sensação de impotência diante do sucesso dos filhos das putas que são evidentemente melhores e mais fodas do que eu. Achei que é um bom conselho e estou tentando segui-lo. Só não gostei quando ela começou a me contar histórias e feitos do paciente preferido dela, um tal de Tonino não sei das quantas. Ela diz que é o cara mais cheio de manias e taras que ela conheceu, uma mina de ouro para ela. Acho que picaria esse cara com a máquina de fazer ravioli, esse merda seca quadrada.
Desculpe se por vezes eu perder aqui a estribeira. É que não estando habituado a fazer confissões de ordem pessoal, pode ser que eu me exceda no colorido das palavras.
Bem, vamos então amenizar o discurso. Vou falar um pouco de minhas qualidades. Uma das mais importantes delas é a constância. Não confundir com minha tia que se chama Constância, domadora de leões e frangos e dona de circo, o Circo Stância.
A minha constância, se evidencia principalmente naquilo que temos de mais secreto: o pensamento. Tenho a capacidade de pensar sempre na mesma coisa. Se alguém me pergunta sobre o que estou pensando, me vem em mente sempre a mesma coisa: chuveiro. Penso sempre em chuveiro. Se alguém me diz: “pense em algo”, nem preciso pensar, ou melhor, já está pensado, me vem sempre a imagem do belo e reluzente aparelho de aço inoxidável de 88 furos. É uma enorme vantagem que levo em relação aos lentos e problemáticos pensadores atuais. Meu pensamento eu levo sempre engatilhado e pronto para o uso.
Isso me causa problemas algumas vezes, mas somente com as mulheres. Depois de fazer amor, que é quando o corpo da gente se aproxima mais da condição de cadáver que em qualquer outra ocasião, a mulher continua a querer bater papo. E inevitavelmente, pensando que deixando de demonstrar louca paixão por dois minutos eu esteja irremediavelmente desinteressado, me lasca a inevitável pergunta: “o que é que você está pensando?” Como a mentira não é um meu defeito, respondo sempre a mesma coisa: chuveiro. Aí muita vezes começa o putifério. “Quer dizer que você está sugerindo que eu não estava com a higiene em dia? Quem sabe as outras com quem você anda sejam mais limpas e perfumadas que eu!” Se eu respondo que não é nada disso, que eu gosto de pensar em chuveiro mas detesto tomar banho, não adianta. Então o jeito é continuar sendo autêntico e deixar pra lá. Uma briguinha às vezes faz bem.
Bom, acho que chega de confissões por hoje. Deixo aqui a última.
Eu, todas as vezes que olho para um espelho que esteja pendurado ao ar livre, tenho a nítida sensação que ele reflete o passado. Já vi o que ocorreu em muitas épocas diferentes e em muitos lugares onde encontrei um espelho assim. Me reconforta saber que independente de ser ou deixar de ser isso ou aquilo, somos ao mesmo tempo partícula e também a soma de tudo o que já foi. Por isso nunca pude ver o futuro ali. E nunca pude me demorar muito tempo olhando para nossas verdadeiras razões. Nunca pude me perder nas entranhas do que nos explica alguns porquês. É que se algum conhecido me vir parado por muito tempo olhando para um espelho, seguramente verá minha expressão extasiada, perceberá que meu processo mental foi ativado, se aproximará e perguntará:
“ O que voce está pensando?”
Comments
Já eu tenho o hábito de gostar de desenvolver temas. Não só costumo perguntar "o que vc está pensando" como gosto de continuar daí. Por que o teu chuveiro tem mais furos do que o meu? Chuveiro de ducha plástica ou chuveiro de ducha metálica? Com ou sem chuveirinho? Em box ou banheira? Guri, essa tua resposta é todo um manancial de possibilidades..:)
Posted by: maray | novembro 27, 2006 5:23 PM
Só mesmo um concerto pra consertar este fim-de-domingo-chuvoso-plúmbeo aqui em Belô. Ontem, tão preto-e-branco com a festa do GalôôÔ, hoje, cinza...
Quanto às confissões íntimas, existe alguma que não o sejam? Vamos, confesse!
Posted by: Cláudio Costa | novembro 26, 2006 11:26 PM
Eu descobri porq não consigo comentar no seu blog. Ele demora exatamente 5 minutos e 47 segundos para carregar totalmente. Se eu tentar comentar antes, pronto, não consigo. Te juro. Então enquanto abria a página ouvi duas músicas de 2 minutos 23 segundos e alguns milésimos... e perdi a conta. Da Ceumar. Bem era isso...
Gosto de blogs pessoais, se bem que o seu né... Hum... Posso? é pouco confiável. hahahaha!!!
Beiju.
Posted by: Simy | novembro 25, 2006 10:07 PM
é isso aí, flávio, bota prá fora!
Posted by: anna | novembro 25, 2006 3:51 PM
Deu uma vontade louca de tomar banho. Mas não gosto de expor a minha intimidade.
Posted by: Allan | novembro 25, 2006 12:02 PM
Salve Flavio ! Voltou com a corda toda :-) Beijão.
Posted by: Ana Lucia | novembro 25, 2006 4:56 AM
Que louco, Flavio!
Se eu tinha uns cinco anos, já faz mais de vinte anos, e você quer saber o que aconteceu comigo nestes tempos?
Eu me recordo mais do Richard.
Vou te mandar um e-mail.
Mas onde encontro teu e-mail aqui?
Posted by: Fábio Shiraga | novembro 24, 2006 9:38 PM
Bitcho, eu conheci uma destas famílias que você citou no comentário.
Meu pai trabalhou com fotografia nos anos 80 aqui na cidade.
E nós frequentamos umas festas da D. Augusta e do Sr. Lívio, seriam eles parentes teus?
Posted by: Shiraga | novembro 24, 2006 9:12 PM
Ops, acabei de ver que és da Itália!
Como está o tempo aí?
Posted by: Fábio | novembro 24, 2006 7:55 PM
Que barato, Flavio!
Divertidíssimos estes teus dois últimos posts (não li os outros).
Agradeço pelo Concerto que você linkou para quem aqui passasse. Estou a ouvir pela segunda vez.
Sim, estou em Limeira. Hoje o sol brilha e o calor é infernal.
Tudo o que eu preciso agora é de uma chuveirada. hehehe...
Onde você mora?
Abraço.
Posted by: Fábio | novembro 24, 2006 7:51 PM
OLÁ DESDE PORTUGAL
BOM BLOG O SEU
VISITE O MEU BLOG TAMBÉM
TUDO DE BOM....
Posted by: PAULO | novembro 24, 2006 6:33 PM
A introspecção do exílio te fez bem.
Já dá para ver alguns resultados, mas não estranhe se te mandarem de volta para o Retiro logo,logo. Talvez um novo ajuste...
Posted by: gugala | novembro 24, 2006 12:02 AM