As razões da ausência
Tento aqui em poucas linhas, explicar os acontecimentos dos últimos 45 dias. Devo esta explicação ao meu leitor, pois fiquei ausente por tempo demasiadamente longo e isso já o fez pensar em coisas terríveis a meu respeito. Meu leitor é inteligente mas é também maldoso e eu devo ficar atento.

Pois bem. Tudo começou no dia 3 de outubro, quando recebi uma carta registrada e timbrada, coisa oficial, da direção da Verbeat, minha casa blogtora. Sabe como são estas cartas de casas blogtoras, né? Eles me informavam a respeito do novo código de ética do condomínio e junto a este, uma advertência. Diziam que meu blog infringiu as rígidas normas de conduta moral e que na reincidência, eu seria punido. Sabe como são estas punições, né? Respondi dizendo que me considerava injustiçado e que mesmo assim, por respeito ao que a diretoria me impunha, respeitaria o código. Sabe como são essas coisas de código, né?
No dia 7 de outubro, publiquei o post “Ando meio desligado”, recheado de referências veladas à torpe forma de censura à qual vinha sendo vitima. Um grito surdo em face aos desmandos de uma burocracia cega que privilegia os amigos dos amigos em detrimento da liberdade e do mérito. Sabe como são esses privilégios, né? Mas eu sabia que eles iriam entender o recado e não deu outra.
No dia seguinte, recebi um telegrama, lacônico, que dizia: DECIDIA PUNICAO VG RETIRO ESPIRITUAL VG MOSTEIRO VERBEAT PT AGUARDE INSTRUCOES PT

Imediatamente liguei para o número do síndico do condomínio, o bravo Leoandro Geijfsbollock.
- TUUU....TUUUU... Click... Voce ligou para 560948930829837492109274, organizações Verbeat, comunicações e cenouras. Para falar com o setor comercial, digite 1. Para o setor de cobranças, digite 2. Setor de contabilidade, digite 3. Para falar com um operador, espere em linha, o tempo estimado é de 48 minutos. Sabe como são essas coisas de tempo, né?
- Eu quero falar com o Gejfin!
- Tirorirorirorirorããã ( Pour Elise )
Por sorte, eu tinha guardado o numero de celular dele. Não esperei dois minutos:
- Alô?
- Alô meu caro síndico Gejfin!
- Quem está falando?
- Flavio!
- Flavio, de onde por favor?
- Da Itália. como vai o clima por aí?
- Itália?
- Olha Gejfin, recebi um telegrama estranho...
- Me desculpe, mas não conheço nenhum Flavio da Itália, ou ao menos não me lembro, estou ocupadíssimo e vou desligar.
E desligou. Ele desligou na minha cara. Por um bom tempo fiquei imóvel e vazio, como um apartamento para alugar. Era ele, reconheci a voz quente e de timbre radiofônico. Mas será que ele estava me gozando? Não parecia. Mas resolvi ligar de novo. Dessa vez, ouvi uma mensagem gravada que dizia que meu número foi bloqueado para ligações àquele celular. Cáspita, ele falava sério.
Liguei para meu outro contato na Verbeat, el Rey, Tiago Beret Ando. Nova gravação, com aquela introdução interminável. Resolvi esperar. Foram 56 minutos de tarifa internacional ouvindo Beethoven sendo executado em uma caixinha de música, mas finalmente falei com um ser humano:
- Organizações Verbeat, comunicações e cenouras, gabinete del'Rey, em que posso ser útil?
- Eu quero, queria, er...gostaria, de falar com o Tiagòn.
- Quem devo anunciar?
- Flavio, da Itália, ele deve saber... eu acho.
- No momento ele participa de uma reunião com alguns ministros, mas posso referir e retorno em seguida.
- Eu espero em linha.
Depois de quinze minutos, ouço Tiagòn que me responde:
- Mas bah!
- Tiagòn Beret Ando? Como vai indo?
- Indo. Ando.
- Onde?
- Inda ontem, andei andando pelos Andes.
- E onda? Ainda nadando?
- Nada. Nem nadando nem namorando, só comemorando. Mas você ligou pra isso? O que você quer?
- Ah, sim, eu liguei pra saber o que foi aquele telegrama que eu recebi sobre mosteiro.
Ele ficou em silêncio por um tempo e depois me falou em tom grave:
- Olha, a Verbeat cresceu muito nos últimos 28 dias e eu não me ocupo dessas coisas. Tenho me dedicado à nova atividade da organização que é a plantação extensiva de cenouras na amazônia. Como vou saber de telegrama que foi mandado pra você? Tenta falar com o setor de reclamações, divisão equívocos de ordem deontológica. Mas te adianto que se você recebeu telegrama te mandando para o mosteiro, é porque você se enquadrou no procedimento padrão em casos de reincidência em faltas morais. Sabe como são essas coisas, ajoelhou, tem que rezar, né?
- Tiagòn, eu estou te estranhando. Faltas morais?
- Uma corporação como a nossa, tem por obrigação estabelecer certos parâmentos, dentro dos quais nossos colaboradores podem se mover. Seria negligência de nossa parte, se deixássemos que o bom nome de nosso condomínio viesse a ser vilipendiado por razões de caráter hedonístico e fútil, a partir de ações de um único membro.
- Bem, não sei o que te dizer.
- Em breve devem te comunicar a respeito.
- Ok.
Confesso que estava decepcionado. Mas ao mesmo tempo, sentindo uma ponta de orgulho. Puxa vida, pensei, eu faço parte de uma organização que está levando o progresso à amazônia! No momento que terminei de pensar, me toca a campainha. Era um mensageiro a cavalo, com a “ordem de reclusão voluntária obsequiosa com escopo moral”. Montei no cavalo da empresa e partimos para a longa viagem até Verbania, às margens do lago Verbano , local da sede italiana de nosso grupo. Ali fui internado no mosteiro dos “Missionari Verbiti”, que foi onde morei nos últimos 30 dias.
Logo na chegada, fui recebido por padre Marcelo Tossi, que preencheu minha ficha e me pediu o pagamento adiantado. Sabe como são esses padres, né ?
Acordávamos todos às 4 da manhã para a oração do Verbo divino e somente às 7 fazíamos a primeira refeição à base de cenouras. Na verdade, a única coisa que tinha pra comer eram as cenouras. Eram grandes como nunca havia visto. Me disseram que eram OGM e tratadas com testosterona e cafeína. Depois de alguns dias eu já estava enjoado de cenoura, ao contrário dos monges e monjas, que as levavam até para o quarto, antes de irem dormir.

A minha turma de punidos era internacional e fiz ali boas amizades. Monsenhor Milingo se destacava pela simpatia. Além de ter sido campeão na competição de arrotos. Cindy Lauper também fazia parte do grupo, assim como Tommy Lee e o cantor Falcão e seu jegue.
Devo dizer que as palestras foram todas interessantes e proveitosas. A pastora Leila falou da objetividade na comunicação e da importância de nunca se usar a frase “sabe como são essas coisas, né?” na confecção de posts. O irmão Milton nos regalou com pérolas de sua sapiência, na conferência intitulada “Tristão e Isolda em beira rio de uma crise de nervos” Ninguém entendeu nada, mas que foi bonito, ah isso foi. Mestre Biajoni, apresentado como especialista no assunto, ensinou “Usos alternativos da cenoura” , mas infelizmente, dormi todo o tempo. Inúmeros outros luminares, nos brindaram com a luz da sua erudição e retidão moral. Foi, como disse, muito proveitoso.

O que eu não consegui aproveitar como ensinamento, foram as sessões de tortura. Mesmo com todas as explicações a respeito da validade do choque elétrico na promoção da calma interior, eu ainda preferiria ter ficado somente com a lavagem cerebral. Me repetiam continuamente que era tudo em nome da democracia e dos valores ocidentais. Sofri pra burro, mas no final de tudo, resisti.
Foi um mês de grandes sacrifícios, mas também de grande aprendizado. Porém não posso dizer que me convenceram totalmente. Eu vou, ainda que de forma velada e indireta, tentar continuar a me comunicar com meu leitor. Não posso dizer que estou sofrendo censura, mas vou tentar me controlar. Aquelas cenouras me deixaram com um medo danado. Sabe como são essas coisas, né?
Comments
vc estava dormindo?
então você não sentiu nada?
Posted by: Biajoni | novembro 24, 2006 4:06 PM
Deixo um abraço e lhe desejo um ótimo finde
Posted by: Julio Cesar Correa | novembro 23, 2006 9:46 PM
Flávio, só você consegue criar uma estória assim a partir de uma foto! Genial!
Posted by: Viva | novembro 22, 2006 2:44 AM
Veja este video:
http://www.underflash.com/videos/123-quatro-56-250.php
Posted by: Allan | novembro 21, 2006 2:52 AM
KKKKK. Eu não aprendo mesmo. Sempre que eu começo a ler os seus posts eu penso que dessa vez algo sério sairá. Adorei. Beijocas
Posted by: Yvonne | novembro 20, 2006 12:36 PM
Flávio, vc não existe! hahahahhha!! :D
Posted by: Lucia Malla | novembro 20, 2006 4:48 AM
Credo Flavio, com esse post você cometeu muitas faltas morais e eu temo pela sua sanidade. Que medo dessa Verbeat!
Se cuida!
Posted by: BethS | novembro 20, 2006 2:45 AM
quaquaquauqauquauquauau
Posted by: gugala | novembro 20, 2006 1:46 AM
O problema é que eu também não entendi o que disse, mas que foi bonito, foi. Fiquei comovido com a atenção de vocês.
Já a divulgação da foto de nossa sede "Missionari Verbiti" deverá causar nova punição a este blog, bem como o registro de nossos hábitos.
Porém, tudo isto está sob a orientação da santa fúria punitiva da boa irmã Leila.
Fique na paz de Deus, irmão.
Posted by: Milton Ribeiro | novembro 19, 2006 4:26 PM
Kafikaniano. Credo!!
gd ab
Posted by: JULIO CESAR CORREA | novembro 19, 2006 12:07 PM
Ha ha ha, a última coisa que eu esperava nesse post "Verbiti" era ver Guantanamo e Abu Graib. Você não existe, Flávio...
Posted by: Leila | novembro 19, 2006 4:45 AM
Compre um nabo, bem grande, e deixe-o ao seu lado. Dia e noite. Mas não se apaixone!! A idéia não é essa! A idéia é somente ludibriar os demais verbeat´s. Dentro dele esconda um aparelho de código morse e nos envie uma mensagem caso esteja em perigo!!!
O que faremos?? Nada... Só riremos! E já está bom demais!!!
Beijos e grande retorno (seja lá de onde...)
Posted by: Sandra | novembro 19, 2006 2:02 AM
Faça assim: escreva o que você quer comunicar com antecedência; disponha a agenda aberta ao lado do telefone; ligue para cada um dos seus leitores e leia, respeitando a pontuação, o texto que você escreveu; desligue o telefone dizendo que os comentários devem ser transmitidos por carta.
Seus leitores estarão sempre informados, mas a sua conta telefônica vai falir você.
PS - "disponha a agenda" foi demais?
Posted by: Allan | novembro 18, 2006 8:24 PM