Lúcifer and Sky with Demons
Ah, a liberdade que a infância nos confere! No ultimo mês de setembro, Rupert Murdoch tentou nos convencer a fazer uma assinatura de SkyTV, através de seu agressivo e absurdamente insistente tele-marketing. Passei a meus filhos a tarefa de responder às infinitas chamadas de oferta da espetacular, imperdível e só para hoje promoção da TV a cabo do australiano. O fiz por dois motivos: já não aguentava mais ser mal educado com os pobres operadores que afinal de contas são sub-pagos para fazerem lá seu trabalho e não tem nada com isso e também porque sabia que viria coisa interessante dessa nova atividade dos pequenos.
A primeira chamada que eles atenderam não demorou muito a acontecer.
Beatriz: Pronto?
Operador: Boa noite, eu sou Michele da Sky TV e gostaria de fazer uma oferta à senhora. Estaria interessada?
Bea: Ahh... não!
Op: Ah, ok, até logo.
Bea: Até logo?
Passada meia hora ou pouco mais, toca de novo o telefone:
Bea: Pronto?
Op: Boa noite, eu sou Giovanni da Sky TV, O sr. Prada está em casa?
Bea: mmm... não!
Op: Em geral a que horas posso encontra-lo?
Bea: só se for à meia noite e na forma de fantasma, porque (fazendo voz dramática) ele morreu
Op: Me desculpe, eu não sabia!
Bea: Não ofenda a memória de meu pai!
Op: Me desculpe mesmo, eu não sabia realmente!
Bea: (Já levantando a voz) Mas deveria informar-se melhor antes de ligar!
Op: Talvez porque ainda não cancelaram seu nome da lista.
Bea: Cancelar meu pai? Basta! Não tente nunca mais ofender meu pai! (Gritando) Nunca mais, nunca mais!
Por alguns dias, a paz reinou neste lar. Até que a maldita campainha do aparelho soou na tarde vazia. De novo Beatriz estava pronta para a sua missão:
Bea: Pronto?
Op: (sacando que é uma criança do outro lado) Olá, sou Maria da Sky. Queria perguntar pra você, que tipo de publicidade você gosta, em geral. Eu quero fazer uma oferta muuuito conveniente, pensa que beleza!
Bea: (fazendo voz de garotinha de cinco anos) Eu gosto da publicidade que tem Papai noel.
Op: Beeeeellllaaaa!!!! Mas o natal ainda está longe.
Bea: Verdade, mas eu quero os presentes de papai noel, quero os presentes, eu quero!
Op: Eu disse que vou fazer uma oferta conveniente, não é um presente, hehehe.
Bea: Eu quero Sky grátis, quero Sky grátis, quero Sk...
Op: Sim, sim, te dou logo logo a Sky grátis, basta que você me chame a mamãe.
Bea: A mamãe não está.
Op: Não me diga que você está sozinha em casa?
Bea: Sim, mas a mamãe foi na loja aqui pertinho, daqui a pouco ela volta.
Op: Então quando ela voltar você me passa?
Bea: (mudando a voz) Não, porque eu acho que ela vai ser atropelada por um caminhão e vai voltar toda quebrada e não vai querer falar com você.
Op: Sim, ok, tudo bem. (desliga)
O problema é que os computadores das empresas que prestam serviço a Murdoch nessa tarefa de encher o saco do cidadão, não são coligados, ou eles não botam lá como informação que aquele número não deve ser mais chamado porque ali tem gente que não quer comprar nada. Não. Eles continuam a chamar.
Bea: Pronto?
Op: Ola, sou da Sky, poderia me passar o chefe da familia?
Bea: Sim, sim, te passo. Um segundo.
Op: Ah, obrigado.
Bea: Escuta, você sabe que eu tirei dez na escola?
Op: Que otimo.
Bea: E você? Tirou dez na escola?
Op: Eu já sai da escola...
Bea: Eu tirei dez, você não! Eu tirei dez, você não!
Op: Parabéns. Agora me chama o chefe de familia?
Bea: Você tem medo da verdade? É isso? Tem medo, tem medo, tem medo!
Op: (silêncio)
Bea: O gato te comeu a língua! O gato te comeu a língua!
Op: (silêncio).... alô?
Bea: AHAHAHAHA!
Op: (desliga)
O telefonema seguinte foi atendido por Julio. Esse era um recurso extremo. A nossa carta na manga para uma situação que chegava ao limite e precisava sofrer um corte drástico. Só Julio poderia nos salvar, com sua voz cavernosa desvairada e sem medidas:
Julio: Alô!
Op: Boa noite, eu sou Andrea de Sky TV e gostaria de...
Ju: Boa noite, eu sou Lucifer.
Op: Como?
Ju: Eu sou o demônio. Foi muito bom você ter ligado, pois agora posso sugar tua alma!
Op: (desliga)
E assim foi. Já fazem quase três meses que não ligam. Pena. Justo agora que era minha vez.




