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Eu a conhecia já há muito tempo. Sempre me atraiu como mulher e nos relacionávamos como amigos. Mas não sei por que cargas d'água, quando estou diante de uma mulher jovem, inteligente e bonita, eu fico com medo dela. Não bem um medo como o do escuro ou do bicho papão, mas um certo receio devocional. Deve estar ligado à expectativa de performance ligada à idéia de potência que está ligada à idéia de desilusão que está ligada à qualquer idéia ligada a isso.
Na semana passada eu quis respeitar meus desejos íntimos. Achei que seria justo declarar a esta mulher jovem, inteligente e bonita que meus sentimentos em relação a ela iam além do contato social e profissional. No início, ou seja, até eu terminar de dizer boa tarde a ela, ia tudo bem. Em seguida me veio uma certa complexidade mental e ficou difícil falar em modo direto. Ela me olhava entre o perturbado e o curioso, sem esconder um sorriso simpático. Me disse, ela sim, em modo direto:
-Você está querendo me pedir algo? Seja mais direto.
-Pedir? Não, nada de pedido. Quer dizer. Veja bem… eu estacionei o carro aqui perto, na praça do mercado, mercado lembra compras, vendas, shopping, que nos remete ao chopp, uma coisa alemã, assim como os pastores, não os cachorros, mas os das igrejas luteranas, que rezam, pregam e martelam no culto, e isso nos parece algo erudito, estudado, frio, calculista, como o engenheiro, que também projeta, como o projetor, do cinema. Quer, quer … ir ao cinema … comigo?
-Cinema? O que estão passando?
-Acho que é um filme. Acho que é aquele… veja bem, eu sou arquiteto e tem aquele arquiteto, o Mário Botta, você conhece? … e bota a gente calça, mas tem a camisa também, que a gente bota e a calça, que a gente não calça, mas veste, como a veste, que a gente também veste… e a meia, que è inteira e aos pares, e que também se calçam e assim ficam calçadas, que mesmo sendo da fama tem cocô, em geral de cachorro, que pode ser pastor alemão, como eram alemães os filósofos, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, aquele que falava do … Super-homem. È o Super-homem que apresentam hoje no, no, no cinema. Sim.
-E a que horas podemos ir?
-Ah, bem, horas? Ah, veja bem… Eu tomei um café e o café era escuro e se está escuro precisa acender a luz, que é uma estação de trens em São Paulo, o apóstolo, o pastor, nada alemão, de Cristo, que morreu na cruz, ao lado de dois ladrões, gente desqualificada, desavergonhada, cara de pau, pau-ferro, palmolive, deus me livre, pau-brasil, que só tinha no litoral, de onde? do Brasil, onde o presidente é Lula, que lembra povo, mas também polvo, que tem tentáculos, oito. Oito horas está, está bem?
-Ah, não pode ser mais tarde? Quem sabe na sessão das dez?
- Mas, mas, mas, mas eu… veja bem… quer dizer que o … o … careca, que não è cabeludo, mas pode ser peludo, como o pastor alemão, que é cachorro, e é fiel, mas não é Fidel, de cuba, do charuto, pirulito, do palito, da vara, Che Guevara, comunista, vermelho, cor de vinho, que azedou, vinagre, na salada com azeite, azeita, aceita. Isso quer dizer que você, você … aceita?
-Claro que aceito! Porque não aceitaria ir ao cinema com você?
-Olha, veja bem … tem aquela igreja, do padre, pai, filho, espírito santo, Rio de Janeiro, fevereiro, março, abril, fechou, maio, paio, lingüiça, toicinho, feijão, preto, branco, banco, juros, juro, prometo, Prometeu, Zeus, olimpo, olimpíada, medalha, ouro, couro, sapato, salto, pulo, desvio pra não pisar, o cocô, na calçada, do pastor alemão, que late, au au, uau. Uau! Que legal.
-Só me prometa uma coisa. Vamos só ver o filme, melhor não comentar nada depois.
-Tá.
A Ana, pessoa reservada porém impiedosa, como è muito persistente, mesmo sabendo que eu não aprecio listas, me mandou esta da etiqueta. Solidária na paz e na guerra, ela no fundo me mandando isso se revela um pessoa muito bem-humorada. Pelo que entendi, devo me atribuir cinco etiquetas, algo que caracterize minha pessoa. Essa è fácil.
Inetiquetável. Etiquetas colantes em pouco tempo se me soltam e somem. Etiquetas penduradas com barbantinho tem o mesmo fim. As grampeadas duram-me ainda menos. Já foi tentado a etiquetagem com ferro quente, mas eu soltei uns coices fortes e desistiram.
Lavável. Sou completamente impermeável e resistente à lavagem com água de 10 a 40 graus centígrados. Tenho alguns problemas com a centrifugação que já me fez vomitar, obrigando a recomeçar todo o ciclo, mas esse é um fato raro. Depois do amaciante eu fico muito fofo e irresistível.
Inconstante. Uma hora estou dormindo, outra hora estou acordado. As vezes estou em pé, as vezes sentado, outras ainda deitado e muito raramente de cócoras, isso quando não tem nenhum bar por perto. Quando fazia yoga ficava também de cabeça para baixo, mas isso me fazia vomitar, obrigando a mudar rapidamente de posição, mas ainda esse era um fato raro.
Intrigante. Pães, doces, massas, pastéis e salgadinhos são meu forte e todos feitos com muita farinha de trigo. Eu meto trigo em tudo o que como. A melancia empanada que faço é antológica. Não por outro motivo, a única parte da matemática que me atrai é a trigonometria, o resto me faz vomitar, e isso já não è tão raro assim.
Sensível. As pessoas sentem muito quando eu chego em um ambiente. Sentem o barulho quando esbarro nas coisas que caem pelo chão. Sentem o perfume de amaciante, ou do vomito, depende. Sentem quando eu lhes piso o pé ou mesmo caio por sobre seus corpinhos. Sentem quando entram comigo no elevador…bem, deixa pra lá.
Ineludiamoteável. Esse è um novo conceito, uma etiqueta chegada diretamente da modernidade e quer dizer a humildade multiplexada intrínseca, banhada de modéstia atávica e servilismo imanente, culminando no estabelecimento dos graus máximos de timidez aliados ao espírito solidário e caritativo. Bem, vocês não vão entender mesmo, bando de burros.
Afrodisíaco. Esta etiqueta, modestamente, humildemente, ineludiamoteavelmente, me foi colocada pelas minhas centenas de amigas e conhecidas, fãs e parceiras de algazarras momescas. Não posso fazer nada a respeito, somente me proteger do assédio constante e avassalador de que sou feliz vitima. Importante. Nunca vomitei por isso.
Bem, estas sao minhas cinco etiquetas de hoje, Cada dia tem umas tantas novas. Mas isso é assunto para uma outra vez. Ou seja, não escrevo nunca mais sobre isso.
Aconteceu ontem o mais esperado, desejado e concorrido encontro de blogueiros do mundo conhecido. A exemplo do super evento que foi o Primeiro grande encontro de blogueiros na Itália e logo a seguir o Encontro extraordinário repentino de ultra blogueiros italianos e também o não menos grandioso Super hiper festa blogueira de inverno, este Segundo grande hiper mega encontro blogueiro megagaláctico da Itália foi um tremendo sucesso de crítica mas o mais retumbante fracasso de público.
Foram distribuídos 10.438 convites ao custo de 3,89 euros cada. 0,10 pela impressão, 0,19 pela expedição e 3,60 pelo lacre, puta maldita idéia gay cara. Contrariando até mesmo as previsões mais pessimistas, não apareceu ninguém. Talvez pelo fato de ter colocado um preço de ingresso muito alto. Mas é que eu teria que amortizar os custos do lacre, puxa vida!
Nem o padre que me alugou o espaço veio prestigiar, visto que estava empenhado com suas missas. Me fez pagar até as bandeirinhas que pendurei para tornar o ambiente mais festivo. 2.000 de aluguel mais 4,00/bandeirinha. E aqui faço uma confissão. Cometi um pecado. Enganei o padre. Ele me perguntou quantas bandeirinhas eu tinha pego e eu disse 269, enquanto na verdade tinham sido 273. Minha consciência está um pouco agitada nesse momento.
O galpão com palco móvel ficou ótimo. No final me diverti muito com esse encontro. Tentei tomar toda a cerveja comprada mas só me dei conta que 8.000 litros é muito para uma pessoa só, quando me aplicaram um monte de injeções no pronto socorro. São ótimas aquelas injeções, pena que não me lembro dos nomes todos que eu li nos vidrinhos.
A comida que sobrou, doei para instituições de caridade. A tainha ao chocolate foi ao orfanato. As melancias empanadas foram para o asilo de velhinhos e o sorvete de pizza à Santa Casa de Misericórdia.
Temo que este tenha sido o último encontro que promovo. Ao menos pelos próximos 15 anos não penso em fazer outra porque primeiro deverei trabalhar dobrado e pagar os empréstimos que fiz. Depois disso, quem sabe? Gosto tanto dessas festas!
