ROMPENDO O SILÊNCIO
A Laura do blog Caminhar está indignada. Está tentando levantar uma voz que possa ao menos ser ouvida por quem pensa como ela. O ideal seria que essa voz se transformasse em ação e pudesse em algum modo mudar uma situação. Porque a indignação da Laura é legitima e combina com a de uma grande maioria no Brasil. É a indignação de quem vive em um pais cada vez mais dominado pela violência. Mas o drama seria inevitavelmente um pouco menor, se esse script não fosse já tão conhecido há muito tempo. A constatação e a inexorabilidade dos fatos sem que algo seja feito, penso que seja o centro do problema. Mas a inação das autoridades, infelizmente faz parte do jogo também.
O nosso é conhecido como o país dos contrastes e esta fama não é sem razão. Desigualdades de todos os tipos estão incorporadas na cultura como dados de fato, vistas como coisas naturais e o senso comum aceita isso numa boa. Pessoas que vivem em montes de lixo e comem algo não melhor que isso, fazem parte da paisagem. Somos um dos países com mais terras férteis no mundo, mas temos um dos maiores movimentos de sem terra. Se antes nos emocionávamos quando víamos um menino abandonado, hoje tivemos que endurecer o coração diante da enorme quantidade desses pequenos sem futuro. Verdadeiras tragédias se apresentam diante da gente todos os dias e nem bem nos damos conta. Talvez porque um certo individualismo utilitarista entrou em cena. Mas adotamos a livre concorrência e o modelo consumista em um país onde nem a metade da população faz parte do mercado. Claro que esse é um fenômeno mundial, mas diante de um cenário como esse, o espantoso é o quanto é branda a violência no Brasil.
Nós não conseguimos garantir que todos possam ir à escola, mas desejamos que todos se comportem como cidadãos respeitáveis. Não conseguimos fazer boa parte do nosso povo ter um trabalho digno e mesmo muitos dos que trabalham ter um padrão digno, mas desejamos que todos estejam contentes e principalmente, não violentos. Acreditamos que os problemas importantes são os nossos e aqueles de todos os outros, dos vizinhos de casa em diante, não nos afetam minimamente.
Além disso, è sintomático e revelador da enorme importância dos meios de comunicação no Brasil, a necessidade do PCC fazer uma declaração na TV no chamado horário nobre. Usou até um refém para conseguir ter um minuto no ar. Porque as classes que estão um pouco acima na escala da desigualdade só foram perceber que nosso é um país aos pedaços e dos mais injustos e violentos do mundo, quando um mascarado leu na televisão um manifesto que não pede outra coisa a não ser humanidade. Enquanto nós sonhamos com Ipods e celulares, eles sonham em não serem massacrados de pancada em uma cadeia suja e hiper lotada. Eles conhecem a violência muito antes da gente. Eles nasceram e convivem com ela. Nós só temos medo dela e as vezes, raramente, a encontramos.
Mas a Laura esta certíssima. Nós não podemos viver assim, nem muito menos quem é culpado por não ter tido familia, escola e trabalho. Estes, são chamados de bandidos e sempre com uma conotação de juízo, depreciativa. Porém, enquanto não incorporarmos os “bandidos”, integrá-los, não teremos paz. Antes, o inferno será sempre pior.
Quem sabe se deixemos de ter nossas mentes condicionadas pelo aparato mediático-publicitário, deixemos um pouco de lado a competição e o consumismo e adotamos o cooperativismo e a autonomia. Podemos mudar nosso conceito de progresso. Podemos esquecer do PIB e da balança comercial. Isso só muda a vida de quem ganha com isso. Aliás, o PIB cresce se eu perco duas horas no engarrafamento, sou assaltado e bato o carro. Mas não cresce nada se eu planto minhas verduras, dou um pouco para os amigos e o que sobra levo ao orfanato. Eu não teria duvidas em escolher entre o engarrafamento e as minhas verduras o que representa uma boa qualidade de vida. Quando compreendermos que para viver bem, não precisamos de quase nada, aí teremos tudo.
Comments
Perfeito, Flavio. Gostaria de enviar para um grupo de amigos, especialmente um ultra-direitista - posso?
Posted by: Renato K. | agosto 29, 2006 7:02 AM
Magnífico, Flávio. Estamos cansados de ver manifestações e passeatas da classe média contra a violência e a corrupção. No entanto são as mesmas pessoas que subornam guardas, passam sinais vermelhos, jogam lixo nas ruas e cometem uma série de pequenos delitos. A partir de pequenas mudanças nos comportamentos poderemos chegar um dia a uma grande mudança no destino desse país.
Posted by: Viva | agosto 25, 2006 6:34 PM
Flávio,
Vc é ótimo quando brinca e não menos ótimo quando fala muito sério. Parabéns.
Beijão
Posted by: Mônica | agosto 24, 2006 11:27 AM
Oi Flavio,
Sempre gosto dos seus comentarios nos blogs da Denise e da Leila. Excelente post. Concordo com tudo que voce disse e gostei da maneira franca com voce abordou o tema.
"Nós não conseguimos garantir que todos possam ir à escola, mas desejamos que todos se comportem como cidadãos respeitáveis." Falou tudo! Assino embaixo.
Abs
Regina
Posted by: regina | agosto 24, 2006 9:33 AM
Duro foi o silêncio do paulistano, retornando para suas casas com o rabo entre as pernas; duro foi ouvir no dia seguinte que todos estavam de volta a sua velha rotina.
hábraços, meu caro
Posted by: claudio eugenio luz | agosto 23, 2006 5:08 PM
Oi, Flávio,
Maravilha de texto esse seu!
As coisas chegaram a tal ponto, em nosso país, que tivemos que criar uma carapaça de proteção, que ao mesmo tempo que nos protege, consegue nos tirar a capacidade de nos emocionarmos e pensarmos coletivamente.
De certa forma, vivendo aqui em Correas, Petrópolis, estou chegando próximo ao ponto de trocar os engarrafamentos, pelas minha verduras.
Fiquei emocionado!
Abração
fernando cals
Posted by: fernando cals | agosto 23, 2006 12:30 AM
Flávio!
Parabéns pelo texto, claro e direto! A idéia da Laura vingou, com tantos blogueiros botando pra fora o grito que, engasgado, não conseguia sair. Que este seja o primeiro passo de uma caminhada rumo à redescoberta do orgulho de ser brasileiro.
Abraços.
Posted by: Zeca | agosto 23, 2006 12:26 AM
Irretocável. Beijocas
Posted by: Yvonne | agosto 22, 2006 11:21 PM
Flavio, também acredito nas pequenas acoes diárias que, juntas, podem ao menos minimizar o problema de quem esta do lado. É um comeco.
Pode significar uma mudanca de valor e ajudar a romper esse individualismo perverso que parece estar na base das relacoes sociais, que voce tao bem destacou em seu texto.
Lindo texto. Beijos,
Vanessa
Posted by: Vanessa | agosto 22, 2006 10:57 PM
Perfeito.
Posted by: gugala | agosto 22, 2006 10:42 PM
Clap, clap, clap! genial, Flavio! é exatamente o que eu penso,
"Nós não conseguimos garantir que todos possam ir à escola, mas desejamos que todos se comportem como cidadãos respeitáveis."
Devia ser escrito na testa, como um carimbo, dos que torcem pela chacina de criminosos...
Posted by: Denise Arcoverde | agosto 22, 2006 6:22 PM
Concordo sobre a importância das ações individuais... Mas acho que precisamos, no mínimo, aprender a votar, a escolher, fiscalizar...
Tanta coisa por fazer...
Gosto da indignação, quando alavanca mudanças, reflexões...
Não perco a esperança!
Posted by: Ana | agosto 22, 2006 5:20 PM
Flávio, PARABÉNS!
Escreveu o que eu não consegui.
Assino embaixo, principalmente da última frase.
Beijos.
Posted by: Flávia Nogueira | agosto 22, 2006 5:19 PM
Flavio, a classe média individualista e indiferente me causa náuseas, e concordo que a violência atinge muito mais as classes baixas, como se já não fosse suficiente o seu sofrimento. Mesmo assim, acho que uma redistribuição de renda não pode acontecer suficientemente rápido, e que há formas de se remediar a situação no momento investindo em inteligência policial.
Posted by: Leila | agosto 22, 2006 5:03 PM
Flávio, querido, vc me comoveu às lágrimas, vc me ouviu como eu queria se rouvida, dá vontade de chorar mesmo.
estou indignada, mas não consigo sair do lugar.
lendo os textos, me emocionei com o Lucia Malla, tbm, vá ler, vive livre, nós não.
Precisamos fazer algo, chega de ter medo e ficar atada.
Um abraço forte, laura
Posted by: laura | agosto 22, 2006 1:58 PM
Assino embaixo, Flavio.
O individualismo e a indiferença são o caldo de cultura onde cresce a violencia de hoje.
Não tenho duvidas disso.
Beijo pra você, parabéns pelo post.
Posted by: BethS | agosto 22, 2006 12:16 PM