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Primeiro dia de férias

Acordei bem, descansado. Afinal estou de férias e nada consegue perturbar meu humor. Tive um ano difícil com muito stress no trabalho e tensões de todo tipo. Me deixou um tanto irritado e nervoso mas hoje finalmente acordei bem. Ninguém vai dizer hoje que sou neurastênico, estou de muito bom humor e o sol radiante lá fora me convida a um sorriso que durará até à noite. Depois de uma bela ducha revigorante, vou tomar meu café da manhã. Os raios de luz da manhã entram suaves filtrados pela cortina fina. Leio despreocupadamente as paginas de fofocas do jornal enquanto bebo meu café com leite. Percebo que está um tantinho forte o café e decido colocar mais leite. As crianças liquidaram com o que tinha na leiteira e então fui à cozinha apanhar mais. Peguei a embalagem e em um gesto automático, comecei a ler o que estava escrito nela. Leite UHT, ultra hight temperature. Muito bem, super moderno esse leite. Saudável, seguro. Li mais abaixo: “o sistema UHT consiste em se elevar a temperatura do leite muito rapidamente até 140 graus e depois resfriá-lo em poucos segundos. Desta forma se assegura que todas as bactérias e microorganismos nocivos porventura presentes no leite sejam eliminadas.” Pensei: puxa vida, que progresso. Eles matam todos os bichinhos nocivos do leite. Enquanto pensava nisso, levava a xícara à boca, mas naquele momento um outro pensamento invadiu meus serenos divagares e derrubando tudo o que encontrou à sua frente, alojou-se como um pino agudo em meu cerebelo: quer dizer então que vendem o leite assim cheio de cadáveres? O que estou levando à boca nada mais é que um cemitério líquido com milhões de bactérias mortas me lembrando os campos de extermínio nazistas. Eu ando bebendo Auschwitz empacotadas!!! Cazzo!
Algo dentro me começa a ferver. Vejo que tem um número de atendimento ao consumidor e depois de ter tentado vomitar o leite e escovar os dentes cinco vezes, pego o telefone e ligo para a empresa leiteira:

- Atendimento ao consumidor Trento Latte, sou Maria, em que posso ser util?
- Primeiramente me explicando o que quer dizer UHT.
-Ah sim, é um método de esterilização de alimentos que permite a máxima conservação das propriedades nutricionais mediante a utilização da temper..
-Quer dizer que é como um embalsamar? Não basta encher de morte meu leite, mas tem que conservar os cadáveres. Pra que isso minha senhora?
-Cadáveres? Desculpe-me, deixe-me entender a sua colocação.
-O caso é maior do que simplesmente engolir campos de concentração nazistas! Vocês criam um monte de mumiazinhas e obrigam a gente a se alimentar disso!!
-Senhor, não estou entendendo...
-Não está entendendo! Bela resposta! Sei que você vai morrer de rir quando eu desligar! Vocês desses calls centers são todos educadinhos de fachada, mas por trás se cagam de gargalhar dos panacas aqui que PAGAM PRA ENGOLIR COISAS MORTAS!!
-Meu senhor, se o senhor se acalmar eu poss..
-ACALMAR? Você ainda não me viu nervoso, minha querida. Onde é essa merda de fabrica, eu vou até aí!! EU VOU Até AI!!
-Mas o senhor esta gritando muito e eu tenho que desligar nesses casos.
-DESLIGA!!! BANDO DE ASSASSINOS!!! Não vou sossegar enquanto não esclarecer isso. Sou um cidadão que cumpro com meu dever, trabalho e pago minhas taxas, tá me ouvindo? Mas além dos deveres nós cidadãos temos direitos também, sabia? Direito a uma alimentação sadia e livre de micróbios em decomposição como estes que se encontram nessa sopa bacteriológica que vocês ousam vender aos incautos como eu. Mas acabou, sabe? Basta, vou aos jornais!!
-Se eu conseguisse entender de que se trata, talvez eu pudesse lhe auxiliar.
-Escuta... ok... vou tentar me acalmar... comecei mal meu dia sabe... meu primeiro dia de férias. Me desculpe minha senhora, a senhora não tem nada a ver com as porcarias que os teus patrões fazem não é mesmo?
-Senhor, eu colaboro para uma empresa muito conceituada, e estamos muito felizes aqui por pertencermos a este grupo empresarial. Se existe este número verde, é exatamente por respeito ao consumidor. Até agora não consegui entender de que porcarias o senhor se refere.
-Eu... estava tomando leite...
-Bem, ok.
-Eu vi a ... como se chama? ... embalagem ... e tinha lá escrito que a temperatura mata todos os bichinhos.
-Exatamente.
-Veja, eu estou falando calmamente em um tom de voz civilizado agora. Tô até com um pouco de dor de cabeça, mas vou te perguntar assim ...baixinho.
-Sim, me diga.
-Mas... os bichinhos pra onde vão depois de mortos?
-Depois do processo de choque térmico, o leite é totalmente filtrado e livre de impurezas.
-Você tá dizendo isso pra me agradar não é?
-Não, é a mais pura verdade, tão pura quanto é puro nosso leite.
-Oh, que precipitado que eu fui. Me desculpe pela veemência inicial. Sabe, é meu primeiro dia de férias e eu...
-Compreendo perfeitamente meu senhor. Vivemos sob tensões e não é incomum que uma hora ou outra percamos os freios morais e nos exaltemos.
-Freios morais.... exato.... a senhora sabe.... das coisas.
-O senhor, de qualquer maneira está bem, não?
-Não, quer dizer, sim, estou bem sim. Muito obrigado.
-Disponha, foi um prazer poder ajudá-lo. A Trento Latte agradece sua ligação e se coloca a disposição para outras consultas. Bom dia.
-Bom dia.

Eu estava arrasado. Tinha cometido uma gafe fenomenal. Por sorte não tinha ninguém em casa e assim, só eu e a atendente do call center sabíamos dessa fabulosa merda que eu tinha acabado de fazer. Mas me lembrei que ela nesse momento poderia estar contando o ocorrido às suas colegas, ou mesmo relatando o caso ao chefe. Nesse momento minha mulher e minha filha, entram em casa um pouco espantadas. Me pegaram um pouco descabelado e de pijamas, com um copo de leite na mão esquerda e o telefone na direita. Acho que minha fisionomia estava um pouco alterada. Elas foram dizendo quase juntas:

-O que aconteceu?
-Como o que aconteceu? Não aconteceu nada.
-A gente estava conversando com a vizinha lá embaixo na entrada do prédio e pudemos ouvir teus gritos. O que foi?
-Qual vizinha era?
-A dona Mirella, ela estava contando como ela faz pra plantar as abobri...
-Sim, sim, sim, ok. A Mirella ouviu gritos também?
-Claro, a gente ainda tentou disfarçar mas ela reconheceu claramente a tua voz que dizia: “eu vou até ai”. Onde você vai?
-....
-Senhor, estou falando com você. Tem algo estranho aqui. Você está me escondendo algo. Eu sinto isso. E este olhar de homicida maluco eu conheço muito bem, tem minhocas rondando este cérebro aí. Onde é que você vai e com quem?
-Escuta aqui, eu vou sair... vou te dizer toda a verdade. Eu vou até a Trento Latte, preciso me encontrar com uma moça que trabalha lá. E é urgente.
-Bastardo! Eu não disse minha filha, que aí tinha coisa?
-Eu estou sendo sincero, tenho que encontrá-la pra esclarecer uma coisa que é só nossa, está só entre nós dois. Minha reputação está em jogo, sabe? Eu não posso permitir que ela dê com a língua nos dentes e espalhe a notícia.
-Você não se envergonha de dizer isso na frente de tua filha? Tem consciência do que está fazendo seu canalha?
-Você deve confiar em mim, que no final vai tudo acabar bem, fique tranqüila.
-Seu cretino, como posso ficar tranqüila? Eu não te bato agora porque estou me esforçando para ser civilizada, mas só por respeito à nossa filha, velho indecente.
-Olha, podem tomar o leite sossegadas. E basta de irritação só porque dei uns gritos e a Mirella ouviu.
-Filha, procura o número do doutor Paione que acho que o papai não está bem.
-Fique onde está filha, não chame médico nenhum. Eu vou sair agora e vocês vão ficar tomando leite e quando eu voltar vamos chamar a Mirella pra nos contar das abobrinhas.

Fui saindo da sala sob olhares atônitos das duas. Me vesti rapidamente, apanhei o carro e em menos de quarenta minutos estava estacionando em frente à Trento Latte. Meu coração batia descompassado e forte. Estava um tanto emocionado, mas tinha que enfrentar a situação. E tinha que ser pessoalmente, essas coisas não se esclarecem por telefone. Na recepção, uma bela loira, que já pensei ser a ... como era mesmo? .... Maria, acho que era Maria que se chamava. Ela levantou o rosto e sorriu:

-Bom dia, em que posso ser útil?
-Você não é a Maria, não?
-Não, me chamo Cláudia. O senhor procura por Maria?
-Sim! Ela deve estar, acabei de falar com ela pelo telefone. A senhorita poderia chamá-la?
-Temos várias Marias aqui, com qual delas quer falar?
-A do call center.
-Ah, me desculpe, mas o call center não funciona aqui no nosso estabelecimento.
-Como não? Eu falei com a Maria há pouco. Escute, tenho que falar com ela urgente, nós temos algo a esclarecer. Não posso dizer o que é, é um segredo nosso, entende?
-O senhor está se alterando, mantenha-se calmo por favor. Além disso, como já falei, o call center não é aqui na fabrica. Na verdade é uma empresa de Napoli que nos presta este serviço. Provavelmente o senhor falou com alguém em Napoli.
-A senhora está brincando comigo não é? Napoli? Como faço pra encontrar a Maria, santo deus?
-Senhor, além disso, casos sentimentais não nos dizem respeito. É nossa política evitar tratar disso em horário de trabalho.
-Caso sentimental. Do que está falando, sua louca? Eu preciso encontrar a Maria, e agora!
-O senhor não pode entrar aí!

Fui entrando por uma porta verde à direita do balcão da recepção e... bingo... vi uma moça com fones em frente à um terminal de computador. Só podia ser a Maria. Chamei-a:

-Maria, vim pessoalmente esclarecer aquele nosso mal entendido.

Ela me olhou espantada, enquanto a moça da recepção chegava esbaforida:

-Senhor, essa é nossa telefonista, ela se chama também Maria, mas não é a que o senhor está procurando.
-Hahaha, tente enganar outro! Maria, me ouça. Fui eu que liguei há pouco. Esqueça Auschwitz, os nazistas e as bactérias mumificadas. Eu refleti e sei que cometi uma gafe. Estou aqui para remediar isso. Não é culpa minha se ando meio nervoso ultimamente. Nem sei como o cemitério de micróbios me veio parar na cabeça. Foi uma loucura, mas já passou.
-O senhor tem certeza?

Maria me olhava com espanto. Imaginei que estivesse espantada com minha coragem e honestidade. Seus olhos eram doces e meigos. Nossos olhares se cruzavam intensamente e naquele momento eu senti que algo nascia entre nós dois. Ela havia me entendido perfeitamente, eu sentia isso, apesar de sua cara assustada. Não pude resistir e me joguei para abraça-la. Foi quando ouvi a recepcionista gritar:

-Segurança, Segurança! Tem um maluco aqui agarrando a Maria telefonista!!

Nem bem terminei de ouvir a frase e senti um tapão do ouvido direito e um chute na canela esquerda. Ah, que gente mal-humorada e violenta. Não pude trocar nenhuma idéia com aqueles dois a respeito de meu gesto de puro carinho, não queriam mesmo saber de estreitar laços. Os dois me jogaram em cima do meu carro, que chegou a amassar a capota. Quando chego em casa, sou recebido por minha mulher que me agride oito vezes na cabeça com o pau de macarrão. Eu disse pra ela chamar a Mirella que eu daria uma boa desculpa por ter gritado, mas ela não quis saber. Pau de macarrão, que falta de criatividade. E que azedume!
Quando voltei do hospital, eram já quatro da tarde. A cabeça enfaixada, o corpo todo dolorido e uma idéia fixa na mente: Maria. Amanhã volto lá e espero ela sair da fábrica para falar com ela. Tempo eu tenho, estou de férias. Apenas no primeiro dia de férias.

Comments

meu querido, eu estive aqui duas vezes e não consegui comentar, a caixa não abriaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, claro que é um convidado especial, ia pedir para Denise te convidar via email- vc não está viajando?
Teus textos são ótimos. bj laura

Puta que pariu, que férias longas.

É, chega de férias, volta!
Respondendo a sua pergunta lá no Alma: você ainda terá que esperar alguns meses para tomar uma birra comigo, snif... Só vou pra Itália (e se der certo mesmo) no ano que vem. E não posso te ligar, como você me pediu, porque o senhor ainda NÃO me passou seu telefone (é, tem tempo...). Bacini.

Chega de férias! Volta!

O nome suave disso é stress... BeijoKas e goze bem as férias!

E gorgonzola, você encara ? :-)

Ué, deu erro.
Flávio, boas férias.
Vc é mto doido mesmo, eu gosto. bj laura

por isso que eu não como caviar nem morta.

Sou novo, sim, faz uns dois meses q venho lutando com meu blog.
Já consegui colocar no Technorati e tudo mais, rsrsr.
Fiz um crônica, aparece por lá.
Abraço, brigado pela visita também.

Tinha que chamar a Lúcia Malla aqui para esclarecer o que acontece com as bactérias e outros germes depois de mortos. :)

Também lembrei dos lactobacilos vivos que minha filha engole. Até fiquei um pouco preocupado...

Acho o Dr. Claudio diria que a segunda parte da história seria um episódio de "reparação maníaca", não?

"Se não matar, engorda!" Era o que diziam antigamente. Neurastênico também parece coisa antiga, escolha entre uma coisa ou outra.
Vale outra postagem, quando se lembrar de outros componentes que acompanham o leite UHT!
Beijus

meu Deus...eu achava que era neurótica só por que adoro banheiro limpo ...rsrs
sou normal pra caramba...rs

beijo...

e boas férias...

Visse o que deu ficar lendo literatura anal ? :-)

Tá vendo? Ficar doido não é pra quem quer, mas pra quem pode! Quanto aos "defuntos no leite", tome iakult, pelo menos tem lactobacilos VIVOS!

Hahahaha, que viagem Flavio... Mas por conta disso eu agora estou com nojo de tomar o meu milkshake diário. Seu mau!

fiquei meio ressabiada...sabe que numa época da vida o médico me mandou tomar yakult, o tal dos lactobacilos vivos e eu fiquei cabrera? ficava matutando nos lactobacilos vivos o que estariam fazendo no meu estômago ;D

Goze as férias, esfrie a cabeça, saia, relaxe, tome umas cervejas.
Aliás, você sabe o que é o fermento usado na cerveja?

Bem se vê que voc~e estava precisando de férias!
( Excelente, como sempre, Flávio! O tipo de texto que eu adoro encontrar por aqui.)

Muito longo, mas h i l á r i o.
Algo Grande Família.
Eu também leio muitas embalagem, esta de UHT já estou na décima segunda leitura.
Q férias dos diabos a sua, hein?

E eu ainda vou ser expulsa do meu predio pelas gargalhadas!!!!!

Você é impagável, inimitável e sensacional!!!!!

para nossa sorte, somente o primeiro dia...

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