Histórias violentas 2
Cansaço
- Eu já estou cansado de me matar. Já me matei muitas vezes. Ainda assim respiro e sofro e novamente assumo uma postura e sofro. Já deixei de participar, morri socialmente. Já comi angústia para me matar de frustração, mas esta não mata e só dói. Deixei de observar os outros. Deixei de respirar amor e continuo aqui, sufocado, porém não me acabo. Qual é o fim? Como é que se mata a si mesmo? Não consigo imaginar mais nada. Desisto. Cansei. Vou viver e pronto e basta, disse a mim mesmo.
Comprei então sapatos novos e me pus a correr e subir e descer e andar e vir. Movimento sem fim junto com a alegria de estar respirando. Fazia dos dias um caminhar e correr e olhar tudo como instantes que correm e com isso cansei.
O ser humano cansado tem uma particularidade que o faz perceber como o tempo atua sobre a matéria de seu corpo, degradando sua unidade e tentando fazer com que suas substâncias retornem à suas formas originais, dispersas, livres e sem o controle rígido da vida. Gastar energia é morrer diante de nós mesmos e notar o esvair das chamas da alegria e do entusiasmo, cedendo lugar a lúgubre cinza do enfado, prostrando todo o seu ser conhecido, tomando todas as suas faculdades, obscurecendo todas as razões e pensamentos, levando longe toda sabedoria e todo o conhecimento. Se percebe nesse momento, o vazio da não existência, o espaço nunca preenchido por aquilo que nunca vai existir. Cansar-se é fazer o nada e a negação invadir o corpo único e ter a certeza de que basta um sopro, para não ser.
Como não ser, se sou? Quero não ser doutor, mas tenho medo.
- Procure descansar, disse o doutor ao mesmo tempo em que me ajudava a deitar e continuou: - O senhor tem pensado demais em tudo isso e o fato de ser um ator o leva a exagerar com as emoções e as elocubrações.
- Pode ser, pode ser.
- Porém não posso deixar de admirar o seu modo de pensar e filosofar. Só digo que a vida deve ser vivida e não entendida.
- Busco a alma e corro seja com meu corpo que com meu cérebro em direção à verdade e essa me escapa e a vejo sempre de relance virando a esquina no fim daquele corredor imenso. Posso ver como é formada mas não distinguo seus detalhes e nuances de cor. As vezes chego muito próximo e posso sentir sua presença, mas logo em seguida ela consegue se transformar e desaparecer de um modo que sempre não só me surpreende mas também me aborrece bastante. Já procurei ficar imóvel e esperar que ela viesse por sua vontade, mas ela me olha de longe e não toma iniciativas.
- Entendo.
- Escura e maldita sombra ! Fulgor de chamas negras que obscurecem a razão ! Vermes do nada !
- Não grite por favor.
- Grito! Grito ao vento desesperado do tempo que não traz de volta meus minutos. Me porta sempre novos e novos e novos minutos. Quero todos de volta! Grito com tudo o que me traz coisas novas e me faz...o que é isso doutor?
- Uma arma.
- Sim, mas...
- O senhor saia imediatamente por aquela porta e não volte aqui nunca mais. Se quiser se matar se mate, mas seja competente e não me encha mais o saco.
- Mas, é arbitrário, nada profissional, voce me deve ouvir.
- Não devo nada quando meu saco está para estourar.
- Ok, ok, já entendi.
Saí do consultório e me pus a correr e assim conseguia não pensar em nada. Era o quinto psicanalista que me dispensava esse ano. Devia fazer algo. Voltei ao teatro.
Logo na entrada, os curiosos de sempre. Os considerei transparentes e pude ouvir algo mas não entendi nada. Fodam-se.
Quero falar e o que posso falar?
Faltam ainda quatro horas para o espetáculo. Entro em meu camarim e vejo as insólitas coisas que me fazem palhaço de dramáticas feições e me lembro de como as pessoas ora riem ora choram com minha atuação. Por duas horas ao dia tenho o poder de influenciar as mentes e atingir até os corpos de centenas de pessoas de um só golpe. Os seus fluidos circulam melhor depois que termino minha sessão. As glândulas foram estimuladas e eu fui o responsável. Bem, bem, antes, muito bem. Que bela merda de poder. Curar a todos e trazer paz de espírito e felicidade ainda que fugidia a corações que não reconheço. Me dar desse jeito e não receber nada além de aplausos, mãos batendo e agitando o ar em formas de ondas mecânicas irritantes aos meus ouvidos. Não quero aplausos, quero entender o porque vêem todos aqui me aplaudir e ao final tornar às suas casas e continuar, continuar.
Continuam a existir a despeito de minha compaixão ou do meu desprezo. Vivem independentes de mim e eu que horas antes lhes infundi o bem de viver, não represento mais que a mosca que passa do outro lado da rua.
Não valho nada para eles, nada!
- Sim, mas não grite.
- Como não grite? Estou dizendo que não valho nada. Voce é meu psicanalista ou não? Não me deixa dizer as coisas.
- Diga tudo mas sem gritar.
- Voce é como todos os outros. Saídos de uma mesma fôrma e feitos da mesma massa. Posso apostar que assados no mesmo fôrno com a mesma temperatura pelo mesmo tempo.
- O senhor é muito inteligente, mas essas alegorias e eufemismos não podem que fazer-lhe sofrer ainda mais.
- Porque?
- Porque lhe infestam a mente como insetos em um porão e são tão inúteis quanto.
- Vá tomar no seu cu doutor.
- Hãmm?
- Entendeu? Insetos na mente tem o senhor, doutor de merda.
- Voce entendeu o contrário do que eu queria dizer. Eu disse que voce é inteligente mas..
- Mas o caralho, adeus
Sai e bati aquela porta como nunca havia feito e no fundo junto com a surprêsa pelo gesto brusco, uma certa alegria, um sentimento divertido me tomou por dois segundos.
Depois o vazio e aquela sensação de haver perdido algo. A ausência de algo que nunca existiu, o nada. Perder é como morrer em partes e ter a consciência da finitude e da solidão do abandono. Ser roubado daquilo que possuimos de mais valioso e que sabemos que não sabemos do que se trata. Perder aquilo que não conhecemos e que, intuímos, poderia nos salvar.
Começa a chover e olho para fora, meu pescoço dói e devo me ajeitar nesse divã senão além da cabeça, me entorta também a coluna. Olho para o relógio na parede, são quase sete.
- Doutor, já são duas horas que estou aqui falando. Tenho que ir para o teatro.
- Calma, não foram duas horas e faltam ainda quarenta minutos.
- Não posso me atrasar. Tenho sido um relapso em muita coisa, inclusive na questão dos horários. Chego sempre tarde, sempre tarde. Nasci no momento seguinte àquele a mim destinado. A minha vida segue um tempo diferente das dos demais seres humanos. Porque tenho esse atraso? Essa maldita imprecisão? Porque não consigo me ajustar na coisa mais racional e pragmática que possa existir? Porque sou assim desregulado como um despertador enferrujado que martela seus campanelos quando não servem mais para nada, a não ser para fazer um papel ridículo senão patético? O senhor não me responde nunca.
- Não estou aqui para isso. Suas questões são legítimas mas eu quero analisar as razões de fundo e quem sabe motivá-las.
- Charlatão!
- Desculpe?
- Eu disse que voce é um charlatão. Cômodo estar aí sentado a mil dinheiros a hora e depois vir me dizer que tenho problemas e que o seu trabalho consiste em motivá-los. Será difícil entender o motivo de meu sofrimento? Estou vivo, esta é a questao! Vivo! Ainda vivo!
- Não grite por favor, nós estamos em um consultório e este é um edificio....
- Eu sofro porque vivo!!!!
- Te falta o sexo, só pode ser isso, mas calma.
- Reproduzir? Ou perder-me no prazer tosco e inútil dos beijos e carícias? O que há de mais repugnante que dois seres enroscados se confundindo em líquidas morbosidades? Fazer mais vida? A vida é a dor, será que não entende isso, cabeça de abóbora?
- Essa visão revela algo.
- Revela que estou de saco lotado e vou embora e tem mais, não lhe pago mais nem um centavo.
- No seu lugar não faria isso, pois me sentiria mal depois.
- Não! O contrário! Me sinto já melhor!
- Não grite eu disse.
- AAAAAHHHHHH!!!!! Melhor!!! Doutor filho de uma égua!!! GRITO SIM!!
- Pode ir, por favor.
- Vou, vou, vou, vou!
Saio e entro em um bar. Tomo duas cervejas e me dirijo ao teatro. Entro pelos fundos e tudo está calmo. Tenho que descer a escada que liga a área dos bastidores com os camarins. Está tudo escuro mas vejo que meu camarim tem as luzes acesas. Abro a porta e por um segundo não consigo entender o que vejo. Estão todos lá, todos com seus ares de sabidos e de grandes professores da verdade. Todos me olham como sempre me olharam, com o seu modo arrogante, frio e distante. Ouço então a porta bater às minhas costas e vejo que três se aproximam por trás e me prendem os braços. Me jogam no chão e aquele horrível barbudo bate com o banquinho em minha cabeça. Sinto o sangue que começa a sair pelo nariz e pela boca e percebo bem quando o osso do crânio se quebra, afundando meu cérebro. Meu corpo começa a se debater mas é algo totalmente expontâneo e incontrolável. Eu não me agitaria assim nesse momento mas não me controlo, são espasmos e o corpo se bate. Então ajeitam bem minha cabeça contra o solo tendo o cuidado de deixar o nariz amassado contra o pavimento. Metem então o banquinho por cima de meu crânio e começam a exercer pressão. Penso que todos os sete estavam colocando seus pesos e percebia certa perversa alegria no ar. Um deles se abaixa e diz meio sorrindo que algo como um óleo está saindo de meus ouvidos. Percebo que a respiração ja é impossível e o corpo de novo se bate. Tenho até uma certa vergonha por não estar firme e imóvel. Ouço risos abafados. Uma paz me invade e enfim percebo que estou livre. Sou livre e posso repousar meu espirito.
- Finalmente, sou livre e posso repousar meu espirito.
- Hã?
- Eu disse que então finalmente sou livre e posso repousar meu espírito.
- Peço, hã... mil desculpas... mas acho que cochilei.
Comments
...no começo pensei que fosse de verdade aí comecei a ficar preocupada, aí deu uma agonia e depois vi que era mentirinha. Mentirinha?
muito bom
Posted by: Cynthia | setembro 13, 2006 12:49 PM
Bah, maravilhoso, tchê. Quase acreditei num final fisicamente violento. Já estava pensando "mas como?".
Ontem tava lendo um livro russo e soube que os caras trocam mesmo bicotas, argh! Espero que o costume não chegue a Riva.
Posted by: Milton Ribeiro | agosto 30, 2006 2:07 PM
Quanta angústia. Fico em dúvida se para descrevê-la tão bem, você vive estes sentimentos.
Posted by: Viva | agosto 29, 2006 8:36 PM
Parece que todos estamos de saco cheio, mas o seu "saco cheio" está sensacionallllllll!
Beijo
Posted by: Mônica | agosto 29, 2006 4:55 PM
Flavio, depois de tudo esta prosopopéia, não tenho muito a contribuir, a não ser com um profundo nada a declarar e o inevitável:"- Sensacional".
Abraço
Posted by: gugala | agosto 29, 2006 2:15 PM
Suas histórias são surpreendentes. O final sempre é uma loucura. De onde você tira tanta imaginação? Beijocas
Posted by: Yvonne | agosto 29, 2006 11:01 AM
Belíssimo o seu blog, Flavio. Parabéns!
Posted by: marconi leal | agosto 29, 2006 2:25 AM