Histórias Violentas 3
Na escola
-Me dá uma bala?
-Claro (clic clic) (bang) (bang) (bang) (bang) (bang) (bang). Uma não, seis!
-Oh...b--rrr..ihh..ga...d...
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« julho 2006 | Main | setembro 2006 »
Na escola
-Me dá uma bala?
-Claro (clic clic) (bang) (bang) (bang) (bang) (bang) (bang). Uma não, seis!
-Oh...b--rrr..ihh..ga...d...
Cansaço
- Eu já estou cansado de me matar. Já me matei muitas vezes. Ainda assim respiro e sofro e novamente assumo uma postura e sofro. Já deixei de participar, morri socialmente. Já comi angústia para me matar de frustração, mas esta não mata e só dói. Deixei de observar os outros. Deixei de respirar amor e continuo aqui, sufocado, porém não me acabo. Qual é o fim? Como é que se mata a si mesmo? Não consigo imaginar mais nada. Desisto. Cansei. Vou viver e pronto e basta, disse a mim mesmo.
Comprei então sapatos novos e me pus a correr e subir e descer e andar e vir. Movimento sem fim junto com a alegria de estar respirando. Fazia dos dias um caminhar e correr e olhar tudo como instantes que correm e com isso cansei.
O ser humano cansado tem uma particularidade que o faz perceber como o tempo atua sobre a matéria de seu corpo, degradando sua unidade e tentando fazer com que suas substâncias retornem à suas formas originais, dispersas, livres e sem o controle rígido da vida. Gastar energia é morrer diante de nós mesmos e notar o esvair das chamas da alegria e do entusiasmo, cedendo lugar a lúgubre cinza do enfado, prostrando todo o seu ser conhecido, tomando todas as suas faculdades, obscurecendo todas as razões e pensamentos, levando longe toda sabedoria e todo o conhecimento. Se percebe nesse momento, o vazio da não existência, o espaço nunca preenchido por aquilo que nunca vai existir. Cansar-se é fazer o nada e a negação invadir o corpo único e ter a certeza de que basta um sopro, para não ser.
Como não ser, se sou? Quero não ser doutor, mas tenho medo.
- Procure descansar, disse o doutor ao mesmo tempo em que me ajudava a deitar e continuou: - O senhor tem pensado demais em tudo isso e o fato de ser um ator o leva a exagerar com as emoções e as elocubrações.
- Pode ser, pode ser.
- Porém não posso deixar de admirar o seu modo de pensar e filosofar. Só digo que a vida deve ser vivida e não entendida.
- Busco a alma e corro seja com meu corpo que com meu cérebro em direção à verdade e essa me escapa e a vejo sempre de relance virando a esquina no fim daquele corredor imenso. Posso ver como é formada mas não distinguo seus detalhes e nuances de cor. As vezes chego muito próximo e posso sentir sua presença, mas logo em seguida ela consegue se transformar e desaparecer de um modo que sempre não só me surpreende mas também me aborrece bastante. Já procurei ficar imóvel e esperar que ela viesse por sua vontade, mas ela me olha de longe e não toma iniciativas.
- Entendo.
- Escura e maldita sombra ! Fulgor de chamas negras que obscurecem a razão ! Vermes do nada !
- Não grite por favor.
- Grito! Grito ao vento desesperado do tempo que não traz de volta meus minutos. Me porta sempre novos e novos e novos minutos. Quero todos de volta! Grito com tudo o que me traz coisas novas e me faz...o que é isso doutor?
- Uma arma.
- Sim, mas...
- O senhor saia imediatamente por aquela porta e não volte aqui nunca mais. Se quiser se matar se mate, mas seja competente e não me encha mais o saco.
- Mas, é arbitrário, nada profissional, voce me deve ouvir.
- Não devo nada quando meu saco está para estourar.
- Ok, ok, já entendi.
Saí do consultório e me pus a correr e assim conseguia não pensar em nada. Era o quinto psicanalista que me dispensava esse ano. Devia fazer algo. Voltei ao teatro.
Logo na entrada, os curiosos de sempre. Os considerei transparentes e pude ouvir algo mas não entendi nada. Fodam-se.
Quero falar e o que posso falar?
Faltam ainda quatro horas para o espetáculo. Entro em meu camarim e vejo as insólitas coisas que me fazem palhaço de dramáticas feições e me lembro de como as pessoas ora riem ora choram com minha atuação. Por duas horas ao dia tenho o poder de influenciar as mentes e atingir até os corpos de centenas de pessoas de um só golpe. Os seus fluidos circulam melhor depois que termino minha sessão. As glândulas foram estimuladas e eu fui o responsável. Bem, bem, antes, muito bem. Que bela merda de poder. Curar a todos e trazer paz de espírito e felicidade ainda que fugidia a corações que não reconheço. Me dar desse jeito e não receber nada além de aplausos, mãos batendo e agitando o ar em formas de ondas mecânicas irritantes aos meus ouvidos. Não quero aplausos, quero entender o porque vêem todos aqui me aplaudir e ao final tornar às suas casas e continuar, continuar.
Continuam a existir a despeito de minha compaixão ou do meu desprezo. Vivem independentes de mim e eu que horas antes lhes infundi o bem de viver, não represento mais que a mosca que passa do outro lado da rua.
Não valho nada para eles, nada!
- Sim, mas não grite.
- Como não grite? Estou dizendo que não valho nada. Voce é meu psicanalista ou não? Não me deixa dizer as coisas.
- Diga tudo mas sem gritar.
- Voce é como todos os outros. Saídos de uma mesma fôrma e feitos da mesma massa. Posso apostar que assados no mesmo fôrno com a mesma temperatura pelo mesmo tempo.
- O senhor é muito inteligente, mas essas alegorias e eufemismos não podem que fazer-lhe sofrer ainda mais.
- Porque?
- Porque lhe infestam a mente como insetos em um porão e são tão inúteis quanto.
- Vá tomar no seu cu doutor.
- Hãmm?
- Entendeu? Insetos na mente tem o senhor, doutor de merda.
- Voce entendeu o contrário do que eu queria dizer. Eu disse que voce é inteligente mas..
- Mas o caralho, adeus
Sai e bati aquela porta como nunca havia feito e no fundo junto com a surprêsa pelo gesto brusco, uma certa alegria, um sentimento divertido me tomou por dois segundos.
Depois o vazio e aquela sensação de haver perdido algo. A ausência de algo que nunca existiu, o nada. Perder é como morrer em partes e ter a consciência da finitude e da solidão do abandono. Ser roubado daquilo que possuimos de mais valioso e que sabemos que não sabemos do que se trata. Perder aquilo que não conhecemos e que, intuímos, poderia nos salvar.
Começa a chover e olho para fora, meu pescoço dói e devo me ajeitar nesse divã senão além da cabeça, me entorta também a coluna. Olho para o relógio na parede, são quase sete.
- Doutor, já são duas horas que estou aqui falando. Tenho que ir para o teatro.
- Calma, não foram duas horas e faltam ainda quarenta minutos.
- Não posso me atrasar. Tenho sido um relapso em muita coisa, inclusive na questão dos horários. Chego sempre tarde, sempre tarde. Nasci no momento seguinte àquele a mim destinado. A minha vida segue um tempo diferente das dos demais seres humanos. Porque tenho esse atraso? Essa maldita imprecisão? Porque não consigo me ajustar na coisa mais racional e pragmática que possa existir? Porque sou assim desregulado como um despertador enferrujado que martela seus campanelos quando não servem mais para nada, a não ser para fazer um papel ridículo senão patético? O senhor não me responde nunca.
- Não estou aqui para isso. Suas questões são legítimas mas eu quero analisar as razões de fundo e quem sabe motivá-las.
- Charlatão!
- Desculpe?
- Eu disse que voce é um charlatão. Cômodo estar aí sentado a mil dinheiros a hora e depois vir me dizer que tenho problemas e que o seu trabalho consiste em motivá-los. Será difícil entender o motivo de meu sofrimento? Estou vivo, esta é a questao! Vivo! Ainda vivo!
- Não grite por favor, nós estamos em um consultório e este é um edificio....
- Eu sofro porque vivo!!!!
- Te falta o sexo, só pode ser isso, mas calma.
- Reproduzir? Ou perder-me no prazer tosco e inútil dos beijos e carícias? O que há de mais repugnante que dois seres enroscados se confundindo em líquidas morbosidades? Fazer mais vida? A vida é a dor, será que não entende isso, cabeça de abóbora?
- Essa visão revela algo.
- Revela que estou de saco lotado e vou embora e tem mais, não lhe pago mais nem um centavo.
- No seu lugar não faria isso, pois me sentiria mal depois.
- Não! O contrário! Me sinto já melhor!
- Não grite eu disse.
- AAAAAHHHHHH!!!!! Melhor!!! Doutor filho de uma égua!!! GRITO SIM!!
- Pode ir, por favor.
- Vou, vou, vou, vou!
Saio e entro em um bar. Tomo duas cervejas e me dirijo ao teatro. Entro pelos fundos e tudo está calmo. Tenho que descer a escada que liga a área dos bastidores com os camarins. Está tudo escuro mas vejo que meu camarim tem as luzes acesas. Abro a porta e por um segundo não consigo entender o que vejo. Estão todos lá, todos com seus ares de sabidos e de grandes professores da verdade. Todos me olham como sempre me olharam, com o seu modo arrogante, frio e distante. Ouço então a porta bater às minhas costas e vejo que três se aproximam por trás e me prendem os braços. Me jogam no chão e aquele horrível barbudo bate com o banquinho em minha cabeça. Sinto o sangue que começa a sair pelo nariz e pela boca e percebo bem quando o osso do crânio se quebra, afundando meu cérebro. Meu corpo começa a se debater mas é algo totalmente expontâneo e incontrolável. Eu não me agitaria assim nesse momento mas não me controlo, são espasmos e o corpo se bate. Então ajeitam bem minha cabeça contra o solo tendo o cuidado de deixar o nariz amassado contra o pavimento. Metem então o banquinho por cima de meu crânio e começam a exercer pressão. Penso que todos os sete estavam colocando seus pesos e percebia certa perversa alegria no ar. Um deles se abaixa e diz meio sorrindo que algo como um óleo está saindo de meus ouvidos. Percebo que a respiração ja é impossível e o corpo de novo se bate. Tenho até uma certa vergonha por não estar firme e imóvel. Ouço risos abafados. Uma paz me invade e enfim percebo que estou livre. Sou livre e posso repousar meu espirito.
- Finalmente, sou livre e posso repousar meu espirito.
- Hã?
- Eu disse que então finalmente sou livre e posso repousar meu espírito.
- Peço, hã... mil desculpas... mas acho que cochilei.
Aproveitando o tema da violência, publicamos uma série de histórias violentas. Para inaugurar, hoje publicamos a primeira. Logo em seguida a segunda e depois segue a série com a terceira e a quarta, pulamos a quinta e a sexta e publicamos o sábado e o domingo. Espera, eu sempre me confundo com esses numeros. Bem, acho que voce entendeu. Espero.
A história de hoje é "A Entrevista" e estranhamente fala de uma entrevista.
A Entrevista
P – Antes de começar propriamente a entrevista eu gostaria de dizer que sou sua fã e que simplesmente adoro seus livros e nunca imaginei que um dia pudesse estar frente a frente com meu ídolo, isto é, o senhor, ou melhor, você. Posso chamá-lo de você?
R - Ahn, sim!
P – AAI! Desculpe. Eu realmente estou emocionada e não sei nem por onde começar...estou sem palavras...
R – Bem, eu...
P – Você prefere manteiga ou margarina?
R – O que?
P – Eu acho bárbaro seu jeito de falar! Você é o Maximo! E qual sua opinião sobre a libertação feminina?
R – Bom...an...
P – Esta pergunta está muito batida não é mesmo e o assunto já envelheceu. Não se preocupe querido, vou lhe fazer uma outra bem melhor, só pra você: é verdade que politicamente você...bem, na verdade acho que ninguém quer saber de posições políticas, não é mesmo? Assunto mais chato.
R – Olha, se você...
P – Pensei que você fosse mais alto sabe? Não sei, me pareceu. É que eu só te conhecia da TV e dos livros e revistas. Na verdade essa questão de altura pouco importa, porque seus olhos é que são mágicos! Que brilho intenso, revelando-nos as angústias e desejos ocultos de um poeta maduro, adulto, serio e másculo! E suas meias quem as lava?
R – Eu...
P – Você?
R – Não!! Eu quis dizer...
P – Ah amor, não tente me esconder! Não há mal algum em lavar meias...eu mesmo lavo as minhas...bem, que te importa, não é mesmo? Olha, realmente quero me desculpar pelo meu comportamento, mas é que você para mim é sobreumano, um ser mitológico, um deus! Juro que daria minha vida por você! Quer dormir comigo?
R – Mas...mas...
P – Acho que vou morrer! Eu, tendo uma relação sexual com um deus! Você...Você...é mais que perfeitissimo. É perfeitissimosissimo. É supra-otimimissimo...
R – Que esta dizendo?
P – Tesão! Meu tesão! Olha para os meus peitos! São todos teus!!
R – Chega!
P – Como você é firme e...duro!! Acho que já vou gozar!! Não pare agora!!
R – Não pare o que?
P – Vem cá!!
R – Pare!!
P – Lambe minha buceta!!! Vai!!!
R – Sai!!!
P – AAAAIIII!!! AAAAAIIIII!!!!!
R – Sua louca!! Pare com isso!! Vou ser obrigado a...
Era tarde da noite e os vizinhos não ouviram nenhum dos seis tiros.
A Laura do blog Caminhar está indignada. Está tentando levantar uma voz que possa ao menos ser ouvida por quem pensa como ela. O ideal seria que essa voz se transformasse em ação e pudesse em algum modo mudar uma situação. Porque a indignação da Laura é legitima e combina com a de uma grande maioria no Brasil. É a indignação de quem vive em um pais cada vez mais dominado pela violência. Mas o drama seria inevitavelmente um pouco menor, se esse script não fosse já tão conhecido há muito tempo. A constatação e a inexorabilidade dos fatos sem que algo seja feito, penso que seja o centro do problema. Mas a inação das autoridades, infelizmente faz parte do jogo também.
O nosso é conhecido como o país dos contrastes e esta fama não é sem razão. Desigualdades de todos os tipos estão incorporadas na cultura como dados de fato, vistas como coisas naturais e o senso comum aceita isso numa boa. Pessoas que vivem em montes de lixo e comem algo não melhor que isso, fazem parte da paisagem. Somos um dos países com mais terras férteis no mundo, mas temos um dos maiores movimentos de sem terra. Se antes nos emocionávamos quando víamos um menino abandonado, hoje tivemos que endurecer o coração diante da enorme quantidade desses pequenos sem futuro. Verdadeiras tragédias se apresentam diante da gente todos os dias e nem bem nos damos conta. Talvez porque um certo individualismo utilitarista entrou em cena. Mas adotamos a livre concorrência e o modelo consumista em um país onde nem a metade da população faz parte do mercado. Claro que esse é um fenômeno mundial, mas diante de um cenário como esse, o espantoso é o quanto é branda a violência no Brasil.
Nós não conseguimos garantir que todos possam ir à escola, mas desejamos que todos se comportem como cidadãos respeitáveis. Não conseguimos fazer boa parte do nosso povo ter um trabalho digno e mesmo muitos dos que trabalham ter um padrão digno, mas desejamos que todos estejam contentes e principalmente, não violentos. Acreditamos que os problemas importantes são os nossos e aqueles de todos os outros, dos vizinhos de casa em diante, não nos afetam minimamente.
Além disso, è sintomático e revelador da enorme importância dos meios de comunicação no Brasil, a necessidade do PCC fazer uma declaração na TV no chamado horário nobre. Usou até um refém para conseguir ter um minuto no ar. Porque as classes que estão um pouco acima na escala da desigualdade só foram perceber que nosso é um país aos pedaços e dos mais injustos e violentos do mundo, quando um mascarado leu na televisão um manifesto que não pede outra coisa a não ser humanidade. Enquanto nós sonhamos com Ipods e celulares, eles sonham em não serem massacrados de pancada em uma cadeia suja e hiper lotada. Eles conhecem a violência muito antes da gente. Eles nasceram e convivem com ela. Nós só temos medo dela e as vezes, raramente, a encontramos.
Mas a Laura esta certíssima. Nós não podemos viver assim, nem muito menos quem é culpado por não ter tido familia, escola e trabalho. Estes, são chamados de bandidos e sempre com uma conotação de juízo, depreciativa. Porém, enquanto não incorporarmos os “bandidos”, integrá-los, não teremos paz. Antes, o inferno será sempre pior.
Quem sabe se deixemos de ter nossas mentes condicionadas pelo aparato mediático-publicitário, deixemos um pouco de lado a competição e o consumismo e adotamos o cooperativismo e a autonomia. Podemos mudar nosso conceito de progresso. Podemos esquecer do PIB e da balança comercial. Isso só muda a vida de quem ganha com isso. Aliás, o PIB cresce se eu perco duas horas no engarrafamento, sou assaltado e bato o carro. Mas não cresce nada se eu planto minhas verduras, dou um pouco para os amigos e o que sobra levo ao orfanato. Eu não teria duvidas em escolher entre o engarrafamento e as minhas verduras o que representa uma boa qualidade de vida. Quando compreendermos que para viver bem, não precisamos de quase nada, aí teremos tudo.
Acordei bem, descansado. Afinal estou de férias e nada consegue perturbar meu humor. Tive um ano difícil com muito stress no trabalho e tensões de todo tipo. Me deixou um tanto irritado e nervoso mas hoje finalmente acordei bem. Ninguém vai dizer hoje que sou neurastênico, estou de muito bom humor e o sol radiante lá fora me convida a um sorriso que durará até à noite. Depois de uma bela ducha revigorante, vou tomar meu café da manhã. Os raios de luz da manhã entram suaves filtrados pela cortina fina. Leio despreocupadamente as paginas de fofocas do jornal enquanto bebo meu café com leite. Percebo que está um tantinho forte o café e decido colocar mais leite. As crianças liquidaram com o que tinha na leiteira e então fui à cozinha apanhar mais. Peguei a embalagem e em um gesto automático, comecei a ler o que estava escrito nela. Leite UHT, ultra hight temperature. Muito bem, super moderno esse leite. Saudável, seguro. Li mais abaixo: “o sistema UHT consiste em se elevar a temperatura do leite muito rapidamente até 140 graus e depois resfriá-lo em poucos segundos. Desta forma se assegura que todas as bactérias e microorganismos nocivos porventura presentes no leite sejam eliminadas.” Pensei: puxa vida, que progresso. Eles matam todos os bichinhos nocivos do leite. Enquanto pensava nisso, levava a xícara à boca, mas naquele momento um outro pensamento invadiu meus serenos divagares e derrubando tudo o que encontrou à sua frente, alojou-se como um pino agudo em meu cerebelo: quer dizer então que vendem o leite assim cheio de cadáveres? O que estou levando à boca nada mais é que um cemitério líquido com milhões de bactérias mortas me lembrando os campos de extermínio nazistas. Eu ando bebendo Auschwitz empacotadas!!! Cazzo!
Algo dentro me começa a ferver. Vejo que tem um número de atendimento ao consumidor e depois de ter tentado vomitar o leite e escovar os dentes cinco vezes, pego o telefone e ligo para a empresa leiteira:
- Atendimento ao consumidor Trento Latte, sou Maria, em que posso ser util?
- Primeiramente me explicando o que quer dizer UHT.
-Ah sim, é um método de esterilização de alimentos que permite a máxima conservação das propriedades nutricionais mediante a utilização da temper..
-Quer dizer que é como um embalsamar? Não basta encher de morte meu leite, mas tem que conservar os cadáveres. Pra que isso minha senhora?
-Cadáveres? Desculpe-me, deixe-me entender a sua colocação.
-O caso é maior do que simplesmente engolir campos de concentração nazistas! Vocês criam um monte de mumiazinhas e obrigam a gente a se alimentar disso!!
-Senhor, não estou entendendo...
-Não está entendendo! Bela resposta! Sei que você vai morrer de rir quando eu desligar! Vocês desses calls centers são todos educadinhos de fachada, mas por trás se cagam de gargalhar dos panacas aqui que PAGAM PRA ENGOLIR COISAS MORTAS!!
-Meu senhor, se o senhor se acalmar eu poss..
-ACALMAR? Você ainda não me viu nervoso, minha querida. Onde é essa merda de fabrica, eu vou até aí!! EU VOU Até AI!!
-Mas o senhor esta gritando muito e eu tenho que desligar nesses casos.
-DESLIGA!!! BANDO DE ASSASSINOS!!! Não vou sossegar enquanto não esclarecer isso. Sou um cidadão que cumpro com meu dever, trabalho e pago minhas taxas, tá me ouvindo? Mas além dos deveres nós cidadãos temos direitos também, sabia? Direito a uma alimentação sadia e livre de micróbios em decomposição como estes que se encontram nessa sopa bacteriológica que vocês ousam vender aos incautos como eu. Mas acabou, sabe? Basta, vou aos jornais!!
-Se eu conseguisse entender de que se trata, talvez eu pudesse lhe auxiliar.
-Escuta... ok... vou tentar me acalmar... comecei mal meu dia sabe... meu primeiro dia de férias. Me desculpe minha senhora, a senhora não tem nada a ver com as porcarias que os teus patrões fazem não é mesmo?
-Senhor, eu colaboro para uma empresa muito conceituada, e estamos muito felizes aqui por pertencermos a este grupo empresarial. Se existe este número verde, é exatamente por respeito ao consumidor. Até agora não consegui entender de que porcarias o senhor se refere.
-Eu... estava tomando leite...
-Bem, ok.
-Eu vi a ... como se chama? ... embalagem ... e tinha lá escrito que a temperatura mata todos os bichinhos.
-Exatamente.
-Veja, eu estou falando calmamente em um tom de voz civilizado agora. Tô até com um pouco de dor de cabeça, mas vou te perguntar assim ...baixinho.
-Sim, me diga.
-Mas... os bichinhos pra onde vão depois de mortos?
-Depois do processo de choque térmico, o leite é totalmente filtrado e livre de impurezas.
-Você tá dizendo isso pra me agradar não é?
-Não, é a mais pura verdade, tão pura quanto é puro nosso leite.
-Oh, que precipitado que eu fui. Me desculpe pela veemência inicial. Sabe, é meu primeiro dia de férias e eu...
-Compreendo perfeitamente meu senhor. Vivemos sob tensões e não é incomum que uma hora ou outra percamos os freios morais e nos exaltemos.
-Freios morais.... exato.... a senhora sabe.... das coisas.
-O senhor, de qualquer maneira está bem, não?
-Não, quer dizer, sim, estou bem sim. Muito obrigado.
-Disponha, foi um prazer poder ajudá-lo. A Trento Latte agradece sua ligação e se coloca a disposição para outras consultas. Bom dia.
-Bom dia.
Eu estava arrasado. Tinha cometido uma gafe fenomenal. Por sorte não tinha ninguém em casa e assim, só eu e a atendente do call center sabíamos dessa fabulosa merda que eu tinha acabado de fazer. Mas me lembrei que ela nesse momento poderia estar contando o ocorrido às suas colegas, ou mesmo relatando o caso ao chefe. Nesse momento minha mulher e minha filha, entram em casa um pouco espantadas. Me pegaram um pouco descabelado e de pijamas, com um copo de leite na mão esquerda e o telefone na direita. Acho que minha fisionomia estava um pouco alterada. Elas foram dizendo quase juntas:
-O que aconteceu?
-Como o que aconteceu? Não aconteceu nada.
-A gente estava conversando com a vizinha lá embaixo na entrada do prédio e pudemos ouvir teus gritos. O que foi?
-Qual vizinha era?
-A dona Mirella, ela estava contando como ela faz pra plantar as abobri...
-Sim, sim, sim, ok. A Mirella ouviu gritos também?
-Claro, a gente ainda tentou disfarçar mas ela reconheceu claramente a tua voz que dizia: “eu vou até ai”. Onde você vai?
-....
-Senhor, estou falando com você. Tem algo estranho aqui. Você está me escondendo algo. Eu sinto isso. E este olhar de homicida maluco eu conheço muito bem, tem minhocas rondando este cérebro aí. Onde é que você vai e com quem?
-Escuta aqui, eu vou sair... vou te dizer toda a verdade. Eu vou até a Trento Latte, preciso me encontrar com uma moça que trabalha lá. E é urgente.
-Bastardo! Eu não disse minha filha, que aí tinha coisa?
-Eu estou sendo sincero, tenho que encontrá-la pra esclarecer uma coisa que é só nossa, está só entre nós dois. Minha reputação está em jogo, sabe? Eu não posso permitir que ela dê com a língua nos dentes e espalhe a notícia.
-Você não se envergonha de dizer isso na frente de tua filha? Tem consciência do que está fazendo seu canalha?
-Você deve confiar em mim, que no final vai tudo acabar bem, fique tranqüila.
-Seu cretino, como posso ficar tranqüila? Eu não te bato agora porque estou me esforçando para ser civilizada, mas só por respeito à nossa filha, velho indecente.
-Olha, podem tomar o leite sossegadas. E basta de irritação só porque dei uns gritos e a Mirella ouviu.
-Filha, procura o número do doutor Paione que acho que o papai não está bem.
-Fique onde está filha, não chame médico nenhum. Eu vou sair agora e vocês vão ficar tomando leite e quando eu voltar vamos chamar a Mirella pra nos contar das abobrinhas.
Fui saindo da sala sob olhares atônitos das duas. Me vesti rapidamente, apanhei o carro e em menos de quarenta minutos estava estacionando em frente à Trento Latte. Meu coração batia descompassado e forte. Estava um tanto emocionado, mas tinha que enfrentar a situação. E tinha que ser pessoalmente, essas coisas não se esclarecem por telefone. Na recepção, uma bela loira, que já pensei ser a ... como era mesmo? .... Maria, acho que era Maria que se chamava. Ela levantou o rosto e sorriu:
-Bom dia, em que posso ser útil?
-Você não é a Maria, não?
-Não, me chamo Cláudia. O senhor procura por Maria?
-Sim! Ela deve estar, acabei de falar com ela pelo telefone. A senhorita poderia chamá-la?
-Temos várias Marias aqui, com qual delas quer falar?
-A do call center.
-Ah, me desculpe, mas o call center não funciona aqui no nosso estabelecimento.
-Como não? Eu falei com a Maria há pouco. Escute, tenho que falar com ela urgente, nós temos algo a esclarecer. Não posso dizer o que é, é um segredo nosso, entende?
-O senhor está se alterando, mantenha-se calmo por favor. Além disso, como já falei, o call center não é aqui na fabrica. Na verdade é uma empresa de Napoli que nos presta este serviço. Provavelmente o senhor falou com alguém em Napoli.
-A senhora está brincando comigo não é? Napoli? Como faço pra encontrar a Maria, santo deus?
-Senhor, além disso, casos sentimentais não nos dizem respeito. É nossa política evitar tratar disso em horário de trabalho.
-Caso sentimental. Do que está falando, sua louca? Eu preciso encontrar a Maria, e agora!
-O senhor não pode entrar aí!
Fui entrando por uma porta verde à direita do balcão da recepção e... bingo... vi uma moça com fones em frente à um terminal de computador. Só podia ser a Maria. Chamei-a:
-Maria, vim pessoalmente esclarecer aquele nosso mal entendido.
Ela me olhou espantada, enquanto a moça da recepção chegava esbaforida:
-Senhor, essa é nossa telefonista, ela se chama também Maria, mas não é a que o senhor está procurando.
-Hahaha, tente enganar outro! Maria, me ouça. Fui eu que liguei há pouco. Esqueça Auschwitz, os nazistas e as bactérias mumificadas. Eu refleti e sei que cometi uma gafe. Estou aqui para remediar isso. Não é culpa minha se ando meio nervoso ultimamente. Nem sei como o cemitério de micróbios me veio parar na cabeça. Foi uma loucura, mas já passou.
-O senhor tem certeza?
Maria me olhava com espanto. Imaginei que estivesse espantada com minha coragem e honestidade. Seus olhos eram doces e meigos. Nossos olhares se cruzavam intensamente e naquele momento eu senti que algo nascia entre nós dois. Ela havia me entendido perfeitamente, eu sentia isso, apesar de sua cara assustada. Não pude resistir e me joguei para abraça-la. Foi quando ouvi a recepcionista gritar:
-Segurança, Segurança! Tem um maluco aqui agarrando a Maria telefonista!!
Nem bem terminei de ouvir a frase e senti um tapão do ouvido direito e um chute na canela esquerda. Ah, que gente mal-humorada e violenta. Não pude trocar nenhuma idéia com aqueles dois a respeito de meu gesto de puro carinho, não queriam mesmo saber de estreitar laços. Os dois me jogaram em cima do meu carro, que chegou a amassar a capota. Quando chego em casa, sou recebido por minha mulher que me agride oito vezes na cabeça com o pau de macarrão. Eu disse pra ela chamar a Mirella que eu daria uma boa desculpa por ter gritado, mas ela não quis saber. Pau de macarrão, que falta de criatividade. E que azedume!
Quando voltei do hospital, eram já quatro da tarde. A cabeça enfaixada, o corpo todo dolorido e uma idéia fixa na mente: Maria. Amanhã volto lá e espero ela sair da fábrica para falar com ela. Tempo eu tenho, estou de férias. Apenas no primeiro dia de férias.
Biajoni é um escritor que promete. Mas não só promete, sabe também cobrar as promessas que outros lhe fazem. Eu lhe prometi que escreveria uma resenha de seu “Sexo Anal” e é já um ano que ele me aporrinha com isso. Como para se escrever uma resenha é preciso ler o livro e eu ainda não o tinha feito, só agora publico minhas impressões. Não que eu tenha lido o livro todo todo todo. Na verdade, um livro de Biajoni não precisa ser lido inteiro. Não sei como explicar, mas a gente sente que tem muita sabedoria ali. Bem, para aplacar a ira do gajo, aqui vai a minha crítica ao livro. Quando eu terminar de ler tudo, faço outra complementar.
Biajoni é a mais nova promessa do mundo editorial brasileiro no setor de auto ajuda. O seu guia completo para o Sexo Anal é muito abrangente e profundo. No inicio, pensei que estava relacionado aos problemas de quem faz sexo de ano em ano. Depois de algumas páginas, caiu a ficha e saquei que era um lance de sexo que se faz com o cu. Segundo as palavras do autor, em recente entrevista:
"importante frisar que Sexo Anal não é um guia para homossexuais (esses sabem muito bem como praticar tal modalidade), mas sim para FOMENTAR a prática entre pessoas de sexo diferentes"
Com essa frase, fiquei pensando um tempão sobre a questão dos sexos diferentes. Eu só conheço dois sexos, com algumas variantes. Ele pelo jeito conhece mais alguns diferentes. Bem, isso deve estar explicado mais adiante. Confesso, cheguei só até a página 12. Mas vamos avante, agora que comecei não posso parar.
Ao fazer esse convite ao prazer de retaguarda, Bia nos faz ver que o prazer pode ser extraido de onde costumamos extrair outras coisas, ainda que com prazer, mas sempre outras coisas são. Simplesmente genial isso, mesmo porque, em um mundo assim cheio de guerras e com o petróleo que sobe de preço a cada dia, quando alguém inova com estilo e propõe modelos desaglutinadores da pasmaceira, a felicidade parece possível e as mentes se introspectam e justamente, FOMENTAM sempre a partir de uma perspectiva fenomenológica intrínseca básica, do tipo aristotélico. Desculpe se me aprofundo nestas questões, mas o tema requer.
Além disso, eu particularmente gostei da parte em que o cara com o pênis enorme tem que dobrá-lo em dois para enfiar no estreito orifício anal da protagonista. Além disso, o cuidado com que foram feitas as ilustrações e o projeto gráfico, me deixaram entusiasmado. Sem falar do grande conteúdo didático da obra. Nunca vi tanta foto de cu em minha vida. E não é só. Para quem compra nas bancas, o livro vem com dois bonequinhos de papel cartão destacáveis, Luiz e Virgínia e um tubinho de gel. Com eles você pode simular situações descritas nas páginas em uma espécie de vodoo sexual, de concepção muito inteligente. Se os bonequinhos estragarem, é só mandar e-mail para o autor que ele repõe em 48 horas. Eu já estou no quarto set de marionetes. Virou mania aqui em casa, as crianças adoraram.
Em resumo, Sexo Anal de Luiz Biajoni é uma obra de mestre. Uma obra completa, que simplesmente não tem um furo, que não seja o da busanfa da mocinha.
Prometo que até o fim do ano termino de ler tudo.