Se alguém quer emocionar um amigo, talvez não só isso, marcar o seu coração para todo o sempre, deve oferecer um risotto ai funghi. Os laços que se criam entre seres humanos que consomem juntos um pedaço tão nobre de alegria em forma de alimento são indestrutíveis. Ninguém que faça esse presente a um semelhante será odiado por esse, já que o vínculo é de pura fraternidade. Isso porque um risotto ai funghi com seus perfumes da terra virgem, nos faz simplesmente entender porque viemos parar neste planeta. Nesse sentido, um prato com trezentos gramas do maná equivalem grosso modo a uns cem quilos de psicoterapia e umas bem pesadas oito toneladas de missas e confissões na sacristia.
Segredos nesse caso não existem, até porque se existissem, seria inútil publicar uma receita pois secretos deveriam permanecer. Os tipos de arroz (Oryza sativa) são muitos. Podem ser utilizados os chamados superfinos tipo Roma, Carnaroli e Baldo ou mesmo um semifino tipo Padano ou, o que considero que nos traz alegrias intensas na medida justa, o Vialone nano. De qualquer maneira, qualquer um destes dará resultados ótimos.
Vamos à preparação. Acorde às 4 da manhã, vista um roupa confortável mais botas e suba a montanha para apanhar teus cogumelos. Na falta da montanha com um bosque cheio dessas pequenas bolotas de felicidade, vá mesmo ao supermercado, resignado, porém lamentando-se um pouco com a falta que o bom ar da floresta irá fazer para a preparação do espírito. No entanto, se por acaso encontrar pelo caminho pequeninas montanhas esverdeadas que rescendem a subproduto de bovinos e estes mesmos forem plenos de fungos, faça um rápida avaliação da situação. Os fungos de que falamos são outros. Falamos do fungo porcino (Boletus edulis) ou mesmo o Cardarello (Pleurotus eryngii ), ou ainda o Finferlo (Cantharellus cibarius) que dão uma satisfação tal que nos parece que morremos e estamos no céu. Os fungos dos montinhos da vaca te fazem falar diretamente com deus, mas a coisa toda é meio virtual e não são tão gostosos. Já se você tiver a sorte de encontrar um autentico Amanita phalloides, o encontro com o criador será assegurado e decididamente mais real mas irreversível. Bem, essa é uma decisão pessoal.
Chegando em casa com os belos fungos do bosque (desconsideraremos aqui o supermercado), lave-os como se fossem bebês, seque-os e beije-os. Pique uma boa quantidade de alho e corte também um pouco de cebola. Já que está chorando, aproveite a tristeza e com uma certa dor no coração fatie os cogumelos. Frite o alho e a cebola em abundante óleo extra virgem de oliva com um pouco de manteiga na sua panela de ferro, na chama direta mas não muito forte do teu fogão à lenha. Quando a cebola estiver no ponto, coloque os cogumelos na panela. Use uma varinha mágica dessas comuns para mexer e não se esqueça de pronunciar palavras adequadas. Depois de dez minutos desse ritual sagrado, ajunte o arroz e mexa bem para fritá-lo um pouco. No momento que faz isso, alguém estará ali por perto terminando de abrir a garrafa do melhor vinho branco que o dinheiro pôde comprar. Essa pessoa será orientada previamente no sentido de versar um bom cálice do líquido na panela e imediatamente servir-lhe um outro. Isso porque você estará ocupado a misturar tudo com muito cuidado enquanto bebe o vinho.
Sempre girando, vá acrescentando aos poucos o caldo de carne. Inútil dizer que se você usar caldo de carne em cubinhos e principalmente os com glutamato monossódico, pode parar agora de ler isso e nem se aventurar com as panelas. Nessa vida até a tolerância tem limites. Posso aceitar que alguém mexa com a mãe do outro, posso tolerar que o outro dê uma chifrada no peito do alguém, mas o cubinho é inaceitável. O caldo de carne deve ser feito com um bom pedaço de músculo, mais um pedaço de peito de boi, uma cebola inteira, uma cenoura e talos de salsão colocados em água fria e levados ao fogo lento onde cozinharão por três ou quatro horas. Com a concha, você vai despejando este liquido sobre o risotto. A quantidade, por um mistério insondável, você saberá qual é sem que eu te diga.
Esta fase do evento é muito importante. Por alguns instantes, parecerá que nada acontece. No entanto, no interior da panela estará ocorrendo uma fusão das substâncias primordiais dos fungos, que não são nem vegetais nem animais e o arroz, que é parente próximo da grama comum e do capim. Uns são ambíguos e assexuados e os outros, muito definidos e cheios de certezas. Os primeiros começarão a entender o que é ser vegetal e cultivado e os segundos, receberão toda uma informação a respeito da diversidade e da vida alternativa. Depois de quinze, dezessete minutos, eles terão chegado a conclusões em comum e você estará apto a absorvê-las. Desligue o fogo, junte e mexa em modo italiano um belo pedacinho de manteiga e alguns gramas de parmiggiano ralado. Súbito depois do trabalho vem o descanso. Faça isso por três minutos, que o risotto fará o mesmo, enquanto refina todo o seu sabor. Passado esse tempo, sirva como quem está realizando uma operação de emergência, ou seja, com calma mas sem perder um segundo sequer. Ao colocar no prato, uma nova chuva de parmiggiano assim como um fio do melhor óleo de oliva, irá arrematar a obra. Se isso não o fizer esquecer momentâneamente quase tudo a respeito das mazelas do mundo, então teu caso é gravíssimo e deve procurar um medico com urgência.