Entrevista exclusiva
A montanha como metáfora, como uma imagem da própria condição humana que se põe em jogo e se testa, tentando estabelecer limites para a existência e desafiando a própria morte em uma relação ao mesmo tempo de ódio à condição de finitude, mas também de profundo respeito através de um amor incondicional à própria realidade e natureza. Ainda que possa parecer contraditório, estes elementos se encontram em simbiose no coração de um amante das escaladas e do contato estreito com as forças da natureza.
Hoje temos aqui conosco o grande montanhista russo Vladislaw Penochewsky que viveu toda sua vida nas estepes da Sibéria e nunca viu uma montanha na vida, mas acaba de lançar um guia pratico e filosófico do montanhismo de estepe. Se chama “A vida sem subidas”. No Brasil o livro será lançado em outubro pela Editora Enocuador que prevê uma série de eventos incluindo a provável presença do autor. Nosso pais é um dos mais ricos do mundo em planícies e platôs de relevo mais chato que troll de blog político e desperta muito interesse por parte dos amantes da falta de relevo. Vladislaw deve confirmar a vinda ao pais, após receber todas as garantias de que os encontros se terão no andar térreo, já que sofre tremendamente com a vertigem das alturas. Vamos à entrevista:
Flavio: - Vladislaw, quando começou esta tua paixão pela escalada sem subida?
Vladislaw: - Bem, já na infância eu tinha orgulho de estar nivelado.
F: - Não entendi, me desculpe.
V: - Eu nasci ainda sob a URSS. Naquele tempo a gente tinha noção de que o horizonte fica à frente e não no alto. Meu pai trabalhava em uma mina em Birghtnik e éramos muito felizes estando bem plantados no chão. Você sabe que a maior altitude na nossa zona da Sibéria è de 10 metros e os nossos dias eram todos sempre iguais.
F: - Espere, o mundo é todinho cheio de relevos. Aliás disso, as montanhas são desafios e a sua conquista constituem uma vitória, seja pessoal que da humanidade. Você não concorda com o que eu disse na introdução?
V: - Nem um pouco. Um montanhista de planície como eu não tem medo da morte. A gente não tem medo de nada, por isso não precisamos de desafios.
F: - Me perdoe se não acredito. Acho que isso é um pouco ir contra a natureza. Além disso o senhor mesmo tem medo de altura.
V: - Contra a natureza é subir. Eu tenho vergonha de estar com as pessoas que querem subir mais alto…. E como disse, não tenho medo. Tenho vergonha da altura.
F: - Alguém já disse que o senhor é muito estranho com essa fixação com as subidas?
V: - Muitos, mas é porque não leram meu livro e nem praticaram o que eu prego. Eu falo do poder do recuo. O mais importante no montanhismo de estepe é desistir de subir. Você tem que querer subir e no último momento, desistir.
F: - Esse negocio de recuo não é comigo não.
V: - Depois de recuar uma vez, não se deixa nunca mais de praticar a marcha a ré da intenção. Mas o importante é desejar forte algo e desistir no ultimo momento.
F: - Pois eu desejo terminar esta entrevista imediatamente.
V: - È uma boa prova. Mas eu pretendo falar por mais uma hora, no mínimo. Pode desistir. Será perfeito como exemplo do que digo.
F: - Obrigado.
Comments
Recentemente escalei a Pedra da Gávez e o morro da Urca (RJ), Acho que não sou público-alvo para este livro...
Posted by: Viva | junho 20, 2006 9:08 PM
Quero seu e-mail moço.
Beiju
Posted by: Simy | junho 19, 2006 10:36 PM
Vou comprar o livro. Depois do livro sobre o Bartleby, sobre o homem que nega-se terminantemente a fazer qquer coisa, Wladislao é meu ídalo!
Abraços e saudades.
Posted by: Milton Ribeiro | junho 19, 2006 5:21 PM
Tô com saudades de você, Flavio, você tá postando cada vez menos, hein?
Posted by: Denise Arcoverde | junho 19, 2006 1:42 AM
Aqui na minha região as montanhas não são tão metafóricas assim. Vou passando pela Planície Padana desviando das subidas, evitando as descidas. Assim como o Vladislaw, também sou muito preguiçoso.
Posted by: Allan | junho 16, 2006 3:41 AM
"Eu falo do poder do recuo"
rapaz, saber a hora de cair fora é dificílimo.
bj saudades, laura
Posted by: Laura | junho 15, 2006 3:28 PM
tudo que sobe desce, menos menos o vladislaw e seu pau,
Posted by: gugala | junho 14, 2006 2:55 PM
Subir não é mau... o pior é a queda...
;)
Posted by: pisconight | junho 14, 2006 11:53 AM
Caro Paglia
Este alpinista social é parente de Lasdislao Kubala ???
Bjs
Hocus Pocus
Posted by: Hocus Pocus | junho 13, 2006 10:52 PM
Flávio, acabei de fazer uma viagem ao Rio (moro no ES) e pensei cá com os meus botões que eu não suporto mais ver tantas montanhas. Pensei exatamente em estar em uma estepe. Veja só que coincidência. Beijocas
Posted by: Yvonne | junho 12, 2006 11:00 AM