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Salva Terra, semana numero um

Conforme prometi no ultimo post, estou fazendo uma experiência com o objetivo de salvar o planeta. Fazem sete dias que aqui em casa não puxamos a descarga quando o resíduo é liquido, nem muito menos tomo banho. Os primeiros problemas com o controle da nova normativa doméstica eu tive quando da festinha de aniversário de meu filho menor. A casa se encheu de crianças de seus cinco a dez anos e fui obrigado a supervisionar pessoalmente cada ida ao banheiro, a fim de garantir que a preciosa agua não fosse desperdiçada com uma simples pipizada. Alguns se intimidaram com minha presença no banheiro e tiveram certa dificuldade a expelir. Diante de meus gritos de incentivo, alguns começaram a chorar e nesse momento os pais de dois deles derrubaram a porta do banheiro, inutilmente, pois estava aberta e me alçaram pelo colarinho, dizendo que sou maníaco e doente. Desfeito o mal entendido, creditando tudo na conta do prefeito de Londres, mesmo assim concluí que deveria adotar outra tática para exercer o controle. Desci até o subsolo onde estão os registros, e desliguei a água do apartamento. Estava indo tudo bem, quando, às sete da noite, um garoto mal intencionado largou um bolo fecal sólido, mal cheiroso e tremendamente malicioso no nosso caro vaso.
Corri ao subsolo e no afã de abrir o válvula que nos salvaria, esta se rompeu, fazendo jorrar uma quantidade de água suficiente para arruinar de vez os planos se salvamento do planeta. Me precipitei como um louco ao registro geral de entrada e desliguei todo o prédio. Ao menos, aqueles litros desperdiçados seriam compensados pela economia gerada pela adesão de todo o condomínio ao programa. Eu só teria que explicar tudo a todos, pois nem todos lêem meu blog. Na verdade, ninguém lê meu blog. Convoquei uma reunião de condomínio ali mesmo na calçada da frente, gritando para que descessem e renunciassem ao menos por um minuto ao conforto de seus lares doces lares, esses burgueses, e tomassem parte de uma importante empresa que iria salvar o mundo. Consegui com isso, dois condôminos debruçados à janela me insultando, um melão meio podre que passou voando a 20 cm da minha cabeça, além de uma chuva de cinza e bitucas de cigarro, obra do desgostoso solteirão do 6º andar, que esvaziou o cinzeiro e depois o jogou em minha direção.
Naquele momento senti o que pode sentir o prefeito de Londres, diante da incompreensão e da indiferença. Mas tudo voltou à calma em poucos minutos, que porém durou pouco, pois quando descobriram que o prédio estava a seco, ai sim, desceram todos e me botaram colado a uma parede. Acho que é difícil para alguém imaginar o que é tentar explicar certas noções de ecologia para um grupo de pessoas que está com o estado de ânimo alterado. Eu tentei historiar a situação, começando a partir da revolução industrial, mas quando me botaram um bastão na garganta, achei que deveria acelerar e voltei a culpar o prefeito de Londres. Nesse momento, o mais baixinho da turma, aproveitando que eu estava imobilizado me chutou o saco e disse com tom de desprezo: “Vamos quebrar esse maluco na porrada, que tá gozando da nossa cara”. Naquele momento eu queria estar em Londres.
Por uma incrível sorte, a nova moradora do monolocale do segundo andar, garota jovem, bonita e inteligente, interveio em meu favor. Ela disse que entendia perfeitamente minhas razões e apoiava meu gesto e que ninguém ousasse me fazer mal. Os moradores me deixaram livre. Pude então explicar tudo e decidimos de comum acordo que colocaríamos um remendo sobre o meu registro e depois abriríamos o registro geral e a água voltaria a todos. A garota do segundo andar me sorria. Mas no momento que ela se aproximou pra me cumprimentar, fez uma expressão estranha e disse: “ tem algum bicho morto aqui?” Achei estranho ela dizer isso, e não acho que isso tenha relação com o fato de que já faz uma semana que não tomo banho, pois penso que as coisas não vão tão mal quanto se possa imaginar. Pode ser que ela seja hiper-sensível. Até porque no sábado, quando eu deveria tomar o banho, mergulhei a mão na pia cheia d'água e o resultado foi que a mesma ainda não se tingiu do tom de cinza que denota a necessidade de uma imersão higienizante. Vou esperar até sábado próximo.
Outros problemas, estes menores, foram com minha mulher, que andou reclamando nos últimos dias da mesma coisa, sempre o tema do bicho morto, isso quando tiro o sapato. Mas para provar mais uma vez que o bom senso e o equilíbrio são sempre a melhor fórmula, lavo somente o pé direito no bidê e faço contente a esposa e sua mania de limpeza e ao mesmo tempo mantenho meu programa de economia. Estamos firmes no propósito de salvar a Terra. Vou em frente e brevemente relatarei as novidades.

Comments

Perfeito seu engajamento em prol da salvação do mundo! ;-)
Mas minha solidariedade vai pra tua esposa...rssss

Flávio,

seu blog é bem legal. Gostei mesmo. Queria te avisar que, não sei por qual motivo, ele tentou mandar um arquivo de vírus para mim. Verifica isso direitnho, senão acaba que o pessoal deixa de visitar. Continue escrevendo assim! Está ótimo!

Flavio querido, estou te passando o capitulo XVII da famosa novela Porto do Desespero lá no meu blog. Boa sorte ! Ha ha ha !

Hahahaha... seu humor é fedido, heim!?
Flávio, a janelinha também atrapalha muito. que é isso de ter que instalar um programa para poder ler teu site??????
A gente apaga e ela volta mil vezes!

Perguntas técnicas são bem recebidas também... se eu souber, será um prazer ajudar.

abraço

Flavio, só voltarei aí se a Operação Salvaterra for suspensa, se não estivermos perto do aniversário dos teus filhos e se nos mandares amostras de tuas meias e sapatos por... Fedex?

Tirando uma janelinha chata que insiste em me fazer instalar alguma coisa regida por um contrato em italiano, o site está excelente, Prada. Essa tua história me fez lembrar os bons tempos do Pasquim. Caberia lá, sem descarga e tudo.
(Como se desliga essa maldita janelinha?)
Que os ventos lhe soprem leves...

Flávio, vamos ter que desmarcar também o próximo encontro. Sou voluntário da Proteção Civil e estaremos indo investigar uma curiosa migração maciça de urubus no Trentino. Na volta, quem sabe, se tudo se resolver, dou uma passada.

o problema deve ser dormir com sapato no pé esquerdo.

He he he, e os funcionários do prefeito de Londres também devem estar sentindo esse cheirinho de bicho morto...

bjs

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