Pai e filha
-Pai, me ajuda com os deveres de casa?
-Claro.
-Então para de olhar pra tela do computador.
-Eu estou te ouvindo.
-Ok, eu tenho que descrever para a professora de geografia e também desenhar um esquema, tipo uma paisagem, onde se encontrem diversos tipos de relevos e acidentes geográficos...
-Ahan...
-...de modo que seja representativo de um ambiente subtropical... da batata cozida com milho e açafrão.
-Sei...
-...com abobrinhas cozidas dentro do chapéu, entendeu?
-Sim, claro.
-Você não está me ouvindo!!!
-Como não?
-O que foi que eu te pedi? Me diz então.
-Era o coiso, a-a-a lição, a geografia da coisa... da... mas você sabe o que me perguntou, porque me pergunta de volta?
-Vou voltar pra primeira pergunta então: dá pra me ajudar com os deveres?
-E não estou te ajudando?
-Que pai, meu santo!
-Meu santo pai você quer dizer, não?
-Vai, me ajuda, para de gracinha.
-Ok, diga o que é.
-Eu já disse.
-Você disse que tem deveres, mas quais são?
-Um desenho... com várias paisagens...
-Não grite..
-Um desenho... com diversos relevos... acidentes geog...
-Você está usando baton minha filha?
-PAI!! Basta! Que saco!
-Fica nervosa porque pergunto do baton?
-Você falou que ia me ajudar.
-Mas é desenho não é? Isso você tem que fazer sozinha, senão a professora percebe que fui eu que fiz, você pensa que a professora é assim ingênua a ponto de...
-Eu vou fazer o desenho, pelo amor de deus pai, é só pra me ajudar a definir as coisas.
-Ok, vamos ver o que é.
-Putz, vou ter que repetir?
-Ah, os relevos, sim, mas sim, eu acho que você pode fazer um desenho com vários tipos de relevo, com alguns acidentes geográficos, essas coisas.
-Ta bom pai, já vi que vou ter que me virar.
-Não tá boa minha ajuda?
-Tá pai, tá ótima.
-Fico contente. Mais alguma coisa?
-Eu tenho até medo de pedir, mas tem sim.
-Então diga.
-Você voltou a olhar pro monitor.
-Não, sou todo ouvidos, diga... filhona... querida!
-PAI! Você me abraça assim e me machuca!
-Grandona do papai!
-Chega pai! Você me meleca com esses beijos de velho babão, hehehe.
-Bem, vamos à lição. Eu sei todas! Manda que eu respondo!
-ô... Bem, é de matemática.
-Matemática é?
-Sim, que cara é essa?
-O que tem minha cara? Matemática?
-Você não sabe matemática né? Você ficou sério de repente.
-Não, é que me lembrei que tenho uma coisa importante pra fazer.
-Vai, me da só uma dica e depois te libero.
-Ok... uff... vamos ver.
-Tenho que resolver multiplicações de frações.
-Frações de segundo? Coisa de tempo, não é? Essa eu sei, tem que dividir por 60!
-O que está dizendo? Frações, frações, nada a ver com tempo.
-Nada a ver com tempo. Ok. Eu sou especialista em infrações, principalmente as de trânsito. Pois bem, frações, multiplicação não é?
-Sim. Sim!!
-Calma moça, nada de biquinho. Me dê um exemplo, vamos resolver juntos essa encrenca aí.
-Bem, aqui tem: seis vezes dois quartos.
-Seis vezes dois quartos são três apartamentos para casais com um filho, hahahaha!
-Tem hora que eu penso que a minha é a melhor familia do mundo, mas não é o que estou pensando nesse momento.
-Brincadeirinha pô, que senso de humor falido o teu!
-Que senso de humor podre o teu!
-Bem, vamos voltar à fração. Eu não me lembro bem dessas coisas.
-Voce disse que sabia todas, que era o bom da boca.
-Bom da boca eu não disse.
-Bem, é verdade, não disse mesmo.
-Não disse.
-Não, não disse, bom da boca não.
-Verdade, não disse.
-Pois então, vai tentar lembrar ou não?
-Já lembrei, eu não disse. Bom da boca eu não disse.
-Chega pai, vou ligar pro Bernardino.
-Bernardino? Aquele chatinho que veio aqui outro dia?
-Ele mesmo, quem sabe ele me ajuda.
-Três.
-O que é três?
-Três é o resultado de seis vezes dois quartos. Você tem que multiplicar numerador com numerador e denominador com denominador. Se ficar complicado, simplifique o produto.
-Simplificar?
-Sim, reduzir aos mínimos termos. Mas se quiser simplificar mesmo, use a calculadora, hehehe.
-Pai, Você é o máximo. E sabia tudo desde o inicio?
-Claro. Depois te ajudo com o desenho de geografia também. Adoro estar com você, filha.
-Eu também adoro estar com você. Bom, valeu pai, vou ligar pro Bernardino.
-Ah, não vai dar, eu tenho que fazer uma ligação urgente.
-Eu ligo depois.
-A minha ligação vai durar uns oito anos, mais ou menos.
-Pai...
Comments
Legal , mais engraçado mais não entendi
Posted by: Camillle | dezembro 11, 2007 1:47 PM
Muito legal, haha, gostei mesmo.
Ps.: Tente preencher os dados do formulário dos comentários, clique em lembrar informações pessoais, e depois clique em não... Droga!
Posted by: Victor Ribeiro | julho 7, 2006 4:24 PM
Ah, esses ciúmes paternos! :-)
Posted by: Ana Maria | junho 5, 2006 3:29 PM
:)
Posted by: Luiza | junho 3, 2006 4:56 AM
Flavio, estava há algum tempo sem aparecer por aqui porque das duas ou três últimas vezes, apareciam uns troços esquisitos na tela e eu era obrigada a reiniciar o computador. Hoje resolvi arriscar e graças a Deus que não aconteceu nada. Adorei a história. Beijocas
Posted by: Yvonne | junho 2, 2006 10:59 AM
Muito legal, gostoso de ler!
Beijo
Posted by: Mônica | junho 1, 2006 8:10 PM
Delicioso! Preciso fazer uma filha pra ter um diálogo assim daqui um tempo.
Posted by: Marco Aurelio Brasil | junho 1, 2006 5:33 PM
Pradinha!! que saudade!
Tá mandando bem como pai não pai.
Vai um dia dar um tremendo avô não avô também.
Forte abraço
Posted by: Dudi | junho 1, 2006 4:53 PM
Que texto lindo, Flavio!!! maravilhoso!
Olha, confesso que sempre fiz tudo pela minha filhota, mas ajudar nos tais deveres de casa era uma tortura, paciência zero... e dispersão também, conhece o quadro? ;-)
Beijocas!
ps.: Bia tá em Berlim agora, depois vai pra Tallinn, só faz reclamar do frio e vai voltar 10 dias antes, porque não suporta as saudades do namorado :-))))))) como as coisas mudam dos 18 pros 19, hein?
Posted by: Denise Arcoverde | maio 31, 2006 11:35 PM
Homens...tsc, tsc... não entendem nada de maquiagem: batom é com "m" (se a língua for o português).
Gostei demais do post.
Posted by: Isabela | maio 30, 2006 1:37 AM
Também tenho uma filhinha e estou deliciada com seu texto. Morri de rir. Estou aqui trazida pelos bons ventos do Milton Ribeiro de quem sou leitora assídua,adorei.
Gostaria de voltar aqui, posso?
Posted by: Docemaior | maio 29, 2006 6:25 PM
Excelente, Flavio. Está no ar a continuação de Porto do Desespero.
Abraço.
Posted by: Milton Ribeiro | maio 29, 2006 1:48 PM
Um Bernardino sempre chegará, não adianta adiar. abç
Posted by: gugala | maio 29, 2006 12:02 AM
OBS: Notou que eu "embrasilenhei" o nome do Bernadino? =(
Posted by: Roberta de Felippe | maio 28, 2006 6:09 PM
Oh meu amigo, veja pelo lado bom... Tua filha te procura quando tem um problema. Então, com o Bernardinho na história, ela provavelmente passará bem mais tempo te pedindo ajuda e, consequentemente, mais tempo com você. Hohohoho. Bacione!
Posted by: Roberta de Felippe | maio 28, 2006 6:07 PM
Quem mandou ter filha?
Vai ter que suportar o Bernardino, sim. E se serve de consolo, vou ter que aturar dois.
Posted by: Allan | maio 28, 2006 5:01 AM
Problema com lição de casa aqui é recorrente...mto bom. Bjos!
Posted by: Pat | maio 28, 2006 1:00 AM
:-)
Posted by: marcelo | maio 27, 2006 10:06 PM
1) O problema ajuda na lição X tela do computador é recorrente na minha casa!! :(
2) Acredito mesmo que você deva travar esses diálogos com os filhos, o que deve deixá-los malucos.
3) Você vai ser sogro, mais cedo ou mais tarde, assim como serei (iiirrccc) so... so... (sai!) sogra! (pronto, falei).
Sensacional!
Beijão
Posted by: sandra | maio 27, 2006 8:43 PM