O PORTO DO DESESPERO Capitulo XVII – Os vôos
Os olhos de Mariana, aqueles fugidios olhos que nunca encaravam outros de frente, desta vez se pudessem penetrariam nos de Daniel e quem sabe enxergariam também suas intenções naquele momento. Seu olhar era de interrogação e terror. Daniel parecia incrívelmente calmo em face da situação em que se encontrava. Via nos olhos de sua Mariana, tudo aquilo em que um dia acreditou e que desapareceu em poucos dias, como se o chão tivesse sido retirado sob seus pés. Estava confuso porém decidido. Com uma voz baixa e firme, com a qual ele mesmo se surpreendeu pela segurança do tom, perguntou:
-Era cocaína naquele pacote, não era?
-Sim, para Roberto.
-Mas você também usa, não?
-De vez em quando Daniel, mas influenciada por Roberto. Você pode não acreditar, mas nesse tempo que estou aqui amarrada, algo me aconteceu.
-Puxa vida, vamos ouvir – e enquanto dizia isso, passava suavemente a lâmina da faca pela colcha da cama.
-Algo me aconteceu Daniel, me ouça. As vezes é preciso que aconteça algo drástico pra gente acordar.
-E aconteceu?
-Puxa vida amor, olhe pra nós. Nós que sonhamos um dia formar aquela familia tradicional e poder viver nossas vidas banais com nosso monte de filhos, estamos em um lugar estranho, envolvidos em crimes e eu estou amarrada e você armado. Daniel meu amor...
-Basta com meu amor, caralho! Porra! Filha da puta! Você me diz meu amor? Vagabunda!
-Você esta gritando Daniel e isso vai chamar a atenção de alguém.
-Está bem.
Ele se levantou e girou pelo quarto em modo um pouco desconexo. Estava muito mais nervoso de quando começaram esse estranho diálogo. Ela tenta acalmá-lo:
-Querido, quer dizer, Daniel, vamos recomeçar nossa vida do começo. Vou sair dessa, você vai ver.
-Você atirou em mim, sua porca! Você me deu um tiro! Quer reconstruir o que comigo? Acha que ainda sou o Daniel idiota que acredita em tuas historias?
-Venha cá que eu te conto toda a verdade.
Daniel voltou a se sentar ao lado de Mariana. Algo dentro dele, como uma centelha, se acendeu. Era um homem que sempre teve e acreditou na esperança.
-Diga!
-O Roberto me obrigou a atirar em você, assim como me obriga a fazer um milhão de coisas, inclusive dormir com quem não quero, por dinheiro. Cheguei a ir pra cama com um ministro aqui do Canadá, você acredita?
-Que orgulho pra você não? Eu te chamaria de puta, simplesmente.
-Mas eu tenho sido um brinquedo na mão dele, não sei o que me acontece. Sou a escrava mental dele e não sei como sair disso.
-Não sei se tenho pena ou nojo de você.
-Aquele tiro, Daniel, eu dei sim mas errei de propósito. Queria que ele acreditasse que te matava.
-Essa foi boa.
-Sim, acredite em mim, eu sei atirar muito bem, tenho controle total de uma arma. Depois ele te drogou com não sei o que.
-Me drogou?
-Sim, eu vi que te injetava algo mas não sei o que era.
-Bem, quase que te acredito, eu tive alucinações e taquicardia.
-Alucinações?
-Alucinações sim, vi espíritos, terroristas, um monte de coisa confusa em minha mente. Não que eu esteja muito lúcido agora. Mah...
Daniel estava quase arrependido de ter amarrado sua Mariana e a ameaçado com uma faca. Onde estava com a cabeça? pensava. Ela parecia ainda mais bonita. Ele esboçou algo com a boca, apertando os lábios e ela correspondeu com o mais maravilhoso sorriso que alguém já viu. Foi inevitável se aproximar e beijá-la. Uma corrente de eletricidade percorria seu corpo, um sentimento de redenção, êxtase, bruscamente interrompido por pancadas na porta e uma voz que gritava.
-É Roberto! – diz Mariana – rápido, me tire daqui!

Daniel usa a faca para cortar as cortas, mas também fere levemente por acidente um dos pulsos de Mariana. Sem pensar muito, abre a janela e vai pra fora, equilibrando-se no estreito ornamento da fachada do L'Hôtel du Vieux Québec. Ele veste apenas a toalha na cintura e tem nas mãos a faca. A temperatura é de 20 graus negativos. Mariana fecha a janela e corre a abrir a porta, mas está sangrando no pulso e tenta enrolar ali a primeira camiseta que encontra. Roberto entra e Daniel pode vê-lo por uma fresta da cortina. Tenta também ouvir o que diz. Está furioso. Grita com Mariana:
-O que você está fazendo aqui, sua idiota?
-Eu não estou bem Roberto.
-Você está sangrando? Quer se matar?
-Não estou aguentando mais, não estou vendo saída, me deixe morrer em paz. Me deixa Roberto, por favor.
-Escuta sua cretina, você é suspeita de matar o ministro, um policial e tem também tráfico e prostituição na sua conta. Já vi você fazer coisas de que até Deus duvida, e vai querer me convencer que quer se matar com um arranhão no pulso? Além disso, meu informante me disse que você veio pra cá nos braços de um homem.
-Me deixe em paz.
Quando diz isso, Mariana se vira e se dirige à porta com a intenção de abri-la para Roberto, mas ele a agarra por trás. Eles lutam, voam socos e pontapés. Mariana ainda que mais fraca, sabe se defender. Daniel assiste tudo com uma angustia crescente, além de um frio alucinante que começa a fazer com que não sinta mais os pés. As pernas tremem. Quando olha de novo para dentro do quarto, vê Mariana que empunha uma pistola, a mesma que usou para atirar nele. Ela parece possuída por uma força maligna. Sua voz, antes doce e suave, agora é estridente e rouca:
-Roberto, seu babaca idiota. Você não vai sair daqui vivo.
-Você não teria coragem, depois de tudo o que passamos juntos, duvido que você possa fazer isso.
-Quem disse que eu vou fazer isso? Já ouviu falar de Jorge, o patológico? O mesmo que matou um indigente e colocou no lugar do ministro da economia? O mesmo que explodiu os paquistaneses pra criar a suspeita, algo para a mídia se ocupar. Por sorte o paquistanês pas-de-jambes ainda não tem condições de falar coisa com coisa. Mas era pra você dar um jeito nele, lembra-se?
-Você andou fumando aquele hashish? Aquele do... Paquistão? Tá maluca? Que papo é esse?
- O ministro nesse momento está em uma fazenda perto de Cuiabá e passa bem. Tudo foi planejado por ele seu bosta. Quem é o idiota aqui? Quem tem uma pistola apontada bem para o próprio nariz nojento? Em dois minutos chega Jorge e se encarrega de você, pois se quer saber, eu só faria mesmo se fosse obrigada. Só se você se mexesse agora, porque afinal tivemos mesmo bons momentos juntos. Infelizmente não vou poder ir à missa em sua homenagem, pois embarco para o Brasil ainda esta noite e em avião particular, sem necessidade de visto meu caro. Entende?
Daniel ouve tudo horrorizado. As palavras de Mariana ecoam em modo aterrorizante em sua mente. Suas pernas agora tremem em modo frenético. Sente que perde as energias. Vê um carro de policia que se aproxima lentamente. Está sem voz, sem forças. Está também confuso. Chamar a policia significa perder para sempre sua Mariana. E como explicar que veste uma toalha e tem uma faca nas mãos? O carro passa, está bem debaixo dele. As pernas tremem. Olha para dentro, vê Mariana com a pistola a meio metro de Roberto. Ele sente que vai cair. Sente seu corpo agitar-se e precipitar no vazio. Ele sempre teve e acreditou na esperança. No seu vôo do segundo andar até o chão, Daniel teve tempo de ter esperança. Esperança de que o metro de neve na calçada, pudesse fazer algo por ele. Nos décimos de segundo de seu vôo, Daniel teve tempo de pensar e sentir muitas coisas e inclusive, de ouvir um tiro, vindo do quarto 216 do L'Hôtel du Vieux Québec.
Este post faz parte na novela psico-anarco-surreal-modernética-policial O PORTO DO DESESPERO, de criação coletiva e caótica, idealizada pela Ana Lucia. Como devo passar o bastão, escolho já um mito, pra pelos menos nisso não sofrer críticas: Milton Ribeiro.
Comments
Através do Porto, estou descobrindo ótimos escritores; parabéns. Qto ao Daniel, é mesmo um brasileiro: em qualquer situação, mantém a esperança! :)
Posted by: Flávio | maio 31, 2006 3:21 AM
Ótemo!
Posted by: Viva | maio 27, 2006 8:11 PM
Batata quente, essa história de costurar todos esses retalhos. Mas agora fiquei curioso com a continuação.
Posted by: Allan | maio 25, 2006 2:20 AM
Arrebentando nas letras, hein, Pradinha???
Posted by: Denise Arcoverde | maio 24, 2006 7:09 PM
Adoro!
Posted by: santo mário | maio 24, 2006 2:48 AM
Roberta, seu capítulo estava legal tb. O fantasma foi uma boa idéia. Todo mundo tá mandando bem nessa novela...
Posted by: Serbon | maio 23, 2006 7:37 PM
Hahahaha, ficou beeeeeem melhor do que o meu capítulo!
Posted by: Roberta | maio 23, 2006 7:04 AM
Uia, adorei!
Brains, brains!! GIMME BRAINSSSS
Posted by: Gabi | maio 22, 2006 9:51 PM
Que viagem....
mas gostei
:P
Posted by: Lady Momoberry | maio 22, 2006 9:14 PM
Cara, este blog é possuído pelo setestrelo (aê, serbon). Ele fica o tempo todo querendo instalar um software. Tive que cancelar dez mil vezes para ler tdo capítulo. acho que é coisa do Roberto!
Posted by: Sbub | maio 22, 2006 12:28 PM
Ficou bacana. Pro título "Os vôos", achei que a novela ia mudar para aeroporto do desespero!
Posted by: Sbub | maio 22, 2006 12:27 PM
tá cada vez melhor...pena que está chegando ao final!!!
Posted by: Serbon | maio 22, 2006 11:43 AM
Vai morrer nada, Ana Lucia! O Milton nao vai deixar... :-) Ótima continuacao, Flavio. Frenética e emocionante!
Posted by: Vanessa | maio 22, 2006 12:33 AM
huahuahuahua ! E o mala-mor ainda vai morrer congelado em cima do carro da policia ! Brigadim Flavio ! Beijocas.
Posted by: Ana Lucia | maio 22, 2006 12:05 AM
Ha ha ha, coitado desse Daniel, já passou por tudo em poucos dias... Ótima continuação, Flavio!
Posted by: Leila | maio 21, 2006 10:56 PM
emocionante com boas possibilidades para a sequência. Abç
Posted by: gugala | maio 21, 2006 10:24 PM
emocionante com boas possibilidades de sequência. Abç
Posted by: gugala | maio 21, 2006 10:24 PM