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Mais um dia da terra

Hoje, a pedido da Lucia Malla, uma série de blogs estará postando textos tendo como tema o Planeta Terra, visto que hoje è seu dia. Um dos maiores problemas do planeta Terra é que eu não consigo encontrar estacionamento para o meu carro quando vou ao centro da cidade. Largo ele por qualquer canto e isso me resulta em algumas multas. Fico evidentemente chateado, mas pago as mesmas e o ciclo recomeça. Mas pra se chegar a esse ponto, muita coisa aconteceu antes. Mas o grande, enorme problema é com o que acontecerá depois.
Pra que eu vivesse este problema com meu carro, foi preciso que alguém tivesse inventado o automóvel. Na verdade não foi alguém, o automóvel è resultado da reunião de inúmeras invenções. Toda essa gente se moveu nesse sentido, porque naquele momento, por volta da metade do século XIX, um fator muito importante começava a despontar. Algo que iria mudar toda a configuração material do ambiente humano: a energia a baixo custo aliada a tecnologia para sua utilização.
Eletricidade, petróleo, gás, carvão, prometiam um mundo onde o progresso material finalmente sairia do campo dos sonhos para se tornar real. A revolução industrial começava a estender seus frutos a todos, ao menos teoricamente. Não é por acaso que foram abolidas todas as formas de escravidão, ao menos as formais e declaradas, os países se tornaram independentes, a ciência descobria a cada dia novas verdades e estabelecia um novo modo de ler a realidade. Os escravos modernos eram alimentados com óleo ou carvão, ou mesmo simplesmente ligando um fio a uma tomada. De 1870 a 1970, todo o mundo literalmente explodiu em uma revolução permanente e dinâmica, onde a promessa era que haveria bem estar para todos.
Na prática isso não ocorreu exatamente como a promessa, mas vejamos isso mais adiante. Mas a revolução era algo real. Por um lado não era mais necessário haver 15 filhos e todos trabalharem a terra para poder produzir algum excedente. Era já possível ter poucos filhos e coloca-los a estudar, pois a energia necessária para cultivar a terra, fabricar os livros, as próprias escolas e transportar tudo o que se quisesse estava ao alcance da mão. Até as mulheres já podiam mudar seu próprio papel na sociedade, aumentando sua participação em todos os níveis.
Por outro lado, as novas possibilidades causaram um movimento enorme do campo para a cidade e essa concentração determinou a criação de imensas estruturas, magníficas obras do engenho humano no transformar o próprio ambiente ainda que nem sempre com ganhos efetivos. Além disso, as pessoas foram mais ou menos divididas em duas grandes categorias: os consumidores e os desocupados. Por mais rápido que tenha sido o crescimento e a capacidade de distribuir e aproveitar a energia que fazia mover o novo mundo, a maior parte dos seres humanos ficou de fora, na classe dos desocupados e não viu a promessa de bem estar ser cumprida. Porque na outra ponta, os humanos que detinham e detém a propriedade das formas de energia e da tecnologia, mantiveram por inércia a mesma estrutura social, com o agravante de que tudo se dá em uma escala que dramatiza tudo. Se percebeu que mantendo-se a promessa como tal, a gente se move no sentido de tentar alcança-la e produz a baixo custo, já que a esperança não gasta energia.
No mundo de hoje, existe uma riqueza absurda em meio a um mar de pobreza, ainda mais absurda. Não bastasse isso, desde lá por volta de 1970, os sinais de que a festa tem um limite, começaram a aparecer. Os consumidores se armaram com todos os seus direitos e seus caprichos, ainda que patéticamente moldados pelos interesses de quem se senta mais acima e começaram a radicalizar ainda mais o jogo. “Nosso padrão de vida è um direito e não abriremos mão dele”, dizem.
Se nos anos precedentes as guerras, que foram praticamente todas fruto de disputas pelo controle das formas de energia e sua utilização e se deram entre os atores principais do grande teatro, nos últimos anos o mundo assiste à reunião dos grandes em contraposição aos frágeis, já que se antevê uma mudança no cenário. A energia, voltando a ser cara e escassa, obrigará a uma radical inversão no modo de produzir, consumir, mover-se e desfrutar o mundo. E o modo melhor para garantir a sobrevivência dos consumidores, é excluir de vez os desocupados, uma vez que nem a escravidão é mais necessária. Uma sinuca de bico das boas.
A energia barata permitiu o crescimento que permitiu a concentração de riquezas que agora, diante da perspectiva da energia cara, se encontra com um mundo de gente sem utilidade para seus interesses e tendo em vista que os fenômenos se dão em escala planetária, a coisa tende ao esgotamento. Inclusive e assim como os ditos problemas com a energia.
O petróleo que é um liquido estranho que levou alguns milhões de anos para se formar e dormiu outros tantos milhões de anos debaixo dos pés de todos os heróis da antiguidade, será completamente eliminado desse mundo entre quarenta e sessenta anos. È a historia do herdeiro que torra as economias de gerações passadas. As fontes de eletricidade também apresentam problemas. A geração hidrelétrica começa a chegar a seu ponto de saturação, a menos que se perca ainda mais terra, cada vez mais escassa também, para os alagamentos, que representam um impacto enorme ao ambiente. A energia nuclear é hoje mais segura e eficiente, mas o risco de acidentes é sempre presente, sem se falar do verdadeiro pesadelo que são os resíduos radioativos. Com o carvão mineral e o gás natural, vale mais ou menos o discurso em relação ao petróleo: vão acabar e todos vão se olhar e dizer: e agora? Muitas outras formas de geração e captação estão sendo estudadas e colocadas em prática: hidrogênio, biogás, eólico, fotovoltaico etc. O problema é que não custam pouco e dependem de uma tecnologia muito mais avançada e não são livres de impacto ambiental também. O milagre não está se repetindo como no século XIX. E agora?
Uma das esperanças está na fusão a frio. A fusão dos núcleos de poucos átomos de hidrogênio são capazes de liberar uma estupenda quantidade de energia. As bombas e o próprio sol são provas disso. O problema è controlar o processo. Estão construindo um reator experimental na Suíça, não muito longe aqui de casa e espero muito que seja seguro. Mas prometem alguma novidade lá por 2020. Mas, e agora? A continuar o cenário que se apresenta no dia de hoje, a terra será um lugar difícil de se viver, mais do que já é. Eu que tenho meu carro e mais centenas de escravos mecânicos, elétricos e eletrônicos, não quero abrir mão de meu conforto. Ao mesmo tempo, quem não tem tudo isso, luta para conquistar. Alguns países que até pouco tempo estavam na era pré industrial, chegando a ela, requerem sua parte de energia para prosseguir na sua caminhada rumo a concentração de rendas e exclusão social. China, India, Brasil estão nessa, juntos com outras dezenas de países e que somam alguns bilhoes de seres humanos. A chave da encrenca è essa: não tem bolo pra todo mundo nessa festa. Pois é, e agora?
No imediato, o que se pode fazer, è mudar o próprio modo de viver, partir já pra coisa mais difícil. Eu devo parar de ser bobo e ir ao centro ou de bicicleta ou de ônibus. Comprar pouca embalagem, reciclar o lixo, não especular com o dinheiro, produzir minha própria energia. Em poucas palavras, ser autosustentável. Não é fácil em um mundo que sabe de seus podres e pede que desviemos nossa atenção dos problemas reais e mergulhemos no virtual. Além disso tem a política, que está a anos luz desses problemas no que se refere o seu modo de fazer e segue firme com seu ritmo como se vivêssemos na Roma antiga. Nesse plano, não se pode mais esperar e investir nos discursos de progresso e crescimento. Temos que equacionar quanto bolo tem na festa e como vamos distribui-lo racionalmente e sem impacto. Se não nos ocuparmos disso imediatamente, bem, não sobra muita esperança. Me dói imaginar meu neto e o de todos que lêem isso aqui dizendo: e agora?

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Comments

Gostaria de ter o seu link, mas no meu blog são as visitas que se linkam! Por isso e se for da sua vontade, vá até lá e clique no logotipo do "Páginas Amar-ela", o dos morangos, para fazer o registo e adicionar o seu blog!
Um abraço amigo,
Daniela

Ô cara engraçado.

Flavio, claro que eu topo!!! Me mantenha informada sobre os seus planos de chegada ;)

bjs

Que bacana, Flavio, gostei de saber!

E agora Flávio?
Me pergunto isso todos os dias, por que evolução tem sido sinônomo de destruição?
Belo post.
Beijos

Flavio, ficou a sua cara esse texto! Muito interessante. Mas preciso dizer q tbm me dói. Fazer o q?

Valeu a participação.

Excelente post, Flávio!

Eu não tenho carro, mas desconto no uso excessivo de ar condicionado, em casa, fora isso, vou tentando fazer minha parte.

Você viu minha resposta pra você lá no post do aniversário de Bia? ela ficou super emocionada com seu recadinho pra ela :-)

Beijão!

Flávio, estamos afinados, o seu post está muito bom, complementa o meu, eu fiz na hora, foi uma reflexão apenas.
Fico contente qdo vc aparece por lá :)
um bj laura

Obrigada pela visita ao "Textos" e também fiquei muito feliz por ver o link aqui. Gostei muito do texto, informativo. Já estava na hora de mais e mais pessoas agirem como o beija-flor da fábula e fazerem sua parte. Um abraço!

Leila, as cidades da região entraram todas em uma saudável competição pra ver quem recicla mais o lixo. Riva está por volta dos 40% do lixo indo para a reciclagem. Temos no condomínio um container de lixo normal com chave eletrônica que pesa o lixo de casa condômino. Tem também um de lixo orgânico com coleta duas vezes por dia. Depois temos em uma área de estacionamento aqui perto os latões para vidro, metal e plástico. Um pouco mais distante os de roupas e sapatos e outro de pilhas usadas. Finalmente, existe um área da prefeitura destinada a recolher objetos maiores, tipo geladeira, colchões, essas coisas. A meta é chegar a 60%. Estamos tentando.

Como indivíduos, o que podemos fazer para ajudar o meio ambiente e o clima da Terra é economizar energia sob todas as formas (gasolina, eletricidade, gás, etc), e votar nos políticos que se comprometam em preservar o ambiente.

Aí na tua cidade as pessoas separam/reciclam lixo de forma cotidiana? Fiquei curiosa para saber como é na Itália.

Eu sou uma recicladora total, não jogo nada fora que possa ser reciclado. Outra coisa que se pode evitar é gastar papel à toa. Antes de reciclar, é bom conter o gasto desnecessário.

bjs

Flavio, linkei este post e os adjacentes lá no Ao cubo³. Valeu

Fiquei impressionado ao saber que 8% da energia elétrica gasta por aqui é simplesmente com chuveiros elétricos. Mais um dos gdes absurdos contornáveis. Abç

Flávio, Obrigado pela visita no meu recém-inaugurado blog. http://www.foradoarmario.blogspot.com/

Também acho que o caminho é o desenvolvimento sustentável, mas por um outro lado temos que ser realistas e perceber que o progresso humano é fundamental pra humanidade. As pessoas hoje com todos os problemas, riscos e consequências do modelo atual vivem muito mais tempo e com maior qualidade de vida(nos países ricos).

Abraços

Pena que alguns poderiam vir aqui e ainda dizer: "azar do teu neto". Ainda tem muita gente que pensa assim no mundo. abs

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