Objeto: Esclarecimentos
A Klimatekh Serviços de Condicionamento
Prezados senhores
Inicialmente gostaria de sublinhar a minha satisfação em relação a vossos serviços aos quais nos últimos anos tive a oportunidade e o privilegio de poder contar. O objetivo desta é colocar-lhes ao corrente dos fatos e justificar-lhes sobre a minha ação de ressarcimento de danos, requerida no dia 20 do mês próximo passado através dos meus advogados. Não existe nada de pessoal neste procedimento, gosto de repetir.
Como bem sabem, a minha era uma pequena empresa de decoração e funcionávamos em um galpão alugado na área industrial da cidade. Tínhamos ali também nossos escritórios e show room. No dia 30 de agosto do ano passado, o calor era insuportável. Nessa ocasião, recebi a visita de meu mais importante cliente, homem muito poderoso e ocupado, além de um tanto estressado e nervoso. Ele ali se encaminhou para avaliar os primeiros desenhos que fizemos para seus novos escritórios. Minha empresa estava atravessando um período de grandes dificuldades e este projeto era simplesmente a ultima esperança para a retomada, e se tratava de um budget muito consistente. Levei meu cliente ao showroom, onde costumeiramente faziamos as apresentaçoes de projetos. No momento em que acionei o interruptor do aparelho de ar condicionado tipo split, modelo sc342, fabricado e instalado pela vossa empresa, se pôde ouvir um estalo, seguido de uma espécie de relâmpago e uma ligeira emissão de fumaça do aparelho. A reunião de conseqüência, não poderia ser realizada ali, visto o calor e a neblina formada. Deslocamo-nos ao escritório, já debaixo de impropérios vindos de modo todo justificado da parte de meu cliente. Levamos alguns minutos para transportar os aparelhos eletrônicos dedicados ao evento. Tivemos que desalojar meu desenhista e também a secretária. Nosso escritório não era muito espaçoso e por isso tivemos que arrastar mesas e cadeiras, irritando ainda mais meu nobre cliente. Para piorar a situação, o aparelho de tipo portátil, modelo pfg829, fabricado por vossa empresa, fazia um certo rumor além de praticamente congelar o ambiente, sem possibilidades de se regular o fluxo de ar quase polar. Desnecessário dizer que nestas condições climáticas e de acomodação, o humor de meu cliente que não era por natureza dos melhores, podia-se definir naquele momento como podre. Inútil também explicar porque a nossa apresentação foi um fracasso e com isso perdemos não somente o projeto, mas também o cliente.
Em face a estes acontecimentos, não me restou alternativa senão a de demitir meus cinco funcionários, os quais me fizeram causa, dois deles tendo me ameaçado de morte. Além disso tive que devolver os computadores adquiridos para com isso tentar afrontar as perdas. Voltei a desenhar manualmente e os poucos clientes que me restaram começaram a inicio reclamar e depois, pouco a pouco, foram desaparecendo. Cheguei ao ponto de que nem trabalhando sozinho, conseguia cumprir meus compromissos. Os alugueis atrasados do galpão, mais as faturas dos fornecedores, pude honra-los recorrendo a agiotas que me faziam pagar taxas de 20% ao mes. As demais dívidas eu paguei com o prêmio do seguro pelo incêndio do galpão, mas este chegou com muito atraso devido às contestações da companhia de seguro que insistia em dizer que o incêndio foi doloso. Tive que gastar alguns milhares do prêmio para poder fazer um acordo amigável com o agente encarregado.
Como a situação com os agiotas não poderia continuar, resolvi reorientar minha atividade e passei a prestar consultoria imobiliária e com isso, vendendo cotas de um projeto de um novo shopping center por mim idealizado, pude saldar os agiotas. O problema surgiu quando os oitocentos investidores descobriram que o projeto previa somente 100 lojas e ficaram achando que 700 ficariam de fora. Talvez por obra de algum invejoso fofoqueiro, eles também ouviram falar que o dinheiro da entrada que me pagaram foi todo repassado aos meus banqueiros informais. Mas era tudo mentira, aos agiotas eu havia pagado com uma parte do dinheiro sim, mas o restante foi com notas promissórias de terceiros e títulos do tesouro, tudo por mim mesmo confeccionado. Os investidores diziam que sem dinheiro eu não conseguiria erguer um shopping center e com isso a relação de confiança na qual se baseava o negócio, foi despedaçada. A incompreensão desses investidores chegou a tal ponto que me senti perseguido e ameaçado pessoalmente e tive que me mudar da cidade. Os agiotas também me perseguiam pois não gostaram de solucionar nosso business daquela maneira. Outros que começaram a me procurar insistentemente foram os fiscais da receita federal que de modo inexplicável me faziam visitas plenas de ameaças e sugestões veladas de propostas expúrias. Justo a mim que sou homem honesto.
Fui obrigado a ir viver em um quarto de pensão no centro da cidade grande e não pude arranjar outra atividade que não aquela de obter empréstimos de objetos com tempo de devolução indefinido. Fiz também comércio de produtos farmacêuticos populares de produção caseira e ervas medicinais calmantes. Realizei também neste mesmo período a venda de estátuas e pontes da cidade. Todas estas atividades encontraram a incompreensão de certos setores dos poderes constituídos, em principal maneira, das forças policiais e dos órgãos de justiça. O caso é que me encarceraram e me encontro na ala dois do pavilhão 6 da penitenciária do estado.
Como podem constatar, a causa de meus problemas dos últimos tempos foi em primeiro lugar o estouro do aparelho split e em segundo lugar, os problemas de funcionamento do aparelho portátil, ambos de vossa fabricação. Não penso que o pedido de ressarcimento de 3 milhões seja exagerado. Isso cobre somente parcialmente os danos e a causa nem mesmo contabiliza os danos morais e psicológicos que sofri. Sei o quanto vós sois humanos e que compreenderão meu caso.
Gostaria de finalizar, aproveitando a oportunidade, solicitar a instalação de um aparelho de janela com carga de 7 BTUs, na cor silver, a ser instalado no endereço referido: cela 36, ala 2, pavilhão 6, Penitenciaria do Estrado. O verão se aproxima e a cela é mesmo quente. O pagamento podemos combinar oportunamente. Adianto que se for de vosso interesse posso pagar em correntinhas de ouro, 24 quilates, com garantia. Um último pedido. Quando da instalação, favor mandar um único funcionário, devidamente uniformizado e não se esquecendo de mandá-lo trazer todas as ferramentas, principalmente a serra de metais.
Sem mais para o momento
Subscrevo-me atenciosamente.
Comments
Caro senhor: Gostaria de saber se V.S. e´interessado em comprar cotas da "COFEPE" (Colonia de Férias da Penitenciária do Estado)
preço e condições de pagamento a combinar...
Posted by: Claudio | março 11, 2006 3:39 AM
Pensei que ele fosse exigir um funcionário bem bonitinho também, he he he. Sabe como é, carência afetiva na prisão...
Posted by: Leila | março 10, 2006 10:40 PM
Os problemas começam quando começam os problemas.
Posted by: Allan | março 10, 2006 5:11 AM
Por essas e outras é que a garantia contra mau-funcionamento se torna essencial. Nunca se sabe como um simples defeito num aparelho pode afetar toda uma vida.
Posted by: Viva | março 9, 2006 7:43 PM
Essencial é o detalhe da cor, silver.
Posted by: pecus | março 9, 2006 2:03 PM
devia pedir tb uma garantia 'perpétua 'do novo aparelho. abçs.
Posted by: gugala | março 9, 2006 1:46 PM