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As aspirações de cada um

Respondi ao anúncio de emprego e me chamaram para uma entrevista. Era um escritório grande e muito bem decorado. Quem me recebeu foi o proprietário da empresa em pessoa. O reconheci de imediato pois era o próprio que fazia a publicidade na televisão. Publicidade é modo de dizer, na verdade chamam aquilo de tele-promoção. O sujeito fica no ar por meia hora, martelando slogans e promessas e urrando a plenos pulmões, pede para que se ligue a determinado número de telefone e que se comprem os produtos.
O Senhor Giorgio me recebeu muito bem em sua sala. Me ofereceu café e cigarros. Disse que a sua empresa estava se expandindo muito e que precisava de gente dinâmica e ambiciosa para alavancar as vendas. Prontamente eu me mostrei dinâmico, agitando o corpo e gesticulando enquanto falava. Me fiz ver também muito ambicioso, metendo todos os cigarros da cigarreira no bolso. Ele sorriu satisfeito. Em seguida me deu um livreto e me disse que aquilo seria a minha bíblia daquele momento em diante. Era o manual do bom vendedor, com todas as dicas para se dar bem no mundo do comércio. Ainda sorrindo falou com sua voz potente:

- Amanhã começa o curso de formação e você está selecionado.
- Ótimo, estou muito contente.

No dia seguinte, cheguei por volta de oito horas. Estava um pouco enjoado por ter fumado tanto na noite anterior, até porque nunca havia fumado antes. O curso seria ministrado no salão de conferências da empresa. Pude reconhecer em um dos ângulos, o que entendi ser o estúdio onde se gravavam as tele-promoções. Ele foi direto ao assunto:

-Vocês já devem ter-me visto na TV, certo?
E todos em coro: “certo!” Ele continuou:

-Vocês vêem que eu ofereço um mundo de produtos e digo que custam somente 199 euros, certo?
-Certo!
-Pois bem, esta é a chave do nosso sucesso como empresa. Ninguém lê as letrinhas minúsculas que passam como um raio no rodapé do vídeo, mas ali está escrito que somente dois produtos custam somados os tais euros. Mas quem assiste, pensa que tudo sai a 199! Então o trouxa liga, ou melhor, o cliente liga ...hehehe não podemos tratar ninguém de trouxa não é? ...hehehe
-hehehehe!
-HAHAHAHAHA!!
-Nunca! HAHAHAHAHA!!!
-Pois bem, como dizia, os clientes ligam e marcamos uma visita em domicilio. É aqui que entram vocês. O objetivo é entortar a cabeça do cidadão e fazê-lo comprar todo esse monte de bagulho chinês.
-Mas, desculpe – disse eu - na TV eu vejo o senhor dizer que é tudo made in Italy.
-Claro!
-Não entendi.
-Meu caro, se você não entendeu isso, você também não entendeu a primeira parte do meu recado. Não penso que seja algo que vá te dar pontos aqui.
-Ah! Puxa vida! Entendi! Claro, eu estava brincando, fazendo uma piadinha. Pra descontrair.
-Bravo! Eu já ia mesmo falar disso. Muito bem lembrado. Pessoal, na nossa atividade o bom humor é essencial. Vocês vão ler isso no primeiro capítulo do manual. Seja em que circunstância for, façam uma piada pra quebrar o gelo. E falem muito, sem parar. Vocês devem se transformar em metralhadoras giratórias de piadas infinitas! Além disso, vocês devem levar todos os aparelhos em venda e se possível, ligá-los todos ao mesmo tempo. Um festival irresistível de eletrodomésticos enlouquecidos com molho de vendedor alucinando. Impossível não cair na rede. Nosso objetivo é que vocês façam vendas de no mínimo 2 mil euros.
-Mas eles nos chamam com o objetivo de gastar 199!
-Sim, e é por isso que vocês tem que estudar muito e se aplicar. Vejam bem, se você vende você ganha, se não vende, o que você ganha é um convite para voltar pra casa. É justo, não?
-Justíssimo!

Depois de uma semana de curso teórico e prático, mais madrugadas de leitura do manual e infindáveis exercícios diante do espelho, finalmente me senti pronto para começar no mundo dos grandes negócios. Aprendi mais de quatro mil piadas e com esse arsenal de bom humor não haveria quem pudesse resistir às minhas ofertas. Chegado o grande dia de minha estréia, passei de manhã bem cedo na sede da empresa para apanhar meu roteiro e os produtos que iria levar. Meu carro ficou completamente lotado com a bateria de 24 panelas, forno de microondas, enceradeira, batedeira de bolo, aspirador de pó, cortador de grama e mais 30 outros aparelhos. Meu primeiro cliente morava em um bairro afastado e cheguei lá perto das 10 da manhã. Me atendeu à porta um senhor muito bem vestido e aparentado seus 50 anos. Não esperava por isso. No curso diziam que em 99% dos casos, a essa hora estão em casa as mulheres do lar. Pessoas altamente influenciáveis e com o coração repleto de desejos inconfessáveis, principalmente em relação a jovens senhores bem apessoados como, modestamente, posso me definir. Caberia a mim iniciar o trabalho enfrentando um representante daquele 1% mais difícil. Pensei que seria um ótimo teste e entrei sorrindo:

-Bom dia! Vejo que o senhor está bem interessado, nem foi trabalhar para poder acompanhar sua esposa na nossa apresentação.
-Eu perdi o trabalho há um pouco de tempo.
-Puxa vida, mas tenho certeza que logo encontra outro. O senhor é formado em que?
-Não sou formado em nada, nunca pude estudar. Eu ajudava minha mulher no consultório.
-Dentista?
-Sim.
-Que maravilha! O senhor conhece todas as bocas então, hein? Hahahaha.
-....
-Por falar nisso, quando sua mulher vier, quero lhe mostrar meu dente do juízo. Quero mandar tirar, não que me incomode, só quero perder o juízo! Hahaha Boa essa não? Hahaha.
-Minha mulher não vem.
-Não tem problema, fica para a próxima. Perco o juízo em outra ocasião. Hahaha.
-Minha mulher morreu em um acidente de automóvel há duas semanas, assim como as minhas duas filhas, que viajavam com ela.
-Err, ah, sim, mas não tem problema ...quer dizer..
-Não tem o que?
-Não, eu não disse nada, eu disse que não tem problema se eu lhe mostre os aparelhos agora, ou melhor, quer dizer, só para o senhor, senhor, err.
-Eu só quero o aspirador de pó.
-Mas nos temos um mundo de ofert..
-Desculpe se te interrompo. Eu disse que quero só o aspirador e com desconto, já que não vou levar toda a outra bagulhada. Pelas minhas contas, se o teu patrão anuncia 38 produtos a 199 euros, um único produto devera custar 5 e 24, arredondando a conta.

Ele me olhava em modo firme e muito sério. Eu estava tentando me lembrar, entre as mais de quatro mil piadas, qual seria a mais apropriada para aquele momento. Eu conhecia uma série sobre funerais, enterros, mas a grande maioria tinha a sogra como protagonista. Eu estava perdendo tempo e isso equivalia a perder terreno. Ele estava falando mais do que eu. Isso não era bom. Agi como um ninja, talhando o discurso do homem:

-Desculpe, o senhor tem sogra?
-O que isso tem a ver?
-O senhor conhece aquela da sogra que não queria ser enterrada? Ops, putz, contei o final da piada, hahaha, acontece.
-Sim, acontece. Afinal, quer me vender o aspirador ou não?
-Mas é que temos outros produtos. O senhor me olha feio, mas veja, as panelas são ótimas. O senhor me olha mais feio ainda. Na minha terra dizem que cara feia é sinal de fome, hehehe. Vamos fazer assim, com as panelas o senhor faz um belo almoço e sorri contente.
-Meu jovem, eu faço um simples aviso. Meu auto controle está chegando ao limite.
-Veja, eu tenho aqui um controle remoto universal com corpo de borracha. Nunca mais o senhor vai se preocupar com controles que se despedaçam quando caem no chão. Além disso ele serve a todos os tipos de aparelho.
-Venha cá, me acompanhe.

Ele me orientou por aquela enorme casa e chegamos a uma sala de estar muito bem decorada em um estilo império revisitado. Móveis austeros, uma bela lareira e um enorme tapete muito sujo, que destoava um pouco do conjunto. Ele me interrompeu quando eu lhe contava a piada do papagaio mórmon.

-Jovem, você me parece um pouco imbecil, além de cretino, mas deixe-me dizer uma coisa. Minha familia foi despedaçada por um caminhão que invadiu a pista onde elas iam. Minha mulher e minhas filhas tiveram também seus corpos despedaçados, sendo que encontraram suas partes ao longo do guard rail pelos 50 metros em que o carro foi arrastado. Minha filha mais nova teve a cabeça arrancada e a outra foi dividida em três partes. Portanto, quero que você pegue esse teu controle que não despedaça e o enfie no buraco do teu cu. Além disso, se você conhecesse minha sogra e soubesse que ela foi o único parente que me sobrou nesse mundo, você mandaria alguém não lhe arrancar o dente do siso, mas sim costurar essa tua maldita boca além de mandar cortar essa língua para não poder nunca mais triturar as bolas do saco de alguém com essa tua conversa esdrúxula e inconseqüente.
-Mas..
-Espere, não acabei. Você vê o tapete? Vê que está sujo? Aquela é minha esposa. Derrubei a urna com suas cinzas sobre o tapete anteontem à noite. Portanto, a única coisa que desejo neste momento é que você cale a estúpida boca e me venda o maldito aspirador de pó.
-Vejo que o senhor ficou ligeiramente alterado. Não é uma boa fase, entendo. Aqui está o aspirador. São 5 e 24. De brinde eu deixo o ... me perdôe ... o controle remoto.

Ele me encarava com um ar muito ameaçador. Eu ajuntei:

-Deixo também as panelas. Sabe ...o almoço. Deixo também os saquinhos de reposição do aspirador.
-Nem precisaria, vou usar só uma vez.
-Eu deixo mesmo assim, nunca se sabe quando a sua mulher vai de novo... quer dizer... nunca se sabe se vai... bem, nunca se sabe, ponto.
-Pode deixar tudo ali naquela mesa.
-O senhor não está chateado comigo, está?
-Claro que não, me desculpe se explodi. Sabe, tenho tido dias difíceis. Além disso não tenho amigos e não tenho ninguém com quem desabafar.
-Com a sogra não dá, não é?
-Não mesmo.
-Pode contar comigo como um novo amigo.
-Sério?
-Claro!
-Então me deixe pedir algo, de amigo para amigo.
-Tudo o que quiser. Peça e eu o atendo.
-Não quero que você pense que estou me aproveitando.
-Imagine!
-Pois bem, você pode me emprestar os 5 e 24? Sabe, minha mulher era o sustentáculo da casa e sem ela, sabe, fiquei a ver navios.
-Tome 10 e nem precisa me devolver. Fica como gesto de amizade.
-Obrigado. Escuta, vamos fazer o seguinte. Se você me emprestar mais 189 euros eu posso ficar com toda a mercadoria, pode ser?
-Eu só tenho mais duas notas de 100 aqui.
-Sem problemas, na semana que vem te dou o troco.
-Ok, negócio fechado.

Quando eu descia as escadas do jardim, deixando a casa, me veio uma sensação de que algo não andou como deveria. Pois tive a certeza disso quando voltei à sede da empresa. Estão me procurando até agora. Eu sabia que todo aquele bom humor tinha algo de artificial. Eu sabia.

Comments

Nota 1000!!!

Oi, Flavio,
Fosse eu vendedor, bem poderia ser essa a estória da minha vida.
Mas, como nunca vendi nada material, fiquei com inveja do desprendimento do seu vendedor. Nasceu para isso!
Abraços
fernando cals

Eu já pensava como contaria a meus amigos que conheci, pela blogosfera, o novo Sílvio Santos brasileiro, melhor até, por já ter começado a vida de vendedor na Itália.

Bom... Se sua vocação de vendedor foi idêntica ao "talk" você vai passar fomeeeee.... e lá se vão mais 10!!!! hahahahahaha

Salve, salve Flavio Prada!
(desta vez não troquei a vogal pela consoante, hehehe)
Meu querídolo, mui grata pelas gaitadas que dei aqui do outro lado. ops! será que paulistaitaliano sabe o que são gaitadas?
hehehe.
bjãozão

Você me mata de rir!
beijo!

Experimente uma nova atividade. Vendedor de enciclopédias, talvez...

Por isso mamãe sempre me disse para estudar.

Fantástico, Flávio!

Vida besta esta de arquiteto, né?

Hahaha, muito bom! Muito bom!

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