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março 27, 2006

As aspirações de cada um

Respondi ao anúncio de emprego e me chamaram para uma entrevista. Era um escritório grande e muito bem decorado. Quem me recebeu foi o proprietário da empresa em pessoa. O reconheci de imediato pois era o próprio que fazia a publicidade na televisão. Publicidade é modo de dizer, na verdade chamam aquilo de tele-promoção. O sujeito fica no ar por meia hora, martelando slogans e promessas e urrando a plenos pulmões, pede para que se ligue a determinado número de telefone e que se comprem os produtos.
O Senhor Giorgio me recebeu muito bem em sua sala. Me ofereceu café e cigarros. Disse que a sua empresa estava se expandindo muito e que precisava de gente dinâmica e ambiciosa para alavancar as vendas. Prontamente eu me mostrei dinâmico, agitando o corpo e gesticulando enquanto falava. Me fiz ver também muito ambicioso, metendo todos os cigarros da cigarreira no bolso. Ele sorriu satisfeito. Em seguida me deu um livreto e me disse que aquilo seria a minha bíblia daquele momento em diante. Era o manual do bom vendedor, com todas as dicas para se dar bem no mundo do comércio. Ainda sorrindo falou com sua voz potente:

- Amanhã começa o curso de formação e você está selecionado.
- Ótimo, estou muito contente.

No dia seguinte, cheguei por volta de oito horas. Estava um pouco enjoado por ter fumado tanto na noite anterior, até porque nunca havia fumado antes. O curso seria ministrado no salão de conferências da empresa. Pude reconhecer em um dos ângulos, o que entendi ser o estúdio onde se gravavam as tele-promoções. Ele foi direto ao assunto:

-Vocês já devem ter-me visto na TV, certo?
E todos em coro: “certo!” Ele continuou:

-Vocês vêem que eu ofereço um mundo de produtos e digo que custam somente 199 euros, certo?
-Certo!
-Pois bem, esta é a chave do nosso sucesso como empresa. Ninguém lê as letrinhas minúsculas que passam como um raio no rodapé do vídeo, mas ali está escrito que somente dois produtos custam somados os tais euros. Mas quem assiste, pensa que tudo sai a 199! Então o trouxa liga, ou melhor, o cliente liga ...hehehe não podemos tratar ninguém de trouxa não é? ...hehehe
-hehehehe!
-HAHAHAHAHA!!
-Nunca! HAHAHAHAHA!!!
-Pois bem, como dizia, os clientes ligam e marcamos uma visita em domicilio. É aqui que entram vocês. O objetivo é entortar a cabeça do cidadão e fazê-lo comprar todo esse monte de bagulho chinês.
-Mas, desculpe – disse eu - na TV eu vejo o senhor dizer que é tudo made in Italy.
-Claro!
-Não entendi.
-Meu caro, se você não entendeu isso, você também não entendeu a primeira parte do meu recado. Não penso que seja algo que vá te dar pontos aqui.
-Ah! Puxa vida! Entendi! Claro, eu estava brincando, fazendo uma piadinha. Pra descontrair.
-Bravo! Eu já ia mesmo falar disso. Muito bem lembrado. Pessoal, na nossa atividade o bom humor é essencial. Vocês vão ler isso no primeiro capítulo do manual. Seja em que circunstância for, façam uma piada pra quebrar o gelo. E falem muito, sem parar. Vocês devem se transformar em metralhadoras giratórias de piadas infinitas! Além disso, vocês devem levar todos os aparelhos em venda e se possível, ligá-los todos ao mesmo tempo. Um festival irresistível de eletrodomésticos enlouquecidos com molho de vendedor alucinando. Impossível não cair na rede. Nosso objetivo é que vocês façam vendas de no mínimo 2 mil euros.
-Mas eles nos chamam com o objetivo de gastar 199!
-Sim, e é por isso que vocês tem que estudar muito e se aplicar. Vejam bem, se você vende você ganha, se não vende, o que você ganha é um convite para voltar pra casa. É justo, não?
-Justíssimo!

Depois de uma semana de curso teórico e prático, mais madrugadas de leitura do manual e infindáveis exercícios diante do espelho, finalmente me senti pronto para começar no mundo dos grandes negócios. Aprendi mais de quatro mil piadas e com esse arsenal de bom humor não haveria quem pudesse resistir às minhas ofertas. Chegado o grande dia de minha estréia, passei de manhã bem cedo na sede da empresa para apanhar meu roteiro e os produtos que iria levar. Meu carro ficou completamente lotado com a bateria de 24 panelas, forno de microondas, enceradeira, batedeira de bolo, aspirador de pó, cortador de grama e mais 30 outros aparelhos. Meu primeiro cliente morava em um bairro afastado e cheguei lá perto das 10 da manhã. Me atendeu à porta um senhor muito bem vestido e aparentado seus 50 anos. Não esperava por isso. No curso diziam que em 99% dos casos, a essa hora estão em casa as mulheres do lar. Pessoas altamente influenciáveis e com o coração repleto de desejos inconfessáveis, principalmente em relação a jovens senhores bem apessoados como, modestamente, posso me definir. Caberia a mim iniciar o trabalho enfrentando um representante daquele 1% mais difícil. Pensei que seria um ótimo teste e entrei sorrindo:

-Bom dia! Vejo que o senhor está bem interessado, nem foi trabalhar para poder acompanhar sua esposa na nossa apresentação.
-Eu perdi o trabalho há um pouco de tempo.
-Puxa vida, mas tenho certeza que logo encontra outro. O senhor é formado em que?
-Não sou formado em nada, nunca pude estudar. Eu ajudava minha mulher no consultório.
-Dentista?
-Sim.
-Que maravilha! O senhor conhece todas as bocas então, hein? Hahahaha.
-....
-Por falar nisso, quando sua mulher vier, quero lhe mostrar meu dente do juízo. Quero mandar tirar, não que me incomode, só quero perder o juízo! Hahaha Boa essa não? Hahaha.
-Minha mulher não vem.
-Não tem problema, fica para a próxima. Perco o juízo em outra ocasião. Hahaha.
-Minha mulher morreu em um acidente de automóvel há duas semanas, assim como as minhas duas filhas, que viajavam com ela.
-Err, ah, sim, mas não tem problema ...quer dizer..
-Não tem o que?
-Não, eu não disse nada, eu disse que não tem problema se eu lhe mostre os aparelhos agora, ou melhor, quer dizer, só para o senhor, senhor, err.
-Eu só quero o aspirador de pó.
-Mas nos temos um mundo de ofert..
-Desculpe se te interrompo. Eu disse que quero só o aspirador e com desconto, já que não vou levar toda a outra bagulhada. Pelas minhas contas, se o teu patrão anuncia 38 produtos a 199 euros, um único produto devera custar 5 e 24, arredondando a conta.

Ele me olhava em modo firme e muito sério. Eu estava tentando me lembrar, entre as mais de quatro mil piadas, qual seria a mais apropriada para aquele momento. Eu conhecia uma série sobre funerais, enterros, mas a grande maioria tinha a sogra como protagonista. Eu estava perdendo tempo e isso equivalia a perder terreno. Ele estava falando mais do que eu. Isso não era bom. Agi como um ninja, talhando o discurso do homem:

-Desculpe, o senhor tem sogra?
-O que isso tem a ver?
-O senhor conhece aquela da sogra que não queria ser enterrada? Ops, putz, contei o final da piada, hahaha, acontece.
-Sim, acontece. Afinal, quer me vender o aspirador ou não?
-Mas é que temos outros produtos. O senhor me olha feio, mas veja, as panelas são ótimas. O senhor me olha mais feio ainda. Na minha terra dizem que cara feia é sinal de fome, hehehe. Vamos fazer assim, com as panelas o senhor faz um belo almoço e sorri contente.
-Meu jovem, eu faço um simples aviso. Meu auto controle está chegando ao limite.
-Veja, eu tenho aqui um controle remoto universal com corpo de borracha. Nunca mais o senhor vai se preocupar com controles que se despedaçam quando caem no chão. Além disso ele serve a todos os tipos de aparelho.
-Venha cá, me acompanhe.

Ele me orientou por aquela enorme casa e chegamos a uma sala de estar muito bem decorada em um estilo império revisitado. Móveis austeros, uma bela lareira e um enorme tapete muito sujo, que destoava um pouco do conjunto. Ele me interrompeu quando eu lhe contava a piada do papagaio mórmon.

-Jovem, você me parece um pouco imbecil, além de cretino, mas deixe-me dizer uma coisa. Minha familia foi despedaçada por um caminhão que invadiu a pista onde elas iam. Minha mulher e minhas filhas tiveram também seus corpos despedaçados, sendo que encontraram suas partes ao longo do guard rail pelos 50 metros em que o carro foi arrastado. Minha filha mais nova teve a cabeça arrancada e a outra foi dividida em três partes. Portanto, quero que você pegue esse teu controle que não despedaça e o enfie no buraco do teu cu. Além disso, se você conhecesse minha sogra e soubesse que ela foi o único parente que me sobrou nesse mundo, você mandaria alguém não lhe arrancar o dente do siso, mas sim costurar essa tua maldita boca além de mandar cortar essa língua para não poder nunca mais triturar as bolas do saco de alguém com essa tua conversa esdrúxula e inconseqüente.
-Mas..
-Espere, não acabei. Você vê o tapete? Vê que está sujo? Aquela é minha esposa. Derrubei a urna com suas cinzas sobre o tapete anteontem à noite. Portanto, a única coisa que desejo neste momento é que você cale a estúpida boca e me venda o maldito aspirador de pó.
-Vejo que o senhor ficou ligeiramente alterado. Não é uma boa fase, entendo. Aqui está o aspirador. São 5 e 24. De brinde eu deixo o ... me perdôe ... o controle remoto.

Ele me encarava com um ar muito ameaçador. Eu ajuntei:

-Deixo também as panelas. Sabe ...o almoço. Deixo também os saquinhos de reposição do aspirador.
-Nem precisaria, vou usar só uma vez.
-Eu deixo mesmo assim, nunca se sabe quando a sua mulher vai de novo... quer dizer... nunca se sabe se vai... bem, nunca se sabe, ponto.
-Pode deixar tudo ali naquela mesa.
-O senhor não está chateado comigo, está?
-Claro que não, me desculpe se explodi. Sabe, tenho tido dias difíceis. Além disso não tenho amigos e não tenho ninguém com quem desabafar.
-Com a sogra não dá, não é?
-Não mesmo.
-Pode contar comigo como um novo amigo.
-Sério?
-Claro!
-Então me deixe pedir algo, de amigo para amigo.
-Tudo o que quiser. Peça e eu o atendo.
-Não quero que você pense que estou me aproveitando.
-Imagine!
-Pois bem, você pode me emprestar os 5 e 24? Sabe, minha mulher era o sustentáculo da casa e sem ela, sabe, fiquei a ver navios.
-Tome 10 e nem precisa me devolver. Fica como gesto de amizade.
-Obrigado. Escuta, vamos fazer o seguinte. Se você me emprestar mais 189 euros eu posso ficar com toda a mercadoria, pode ser?
-Eu só tenho mais duas notas de 100 aqui.
-Sem problemas, na semana que vem te dou o troco.
-Ok, negócio fechado.

Quando eu descia as escadas do jardim, deixando a casa, me veio uma sensação de que algo não andou como deveria. Pois tive a certeza disso quando voltei à sede da empresa. Estão me procurando até agora. Eu sabia que todo aquele bom humor tinha algo de artificial. Eu sabia.

março 25, 2006

O esperado retorno

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Muitos foram os pedidos. O grupo Carne de Vacca voltou a ensaiar e deve lançar um novo disco em no máximo seis anos e meio. Aguardem.

março 22, 2006

A falta que faz um cem número de coisas.

Terminei de reler Cem anos de solidão no banheiro esta manhã e saí apressado, tentando diminuir o atraso. Mas era um atraso bom. Porque na calçada tinha uma nota de cem euros, novinha. Abro o Outlook e vejo o numero de mensagens baixadas: cem, incluindo um filme histórico do saudoso canal 100. Meu colega de trabalho vem com a novidade: um cliente resolveu ampliar a área construída prevista acrescentando mais cem metros quadrados. Ligo à prefeitura pra saber de outro trabalho e me dizem que está tudo aprovado em 100%. Cem, cem. Que série incrível de coincidências! Chego aqui pra postar e vejo para minha enorme surpresa que o post seguinte é o de numero... 156! Algo começa a me dizer que este blog está defasado, adiantado, atirado. Alguma coisa não está funcionando. Me encontro diante de um dilema. Os grandes e importantes blogs estão fechando e isso tem lá seu charme. Mas este aqui está longe de ser grande e infinitamente pequena é a sua importância. Posso tentar isso: fecho por dois dias, vou à China, declaro que forças ocultas estão me impelindo a isso e depois volto aclamado nos braços do povo. Se não me engano alguém já tentou isso. Não vai dar em nada. Sou obrigado a continuar. Pra piorar, agora sem saber o que queria dizer todos aqueles números cem.

março 15, 2006

Está no ar...no mar...em algum lugar

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Se voce não gosta de clicar em cima de imagens clique aqui. Voce não gosta de clicar nem em imagens nem em palavras grifadas? Então clique neste espaço em branco ______logo aqui atrás. Ainda não está bom? Tente ficar contente clicando neste numero 1. Ainda não deu? Então vá clicar no raio que o parta, porca miséria.

março 13, 2006

Week end

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Domingo com vento polar, polenta e mortadela grátis na praça. Festas de origem nos rituais pagãos, que a igreja católica se apropriou e transformou. Independente disso, entrei três vezes na fila.

Foto:L'Adige

março 9, 2006

Objeto: Esclarecimentos

A Klimatekh Serviços de Condicionamento
Prezados senhores

Inicialmente gostaria de sublinhar a minha satisfação em relação a vossos serviços aos quais nos últimos anos tive a oportunidade e o privilegio de poder contar. O objetivo desta é colocar-lhes ao corrente dos fatos e justificar-lhes sobre a minha ação de ressarcimento de danos, requerida no dia 20 do mês próximo passado através dos meus advogados. Não existe nada de pessoal neste procedimento, gosto de repetir.
Como bem sabem, a minha era uma pequena empresa de decoração e funcionávamos em um galpão alugado na área industrial da cidade. Tínhamos ali também nossos escritórios e show room. No dia 30 de agosto do ano passado, o calor era insuportável. Nessa ocasião, recebi a visita de meu mais importante cliente, homem muito poderoso e ocupado, além de um tanto estressado e nervoso. Ele ali se encaminhou para avaliar os primeiros desenhos que fizemos para seus novos escritórios. Minha empresa estava atravessando um período de grandes dificuldades e este projeto era simplesmente a ultima esperança para a retomada, e se tratava de um budget muito consistente. Levei meu cliente ao showroom, onde costumeiramente faziamos as apresentaçoes de projetos. No momento em que acionei o interruptor do aparelho de ar condicionado tipo split, modelo sc342, fabricado e instalado pela vossa empresa, se pôde ouvir um estalo, seguido de uma espécie de relâmpago e uma ligeira emissão de fumaça do aparelho. A reunião de conseqüência, não poderia ser realizada ali, visto o calor e a neblina formada. Deslocamo-nos ao escritório, já debaixo de impropérios vindos de modo todo justificado da parte de meu cliente. Levamos alguns minutos para transportar os aparelhos eletrônicos dedicados ao evento. Tivemos que desalojar meu desenhista e também a secretária. Nosso escritório não era muito espaçoso e por isso tivemos que arrastar mesas e cadeiras, irritando ainda mais meu nobre cliente. Para piorar a situação, o aparelho de tipo portátil, modelo pfg829, fabricado por vossa empresa, fazia um certo rumor além de praticamente congelar o ambiente, sem possibilidades de se regular o fluxo de ar quase polar. Desnecessário dizer que nestas condições climáticas e de acomodação, o humor de meu cliente que não era por natureza dos melhores, podia-se definir naquele momento como podre. Inútil também explicar porque a nossa apresentação foi um fracasso e com isso perdemos não somente o projeto, mas também o cliente.
Em face a estes acontecimentos, não me restou alternativa senão a de demitir meus cinco funcionários, os quais me fizeram causa, dois deles tendo me ameaçado de morte. Além disso tive que devolver os computadores adquiridos para com isso tentar afrontar as perdas. Voltei a desenhar manualmente e os poucos clientes que me restaram começaram a inicio reclamar e depois, pouco a pouco, foram desaparecendo. Cheguei ao ponto de que nem trabalhando sozinho, conseguia cumprir meus compromissos. Os alugueis atrasados do galpão, mais as faturas dos fornecedores, pude honra-los recorrendo a agiotas que me faziam pagar taxas de 20% ao mes. As demais dívidas eu paguei com o prêmio do seguro pelo incêndio do galpão, mas este chegou com muito atraso devido às contestações da companhia de seguro que insistia em dizer que o incêndio foi doloso. Tive que gastar alguns milhares do prêmio para poder fazer um acordo amigável com o agente encarregado.
Como a situação com os agiotas não poderia continuar, resolvi reorientar minha atividade e passei a prestar consultoria imobiliária e com isso, vendendo cotas de um projeto de um novo shopping center por mim idealizado, pude saldar os agiotas. O problema surgiu quando os oitocentos investidores descobriram que o projeto previa somente 100 lojas e ficaram achando que 700 ficariam de fora. Talvez por obra de algum invejoso fofoqueiro, eles também ouviram falar que o dinheiro da entrada que me pagaram foi todo repassado aos meus banqueiros informais. Mas era tudo mentira, aos agiotas eu havia pagado com uma parte do dinheiro sim, mas o restante foi com notas promissórias de terceiros e títulos do tesouro, tudo por mim mesmo confeccionado. Os investidores diziam que sem dinheiro eu não conseguiria erguer um shopping center e com isso a relação de confiança na qual se baseava o negócio, foi despedaçada. A incompreensão desses investidores chegou a tal ponto que me senti perseguido e ameaçado pessoalmente e tive que me mudar da cidade. Os agiotas também me perseguiam pois não gostaram de solucionar nosso business daquela maneira. Outros que começaram a me procurar insistentemente foram os fiscais da receita federal que de modo inexplicável me faziam visitas plenas de ameaças e sugestões veladas de propostas expúrias. Justo a mim que sou homem honesto.
Fui obrigado a ir viver em um quarto de pensão no centro da cidade grande e não pude arranjar outra atividade que não aquela de obter empréstimos de objetos com tempo de devolução indefinido. Fiz também comércio de produtos farmacêuticos populares de produção caseira e ervas medicinais calmantes. Realizei também neste mesmo período a venda de estátuas e pontes da cidade. Todas estas atividades encontraram a incompreensão de certos setores dos poderes constituídos, em principal maneira, das forças policiais e dos órgãos de justiça. O caso é que me encarceraram e me encontro na ala dois do pavilhão 6 da penitenciária do estado.
Como podem constatar, a causa de meus problemas dos últimos tempos foi em primeiro lugar o estouro do aparelho split e em segundo lugar, os problemas de funcionamento do aparelho portátil, ambos de vossa fabricação. Não penso que o pedido de ressarcimento de 3 milhões seja exagerado. Isso cobre somente parcialmente os danos e a causa nem mesmo contabiliza os danos morais e psicológicos que sofri. Sei o quanto vós sois humanos e que compreenderão meu caso.
Gostaria de finalizar, aproveitando a oportunidade, solicitar a instalação de um aparelho de janela com carga de 7 BTUs, na cor silver, a ser instalado no endereço referido: cela 36, ala 2, pavilhão 6, Penitenciaria do Estrado. O verão se aproxima e a cela é mesmo quente. O pagamento podemos combinar oportunamente. Adianto que se for de vosso interesse posso pagar em correntinhas de ouro, 24 quilates, com garantia. Um último pedido. Quando da instalação, favor mandar um único funcionário, devidamente uniformizado e não se esquecendo de mandá-lo trazer todas as ferramentas, principalmente a serra de metais.
Sem mais para o momento
Subscrevo-me atenciosamente.

março 4, 2006

A verdade dos fatos

Primeiro foi o Milton Ribeiro, em seguida o Blue Smart. Eles que são grandes blogueiros materialistas, realistas, pragmatistas, iluministas, resolveram no carnaval, como se convencionou dizer, soltar a franga. Lançaram uma espessa cortina de fumaça em um dos episódios mais fascinantes e importantes da historia da tecnologia mundial. Os dois trataram em modo leviano e poderia-se mesmo arriscar a dizer, irresponsável, a origem de um dos objetos de uso cotidiano de maior difusão e universalidade no mundo moderno: o teclado do computador, que já foi o das maquinas de escrever. Inventando lendas estapafúrdias, os dois fizeram um enorme desserviço em nome de um dúbio gosto pela literatice rasteira, invencionista e desestribada. Deram uma banana ao conhecimento e ao amor à verdade. Em solilóquios intermináveis e entediantes, arrojaram a pele de nobres cientistas ao fogo e se puseram, pusilânimes, a estilar sua abjeta verve malsã e venenosa.
Pois a febre da exatidão e da sinceridade me acometem nestes momentos e por isso venho aqui tentar reparar os danos. Eu que sou ficcionista aloprado, me vejo obrigado a ao menos desta vez, respeitar a conformidade dos fatos.
No fundo não sei porque quiseram fazer bonito, inventando todas aquelas historias para explicar a colocação das letras no teclado. A verdadeira historia é por si só, muito bela e interessante.
No ano de 1889, foi promovida na França uma enorme feira, a Exposição Universal de Paris. O evento foi tão grandioso que mereceu a realização do que viria a ser posteriormente um dos símbolos de Paris: a torre Eiffel. Pois nesta feira, muito tímidamente, escondidos entre os milhares de stands e pavilhões de exposição, três personagens apresentavam suas invenções quase idênticas: era a máquina de escrever. Eram eles, o americano George Remington, o francês Jean Jacques Renault e o italiano Pierangelo Olivetti. Os três haviam desenvolvido os seus sistemas de escrita mecânica em modo assustadoramente similar, mas por motivos e por caminhos muito diferentes. Segundo os historiadores, o italiano era um simples cultivador de azeitonas do pre-alpe lombardo. Em 1887, em uma manhã de primavera, ele olhou para o sol e a Madonna Virgem se revelou aos seus olhos e lhe entregou alguns desenhos. Estes desenhos eram simplesmente um projeto de uma máquina. Reunindo amigos e parentes, se puseram a trabalhar em conjunto e ao final de seis meses, realizaram o primeiro protótipo. Era algo surpreendente e inovativo. Mas aqueles pobres camponeses não sabiam bem o que fazer com aquilo e se limitavam a usá-la para acompanhar a banda da aldeia em dias de procissão, pois o tlec tlec produzido era muito sugestivo. A historia a respeito do francês e do americano são um tanto obscuras e contraditórias. Sabe-se que o americano servia na marinha e além disso tinha funções no serviço secreto do seu país. Sabe-se também que andou por toda Europa nas vestes de procurador de negócios para ricos banqueiros de New York. O francês era um estivador do porto de Marselha, com passagens pela polícia por furto, extorsão e contrabando. Fazia também alguns serviços para terceiros, tais como estelionato e venda de monumentos históricos. Os autores não são muito claros em estabelecer uma possível relação entre estes três personagens mas sabe-se que o americano esteve na Lombardia pouco antes de 1888 e também em Marselha, poucos meses depois.
Voltemos à Exposição de Paris. O italiano, representando o rei Umberto IV do novo reino do Piemonte, levou sua máquina, mas inicialmente como instrumento musical de percussão. O francês por sua vez, levou sua criação que substancialmente era idêntica à do primeiro, mas apresentada com a função de batedor de carne. Foi o americano que teve a idéia de colocar tipos nas varetas e utilizá-la para escrever sobre uma folha de papel. Porém a história narra também que o americano por mais de um ano usou sua máquina nos bailes campestres da periferia de New York e somente depois de ter feito uma viagem ao Rio de Janeiro é que veio com a idéia de modificá-la. O que ele viu no Brasil, ninguém sabe.
Quando da inauguração da feira, as delegações dos respectivos países ferveram em discussões internas sobre a incrível coincidência e pior, sobre a inexplicável diferença de funções para objetos idênticos. No lado italiano, após uma consulta ao Vaticano, decidiu-se pela conversão em batedor de carne. O acordo com o lado francês foi rápido, apesar de que por dois dias, foram vistos um cantor e um acordeonista serem acompanhados por uma máquina daquelas bem debaixo da torre. A confusão era geral. Os americanos começaram a confeccionar panfletos dizendo se tratar de uma máquina multi-uso: escreve, bate carne e diverte a familia. Em face e esta cartada, os franceses e italianos não tiveram outra alternativa que aderir e ajuntar tipos às suas respectivas engenhocas. Mas neste momento uma nova peleja se configurava. As letras foram colocadas nos teclados em modo diferente. Os americanos fizeram uma seqüencia baseada na primeira parte do texto da constituição republicana. Era o famoso teclado OHGODHELPUS. O problema era que tinha muitas letras “o” repetidas e um teclado assim com 156 teclas, era meio incômodo. Os franceses fizeram a seqüencia baseada em um estudo de um filósofo obscuro, mas que usava barba e fumava cachimbo, o que lhe conferia grande credibilidade. Todos acharam que o teclado JENEPEPASLAVOISIER era um tanto complicado e não se entendia nada do que o filósofo dizia, mas enfim, ele tinha credibilidade. Os italianos mais uma vez recorreram ao Vaticano, que depois de três meses, um recorde de velocidade, enviou a seqüencia pedida. Era o MACHECAZZ, utilizado pouquíssimo, como se verá. Isso porque depois de todo esse tempo, a confusão estava armada em modo absoluto. Era preciso se chegar a um consenso. Intervieram os corpos diplomáticos dos três países mais observadores internacionais interessados no marquingenho. Em setembro de 1889, foi feita a primeira reunião oficial para estabelecimento de um padrão para o teclado, no salão verde da academia francesa de ciências exatas. No inicio, cada um tentou convencer os demais sobre a oportunidade de se adotar o próprio teclado. Porém os ânimos se acirraram de tal maneira que foi preciso a intervenção de todos para separar os três, agora inimigos mortais, que se pegavam a tapas. Resolveu-se proceder em modo científico. Cada especialista ali presente sugeriria um sistema e teria obviamente que provar sua eficácia. O matemático português Tertuliano Bertindel propôs a colocação das letras em função da fração algébrica da razão logarítmica do quadrado do tempo necessário para se fazer um ovo pochê. Protestos. Ovo pochê era algo que a maioria detestava e não poderia ser parâmetro para nada. Além disso ele foi acusado de puxar a sardinha para o lado francês. O fisico uruguaio Juan M. Escoval veio com a sugestão de se calcular o esforço da pressão de cada dedo, estabelecer uma relação entre eles, utilizar estas razões como índices numéricos fixos multiplicadores do percentual de ocorrência de cada letra no alfabeto, divididos pelo delta dos comprimentos de todas as palavras do mesmo alfabeto, menos o tempo de digitação padrão elevado à terceira potência, pois em aceleração continua e retilínea e fatorar isso em um matriz de dados em forma de grelha de churrasco. Isso para determinar que dedo deveria digitar qual letra. Mais protestos. Se o uruguaio tirasse o churrasco da fórmula, quem sabe a ala vegetariana das delegações poderia levar em conta o argumento. Irredutível o físico, a idéia foi abandonada, não sem antes seu autor levar inúmeras tomatadas. Praticamente todos os cientistas da época deram sua contribuição, mas absolutamente ninguém conseguia chegar a uma conclusão. Para se ter uma idéia, no final da terceira reunião, os três contendentes tiveram um trabalho sobrehumano para separar todos os outros 54 participantes que se pegavam a tapas. Uma equipe de biólogos alemães fez estudos com macacos. Hipnotizadores húngaros tentavam convencer a todos balançando relógios de bolso.
No final de outubro, entre intrigas, discussões intermináveis, acalorados bate bocas, ensandecidos gritos patrióticos e por fim, inclusive declarações de guerra, estas prontamente apaziguadas por uma legião de diplomatas, um fato decisivo ocorreu.
Foi finalmente nomeada uma comissão internacional neutra com poderes de decidir a questão. Era constituída dos representantes da Suíça, Islândia e Paraguai. Depois de uma semana, conseguiram tabular todos os dados recolhidos pelas comissões primárias e trabalhavam no arranjo de uma máquina com as teclas somente encaixadas, em uma das ante-salas da academia. O resultado foi surpreendente. A seqüencia começava com ABCD e prosseguia em correspondência com as letras do alfabeto. Dado por encerrado o trabalho, fizeram uma pausa para o café antes de apresentar o resultado a todos, ou seja, aos neste momento 378 membros do comitê principal, constituído de cientistas, diplomatas e papagaios de piratas de todas as nações, reunidos em sessão permanente. Mas o destino tem caprichos. Um jovem e promissor copeiro de nome Christopher Sholes entra na sala vazia para botar ordem em tudo e escorregando em um tapete, bate com a cabeça em uma mesa fazendo cair uma outra máquina de escrever que estava sobre ela. Na queda, as teclas se soltaram e voaram longe. Apressado, ele recolocou as mesmas no lugar e nervoso, fazendo uma confusão tremenda, trocou a máquina da comissão com aquela que havia caído. Logo em seguida, no momento que os membros da comissão voltaram e apanharam a máquina para a apresentação à assembléia, o jovem Sholes entrou em pânico. Com a consciência fervendo, ele apanhou a outra máquina e irrompeu no salão nobre aos gritos de : “parem tudo”.
Silêncio total. O que haveria a dizer aquele pobre copeiro às mais ilustres mentes e aos mais poderosos personagens do mundo conhecido? O presidente da comissão arquiunivoca plenipotenciaria ultranacional decisionaria tecladistica mundial tomou a palavra:

-O que quer, morfético patulé?
-Eu tenho que confessar que aqui está ocorrendo um mal entendido.
-Bem, de mal entendidos nós temos alguma experiência aqui e isso não constitui grossa novidade e nem mesmo motivo para interrupções em momento assim assaz crucial, meu caro pigmeu.
-Mas devo dizer mesmo assim que na sala haviam duas máquinas de escrever e a que a comissão está prestes a apresentar foi trocada por esta que carrego aqui. Fui o responsável por esta triste situação, mas devo salientar que fugida totalmente ao meu controle voluntário.
-Vossa excrescência quer dizer é que houve um lamentável incidente. Curioso. Vós sois inglês, não é mesmo?
-Sim, senhor ... alteza ... majestade.
-Pois bem, vejamos. A máquina que os nobres da comissão carregam é falsa e a que tens em mãos é a verdadeira.
-Sim, justamente, é isso.
-Pois vejamos as duas.

Tanto o copeiro quanto os membros da comissão descobriram os teclados. Naquela do copeiro se via ABCDFGH etc. Nos da comissão, uma salada incrível produzida pelo desastrado Sholes e onde se via QWERTYUIOP e assim por diante. Uma explosão de risadas invadiu inéditamente aquele ambiente austero. Depois de cinco minutos de divertidos comentários gerais, o presidente voltou a se pronunciar.

-Caro plebleu ignaro. Vós haveis interrompido uma reunião da comissão arquiunívoca plenipotenciária ultra-nacional decisionária tecladistica mundial da academia de ciências da França para fazer uma pilhéria de mau gosto?
-Mas, meu senhor, não vejo onde está a troça. As máquinas foram mesmo trocadas.
-Vós quereis nos fazer crer que depois de meses de estudo dos maiores cientistas do mundo, o que resulta é uma simples reprodução da seqüencia alfabética? Pense que a reputação desta comissão não seria jogada por terra se assim o fosse? Sabeis o quanto está em jogo aqui? Tens idéia de que estais a fazer? Não serieis Vós um mandado do reino britânico, visto que Vós sois interessados em, digamos, nossa derrocada enquanto instituição?

Neste momento, o comissário paraguaio pede a palavra:

-Precidente, deculpe, pero creo que el guapo tenga razon. Nossotros llegamos ala concluzion que el mejor sistema é el abecedário.

O presidente fixou em silêncio o paraguaio por longuíssimos dois minutos. Depois de todo esse tempo, o paraguaio ainda tentou justificar, mas a voz saiu fraquinha:

-Es mas simples de esta menera.

O presidente estava com a cabeça toda vermelha e os olhos esbugalhados. Todos se olhavam mas ninguém se atrevia a quebrar o silêncio. Depois de tomar um gole de absinto, o presidente chamou o copeiro mais os membros da comissão para uma reunião privada. A mesma não durou mais que cinco minutos e em seguida voltando ao salão nobre, o paraguaio se dirige à assembléia:

-Nossotros latinamericanos somos mucho divertidos. Gostamos de divertir e facer divertimientos. Tudo non passò de un divertimiento. Quero aprecentar a ustedes el nuevo teclado universal QWERTY, daserrollado por la nostra comission en colaborazion com el nostro colega cientista englês Sir Sholes. Ello è tambien mucho divertido, non pensan?

Aplausos gerais e suspiros de alivio. Foi neste momento que o Presidente da comissão arquiunívoca etc etc, pronunciou a frase histórica, batendo o martelo sobre a mesa:

-E que se foda!

E foi assim que ocorreram os fatos. Remington torceu o nariz e voltou à América pra fazer suas máquinas de escrever. Olivetti torceu o nariz e foi fabricar suas máquinas de escrever e Renault, também torceu o nariz e mudou de ramo, dizendo que nunca iria fazer algo criado por um inglês.
Sholes passou à história como o criador do teclado QWERTY e não se pode dizer que não tenha sido mesmo.
Caros amigos, em nome da verdade escrevi este texto e em nome da verdade devo concluir: espero não ter que me ocupar mais desta maneira a restabelecer a justa história, que requer tanta pesquisa e tempo de estudo. Prefiro muito mais escrever ficção.

Um marco histórico

Este é o post de numero 151 deste blog. É um numero importante. Pode ser lido de frente para trás e ao contrário e o resultado é sempre o mesmo. Um numero que diz muito. Muito mesmo. Muito mais do que eu possa exprimir e entender e escrever e transmitir. No fundo eu sei que é um numero que diz muito mas eu não faço uma pica de idéia do que ele quer dizer. Um numero que fala complicado. Muito sofisticado e até meio arrogante. Hermético, se poderia dizer. Misterioso, diriam outros. O fato é que esse numero lazarento esconde o jogo e fala muito mas não diz nada e eu simplesmente odeio, abomino, execro quem fala muito e não diz nada. 151, por favor cale essa boca.