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Um giro

Tomamos café com ervas frescas e saímos para uma caminhada. Estávamos bem animados e fazíamos passos decisivos. A manhã era fria e pouca gente se aventurava pelas ruas. Havia um silêncio calmante. Podíamos ouvir em destaque o som de nossas botas afundando na neve. Improvisamente um carro se aproxima e uma de suas portas se abre. Pensei que fosse alguém conhecido dela e entrei decidido. Ela pensou o mesmo, que fosse alguém conhecido meu. Era um casal muito simpático e nos ofereceu sorrindo um passeio pelos quatro cantos do mundo. Era muito bom para ser verdade. Um giro pelo mundo de carro com os amigos dela, era algo que me entusiasmava. O carro era enorme. Podia-se ouvir um som de gente se divertindo e rindo. Perguntei o que era e eles me disseram que no porta malas funciona um cassino e àquela hora estava ainda cheio de clientes. Dava pra ouvir mesmo o girar das roletas e as pessoas que falavam animadas. Era grande aquele carro. Não obstante a enormidade, a um certo ponto da viagem ele decolou e pude sentir as rodas abandonando o chão. Não me contive, a minha curiosidade me levou a perguntar:

-Me desculpe, mas quantos quilômetros faz com um litro?
-Depende muito, temos muitos motores aqui e podemos colocar qualquer tipo de coisa para fazê-los funcionar. Podemos até girar os motores em um modo especial e obter outras tantas coisas deles mesmos. São motores inteligentes, que nem mesmo sabemos onde estão. Eles se escondem sabe?
-Imagino.
-As vezes a gente encontra um passando por aí e o usamos para aquecer as coisas.
-Genial esse carro, vou me lembrar disso quando for trocar o meu.
-Vocês gostariam de conhecer a Lentônia?
-Vamos lá, ótimo.

A gente sorriu satisfeito com a idéia de ir para a Lentônia. Os amigos dela eram gente muito agradável. Se assim não fosse, a viagem à Lentônia teria sido um desastre. Porque durou uma eternidade. Imediatamente nos demos conta de quando entramos no território da Lentônia pois o carro, que viajava a uma velocidade estonteante, de repente reduziu tremendamente sua corrida. Para se ter uma idéia, da periferia da capital até o centro, levamos mais de duas semanas. Passávamos o tempo jogando tênis no teto do automóvel ou fazendo sauna junto a um dos motores e mesmo assim foi longo. Mas afinal chegamos. Na Lentônia as pessoas se parecem com estátuas, se movem em modo imperceptível. Os amigos dela me disseram que se nos movêssemos continuamente, ninguém nos veria. Então, para pedir um café no bar, ficamos dois dias imóveis, enquanto o amigo dela, falava com o garçom. Uma sílaba a cada 35 minutos. Ele emitia aquele som contínuo mas forte, parecendo um órgão de igreja em um concerto de musica experimental. A sua boca quase não se movia, apenas aquele som, por dois dias. Quando terminei de tomar o café eu sentia uma fome tão grande, como nunca havia sentido e me veio uma angustia terrível só de pensar em pedir um almoço ali. Eu não suportaria esperar dias e dias pela comida. Disse aos amigos dela que já que não somos vistos, poderíamos pegar emprestados alguns alimentos na feira livre. A idéia foi aceita de pronto. Saímos e fomos diretamente à feira. No caminho pude salvar a vida de uma pessoa, afastando um vaso que estava caindo em sua cabeça. Ela nem me viu. Foi muito fácil, o vaso caia lentamente, enquanto a pessoa parecia completamente imóvel. Enquanto comíamos, os amigos dela nos diziam que passando muito tempo ali, a gente começa a absorver aquele ritmo. No momento não acreditei, mas quando olhei pra ela, vi que estava com os olhos fechados e que foram se abrindo devagarinho. Percebi que isso eram os seus olhos piscando. Disse-lhe isso e a sua boca se moveu lentamente e começou a emitir um som contínuo. Era hora de partir. Pedi a nossos anfitriões que nos tirassem de lá. Eles sorriram. Eu me sentia estranho. Percebi que no tempo que empreguei para falar com eles estas poucas palavras: “vamos embora daqui?”, vi o sol se pôr e em seguida nascer de novo. Levantamo-nos e nos dirigimos ao carro. A esse ponto, a luz do sol e seu movimento lembravam uma lâmpada agitada em um lustre pendente que recebe um golpe de vento. Seu movimento era cada vez mais rápido, inclusive o das pessoas que nos circundavam. Agora já podíamos ver que se moviam. Estava preocupado, mas o amigo dela me garantiu que estava tudo bem:

-Lentônia é o estado de quem conseguiu um passaporte especial para esta vida mais longa e muito tranqüila. Mas não só isso, viver aqui é um privilégio porque na verdade o tempo pode nos servir e não o contrario. Você pensa que é fácil entrar aqui?
-Vocês nos trouxeram, não pensei que fosse difícil chegar aqui.
-Chegar aqui é difícil sim, entender o lugar è mais ainda, entrar no ritmo justo è dificilíssimo.
-Mas você não se ofendeu porque te pedi para ir embora, não é?
-Claro que não.

Entramos no carro e ele partiu cantando os pneus, mas eu sabia que isso era ilusório pois o sol a essa altura descrevia sua parábola pelo céu em poucos segundos. Os pneus cantavam sem parar, em coro, o que parecia ser uma ária de Bach. Isso também era ilusório, mas muito agradável. Depois de mais ou menos oito meses, chegamos à fronteira e tudo voltou ao normal. Gostaria muito de retornar à Lentônia outra vez, mas com mais tempo.
Disse ao amigo dela:

-Sabe amigo, agora è que me lembro, temos que voltar pra casa. Deixei o computador e a tv ligados. Se bobear tem algo no forno também.
-Tranqüilo, vamos só fazer mais um girinho. Vamos parar no Azerbeijão.
-Uau, Azerbeijão, que maravilha, ouvi muito falar desse lugar.
-Vá se preparando para uma experiência inesquecível.
-Estou sempre preparado para o inesquecível, mas assim mesmo a memória às vezes falha.
-Sim.
-O que?
-Como assim?
-Hmm?

Nesse momento olhei pelas janelas do carro e a cidade me pareceu muito bonita. Os prédios eram visivelmente húmidos, mas era perfeitamente aceitável e agradável isso. Tudo era muito húmido e quente, mas nada sufocante, muito ao contrário, era algo extremamente sensual. A arquitetura tinha suas formas orgânicas e sinuosas. Um leve perfume de menta predominava nos ambientes. Chegamos a um hotel maravilhoso, todo revestido de pele. Uma pele como humana, viva, transpirante e com perfume de mulher no cio. Eu já estava superexcitado. Duas garotas lindas vêm nos recepcionar e nos beijam longamente. No Azerbeijão, as pessoas se beijam longamente, a despeito e à revelia de quaisquer críticas a uma possível pobreza de trocadilho. Antes de querer se demonstrarem cultos e cheios de tiradas geniais, os azerbeijanos querem se divertir e viver a vida.
Quando o porteiro da noite me beijou longamente, posso dizer, sinceramente, algo do encanto inicial se quebrou. Mas estávamos ali para conhecer um lugar diferente e tentamos nos integrar aos costumes. Mas ele devia ter comido muito alho. Se com as moças eu já estava integrado à cultura local em modo automático, com o porteiro o que houve foi uma certa desintegrada geral. Mas resistimos bem.
Nas três semanas em que permanecemos em Kisscity, meus lábios permaneceram inchados e vermelhos. De todos aliás. Mas foi muito bom. Consegui convencer os homens que vinham para o meu lado, que na minha terra o costume era dar um cutucão nas costelas, de modo que quando vinham me beijar, eu deixava um dedo se enfiar nos flancos do dito cujo e com isso no máximo eu levava um selinho inocente. No caso das moças, ao contrário, era muito bom ser recebido em qualquer situação com umas lambidas nos beiços. Me atraquei com várias delas, no shopping, na fila do caixa, na estação de trem, em tudo que é canto. Ela me olhava desconfiada, no inicio não gostava, mas logo se entretinha com algum rapaz.
Quando nossos lábios começaram a apresentar sinais de fadiga, decidimos partir.
Os amigos dela a esse ponto nos sugeriram mais algumas poucas paradas antes de voltarmos pra casa.
Aceitamos.
Como não tínhamos dormido desde que saímos de casa, paramos para descansar uma noite na República de Camasruins e sem fugir nunca ao óbvio, dormimos péssimamente, apesar de que a comida fosse excelente, com destaque aos crustáceos.
Depois, uma noitada em Montevídeos, cidade decadente e praticamente abandonada, mas com um charme ainda intacto. Passamos pela cidade nova, Montedvds, mas estava tão entupida de conteúdos especiais, entrevistas e jogos inúteis, que no final a impressão que ficou é que se trata de um lugar redondamente chato.
Eu já começava a apresentar sinais de cansaço. Ela também. Os amigos dela também demonstraram-se dispostos a voltar pra casa. Nos prometemos que nos reencontraríamos para um novo giro. Quem sabe incluindo a Tchetchéquia e Luxohamburger. Nos despedimos a moda azerbeijana e ficamos ali, em frente de casa, eu e ela, olhando para aquele carro enorme que ia se afastando lentamente. Estávamos felizes.
Ela me olhou sorrido e disse:

-Teus amigos foram fantásticos.
-Como meus amigos? Não são teus amigos?
-Não, nunca os tinha visto antes.
-Nunca? Mas que coisa.
-Olha que perigo.
-É mesmo. Mas foi bom.
-Foi mesmo.
-Você sabe o nome deles?
-Não, eu pensei que você soubesse.
-Ah, bem, da próxima vez a gente pergunta.
-Você está sentindo cheiro de queimado?

Comments

Ah... vontade de passar uns dias no Azerbeijão... tem coisa melhor??
mas nada de beijos de meninas... eu teria q inventar uma estratégia para isso... irch...
beijos... (mas só depois q seus lábios melhorarem...)

Leitônia? Não é onde a Denise Estocolmo trabalha?

Vim para a este blog atravès de um outro e estou cada vez mais encantada com isto dos blogs!
Muito interessante e o seu em particular está muito bom!
Parabéns!

Desculpa o comentario mas seu site estah com um comportamento estranho, parece virus. Ao carregar a pagina tenta salvar um arquivo exe. Ou voce colocou intencionalmente isso?

:o)

Voltei aqui para reler e dei de cara com a Tchetchéquia! Acho que eu - fazendo uma leitura da mesma forma que lia os nomes dos personagens dos romances russos - fotografei o nome como uma variação sobre Tchecoslováquia ou algo assim. Aliás, hoje ela é a República Checa, não?

Posso dizer que fui um dos poucos blogueiros (o único além do Allan?) que provou o gosto duvidoso de dois beijos by FP em minhas bochechas. Mas deixemos estas manifestações de lado.

O bom de entrar no final da validade do post é poder ler os comentários dos outros e discordar de quase todo mundo...

Os personagens tomaram umas ervinhas, não o autor. As imagens são lindas, principamente a do vaso. O texto fica sempre entre o cômico e o poético. É soberbo.

Desejei que a viagem acabasse ali pertinho do Azerbeijão, exatamente na Chechênia, em sua bela e sensível capital Clitória. Mas nem sempre as fantasias dos leitores são satisfeitas.

Vou ver o que consigo aqui em casa.

Oi, Flavito, tudo bem por aí? Estou sentindo sua falta!

Flavio, como sempre, fantástico! Adorei. :)
Beijos

Lentônia? Fica na Bahia, né? E descobri uma colônia de imigrantes do Azerbeijão em Salvador também.

Lentônia? Fica na Bahia, né? E descobri uma colônia de imigrantes do Azerbeijão em Salvador também.

Flavio,
passei rapídinho so pra agradecer os bons votos pra recuperação do Ivan. Depois volto pra ler com calma.
Grata, querido
Beijo

Depois de Lewis Carrol e sua "doida" Alice, entra o Flávio Prada com um "casal doidim, doidim...". Só faltou mesmo o Chapeleiro Louco, mas o chá de ervas... ah!...

"Tomamos café com ervas frescas e saímos para uma caminhada." e que ervas!!! :)

Meu amigo Flavio escreve bem demais... eita menino inteligente!!!!

Olá Flávio.

Parabéns pelo Blog.
Cheguei a ele por indicação da Claudia Antonini de POA.

Gostaria de obter o teu e-mail para te enviar uma menssagem.

Obrigado.

Miguelangelo

gianezini@terra.com.br

moral: o café da manhã é a refeição mais importante, ainda mais com ervas!

Eu amo a sua imaginação, Flavio! Como hoje é domingo, eu não cheguei a despertar totalmente e, portanto, reconheci em detalhes o carro que você descreveu, acho que estive nele há pouco, inclusive com aqueles amigos simpáticos que conduzem tudo a lugares inesperados, de onde às vezes é até difícil sair. Mas sempre voltamos pra casa a tempo de abanar a fumaça e salvar o almoço ;)

Adorei! Pena que não consigo mais achar ervas (nem frescas, nem mofadas) por aqui... ando tão nervosa ultimamente! Não te mando beijo porque já estás com a boca inchada.

Que delícia este post :)
Tua criatividade não tem limites...Amém!
Este post me fez lembrar do livro "O guia do mochileiro das galáxias", hahaha.
Beijos

Que viagem!
hahaha
É uma metáfora sobre a morte,não é?
:)

Dizem que tem uma pedras poderosas que andam vendendo aqui no Brasil. Será que já tem aí na Itália? Tá parecendo... abração

"as pessoas se parecem com estátuas, se movem em modo imperceptíve" "Ele emitia aquele som contínuo mas forte, parecendo um órgão de igreja em um concerto de musica experimental. A sua boca quase não se movia, apenas aquele som" Nestes trechos lembrei de um filme, mas não do nome dele.

"Chegar aqui é difícil sim, entender o lugar è mais ainda, entrar no ritmo justo è dificilíssimo" Aqui percebi uma analogia à vida do expatriado.

"Quando o porteiro da noite me beijou longamente, posso dizer, sinceramente, algo do encanto inicial se quebrou" ...E aqui perdi a vontade de conhecer o Azerbeijão.

Flávio, você continua se superando! Não sei se, como diz o Allan, foi algo que você comeu no café ou se jantou comida de difícil digestão :).

Essas tuas viagens me deixam meio perplexo. Fico sempre com uma dúvida: o que você consome no café da manhã?

Vou reler o teu conto (ou cronica?) mais tarde com trilha sonora: Lucy in the Sky with Diamonds.

abraco

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