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Rei Mídias

No momento em que me deitei senti a maciez do lençol e o seu agradável perfume de pano lavado. Decidi não ligar a tv para me acalentar o sono. Decidi nem mesmo ler. Luz apagada e os pensamentos em fúria. O som da noite com a sua massacrante indefinição. Tudo parece mais longe. O carro que passa apressado parece longe. O cão que ladra, parece muito longe. E não dá pra dormir. Um dia inteiro a fazer cálculos, com medo de que não iria fechar no orçamento, com medo de fazer feio, com medo de errar algo, com medo de não parecer esperto, com medo de nem se sabe o que. A vida, o mundo, tudo baseado no medo. Antonio Albanese estava outro dia propondo o ministério do medo. Institucionalizar a coisa a fim de garantir uma dose de medo igual a todos os cidadãos. Porque existe muita desigualdade na distribuição do cagaço e isso não è justo. O pavor de não conseguir pagar todos os objetos inúteis que nos convenceram que melhorariam nossa vida, deve ser universal, assim como o são o direito de odiar esquadrias de alumínio anodizado e o jogo da piorrinha. E essa gente sabe convencer mesmo. A famosa mídia. Alguns dizem que tem poder a mídia. Errado, a mídia è o poder. Em todo o mundo è conhecida como “o quarto poder”, título já ocupado pela imprensa mas que hoje se alarga à mídia em geral.
A mídia, essa entidade virtual constituída por uma infinidade de empresas comerciais, estatais e para-estatais que difundem fundamentalmente informações e entretenimento. E ideologia. E medo. Difícil definir uma entidade assim virtual e multi-facetada. No final, de algo desse tipo, o que sobra è uma resultante dos inúmeros vetores que a compõe. Mas o que eles querem è vender e ter lucro e em um ciclo fechado, fazer as cabeças para que consumam o que eles vendem. Marilin Monroe, Harry Potter, Paulo Coelho, Os Flintstones. Desenho animado, tv, jornais e rock and roll. A produçao do país depende de nós. Temos que gostar de tudo isso e consumir o que nos aconselham. Ou determinam. Que vetorzinho de merda que sou.
Me viro para o outro lado. Acho que comi muito no jantar e a pressão no estômago não estava fazendo bem. Mesmo assim, me lembrei das pessoas que devem seu sucesso à mídia e que são famosos porque são famosos. Ninguém sabe o que fazem e nem porque são conhecidos, mas são, fazer o que? Em São Paulo, anos atrás, destruíram a vida de alguns cidadãos proprietários e professores de uma escola chamada “Base” com denuncias falsas de molestamento sexual de crianças. Na mídia, o que foi feito está feito. Vira historia, ainda que falsa. Ao ponto de que sempre mais pessoas não conseguem distinguir o que é fajuto do que é legitimo. E a ética em um ambiente assim vai desaparecendo. Parece que está tudo certo, o caminho desejado é esse mesmo. Mas não desejado por mim. E quem se importa?
Na virada na cama, os gases se vêem livres e decididos, saem para a glória, em um peido majestoso. A mulher do lado, geme algo como: “o que foi?” Respondo que não disse nada e que continue a dormir porque tenho muito em que pensar. As idéias agora parecem mais claras.
Penso na Itália. Pobre pais rico. Que caminha a passos largos em direção ao passado e que tenta este ano reverter a situação, quem sabe. Algumas sentenças recentes de alguns tribunais indicam isso. A corte de cassassão recentemente decidiu que chamar alguém de negro sujo è somente uma forma de expressão e não uma ofensa passível de punição. A liberdade de expressão é sagrada por aqui, coisa de louco. O que não pode por aqui é combater o stress com um fuminho diferente. Uma nova lei iguala todos os tipos de drogas, sejam leves ou pesadas. Eu não uso drogas mas conheço muita gente que usa muito eventualmente e que agora arrisca de pegar quatro anos de prisão se for pego carregando alguns gramas de fumo. O estupro também é matéria de revisões. Se o cara estupra uma menor que já havia tido relações sexuais a pena é aliviada. Mas parece que não vai avante essa lei. No entanto uma que foi avante é a da legitima defesa da propriedade. Essa semana, invocando a tal lei, um cidadão matou um outro porque este pegava umas mudas de plantas no jardim do primeiro. O governo quer um estado sempre menor e por isso não garante a segurança. Mas autoriza a passar chumbo, claro. Governo de direita, claro.
Meto uma almofada a mais porque senão o jantar vai voltar. Vou dormir sentado de novo. Me lembro de que um meu conterrâneo se arriscou a levar chumbo essa semana em uma cidade a vinte quilômetros daqui. Vinte e seis anos, nascido na Bahia, às duas da manhã gritou pedindo ajuda porque se entalou na janela. Só que era a janela de um bar onde ele havia serrado as grades e tentava entrar com a boa intenção de fazer uma limpeza, mas ele errou no tamanho do buraco. Penso que não ajudou muito a elevar a boa imagem dos brasileiros por aqui. Alias uma coisa que vi outro dia me deixou entusiasmado. Um concurso em Rio Claro, perto de Limeira, de rebaixamento de carros e sonorização. O que me agradou foi quando disseram a medida do rebaixamento do vencedor: zero. O carro estava literalmente assentado no chão. Me fez refletir muito esse carro brasileiro que se arrasta como um réptil. Mas teve mais. Logo em seguida declararam os vencedores de sonorizaçao onde se medem os decibeis gerados. Resultado: 250. Me lembrei das aulas de conforto ambiental e se não me engano, acima de 120 decibéis o risco à saúde é altíssimo. No final fiquei por dias impressionado com esses carros que não te levam a lugar nenhum mas em compensação te explodem o cérebro. Fascinante.
Me agito debaixo das cobertas. Esse carro faria sucesso aqui. Minha cidade é pequena mas tem um trafego terrível e o pesadelo é estacionar o automóvel no centro. Pra ajudar decidiram fazer um estacionamento subterrâneo e confirmando o óbvio, sempre que se escava na Itália, encontraram restos de um estrato de uma cidade romana de dois mil anos. Vai atrasar mais de um ano o estacionamento, se è que vai ser feito mesmo, mas confirmou a teoria de que Riva tem origem romana, o que nunca havia sido provado. Ao menos posso pensar que giro por uma cidade romana quando procuro parar o carro. É um grande consolo. Bocejo. A arqueologia me fez lembrar dos Rolling Stones, não sei porque. Eles eram os jovens que mostrando um fingida rebeldia, ajudaram a criar o mercado onde os adolescentes passaram a ter vontades e preferências. Hoje eles são os velhos que mostrando uma fingida rebeldia, ajudam a criar um novo mercado onde os cacarecos podem ter vontades e preferências. São políticos esses caras. Mas mesmo assim fazem uma musica irresistível. Eu teria ido ao show em Copacabana. Um momento histórico. Idosos que mostram aos adolescentes como se comportar. Histórico. E político. Me lembro que este ano vou votar duas vezes. Aqui na Itália e no Brasil. Me lembro da política, dos partidos, das campanhas que virão. Finalmente me vem o sono. Durmo.

Comments

CLAP, CLAP, CLAP.

:)

Caramba! como disse o Allan, foi só eu falar que você tava enrolando porque tinha trabalho demais que você mostrou que tem o que dizer, hein? hehehe... deixa ler agora...

Ah, o poder da mídia... onde será que vamos parar? Na última 2ª feira, no show do U2 em SP, dois fãs anônimos foram içados ao palco por Bono Vox. Esta semana estarão dando entrevistas aos jornais e programas da Globo. O que eles têm a dizer? Qual o motivo de eles terem tanto espaço na mídia? Estamos definitivamente vivendo a era dos Big Brothers. Não a que Orwell imaginou, mas igualmente preocupante.

Cada vez encontro mais motivos para suícidio.

Melhor matar nossos personagens, não?

Também sou um vetorzinho de merda... Me diz uma coisa: o livro chegou?

Abraço.

Isso vai dar em pesadelo, hehehe abração

Foi só a Denise insinuar que a sua ausência era sinônimo de muito trabalho (e, de conseqüência, muito dinheiro) que você voltou a escrever. Tá precisando de algum?

QUEM NÃO VAI CONSEGUIR DORMIR AGORA SOU EU!

He he he, eu já estava achando que você não ia conseguir dormir mais! :)

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