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fevereiro 28, 2006

Crítico

Quando eu tinha 8 anos perguntei ao meu tio o que queria dizer “crítico”. Ele que era um sujeito meio sem tempo e muito objetivo me disse que crítico é o sujeito que ganha dinheiro pra achar defeito nos outros. Minha mente ferveu: quero ser crítico.
Mas crítico de que? Onde é que vou achar defeito? Voltei às minhas pesquisas e perguntei à minha irmã mais velha:

- O que é que o crítico critica?
- Ah, bem, o crítico pode falar das obras de arte em geral, dos livros, pinturas, música.
- Música é legal, vou ser crítico musical.
- Bem, o problema é seu.

Pensei: que irmã invejosa que eu tenho. Mas não me abalei e segui em frente. Comecei a criticar tudo o que eu ouvia. Achava ruim qualquer coisa que se parecesse com música. Comecei a ficar detestável. Nos aniversários todos tinham que ouvir minhas opiniões a respeito do parabéns a você. No natal então nem se fala, aos primeiros acordes do Noite Feliz o meu nariz já estava torcido revelando eloqüentemente minha opinião.

Meus pais começaram e se preocupar com isso e procuraram ajuda profissional. Me colocaram em análise. Na primeira sessão, o analista não foi de grande ajuda, se limitou a ouvir minhas impressões sobre a qualidade do que se ouve na sala de espera. Já na segunda, me fez enxergar que para ser um crítico completo eu deveria estudar mais. Deveria conhecer como ninguém a matéria a qual me dispunha a criticar. Não bastava o achismo, eu teria que ser um profundo analista e para isso ocorria muita dedicação e pilhas de livros.
Sai dali arrasado mas ao mesmo tempo aliviado. Quando se perde algo, outra coisa vem preencher aquele espaço. Havia perdido minha verve crítica espontânea e natural mas ganhei a capacidade de analise fria baseada em dados objetivos.

Estudava música freneticamente. Passava noites e mais noites acordado deglutindo tratados sobre as escalas mixolídia, temperada e microtonal e livros sobre a influencia dos 12 intervalos à razão de 16/15 da escala cromática na percepção das freqüências altas naturais. Passei a conhecer os harmônicos, os sons fibonaccianos, a analise modal e tonal, chegando a saber da compensação da sobretensão aplicada às cordas dos instrumentos. Virei uma enciclopédia mas não estava contente.

O tempo foi passando e me encontrei na situação de precisar trabalhar. Parti para uma longa busca de onde pudessem aproveitar esse meu vasto conhecimento musical. Me apresentava sempre como crítico musical e a pergunta vinha imediata:

- Onde você já publicou?
- Não, não publiquei em lugar nenhum ainda não.
- Sim, mas então que raio de crítico é você? É inédito? Que merda hein?
- Pois é, preciso começar de alguma forma.
- Pois aqui é que não vai ser, obrigado.
- Obrigado a você.

Passei por um período difícil onde reavaliei meus planos de vida. Lavava os pratos em um restaurante e reavaliava. Carregava móveis em uma fábrica e reavaliava. Um dia, quando terminava de lavar o corpo de um defunto no necrotério, me dei conta do tipo de crítico musical em que havia me transformado. Pedi minhas contas e parti para aquilo a que minha reavaliação tinha me orientado. Tinha chegado à conclusão que para ser um bom crítico eu deveria ter além da teoria, a prática. Para poder me considerar completo não bastavam os conhecimentos livrescos, deveria somar a eles o duro e demorado aprendizado de um instrumento. Sabia que nesse mundo da especialização eu não poderia me apresentar como crítico musical de modo assim genérico. Resolvi por isso ser crítico de instrumentos de cordas. Me inscrevi em uma escola e para surpresa de meus mestres, lhes mostrei mais conhecimento que aquele reunido na pequena biblioteca junto ao bar. No inicio eu era um crítico musical de instrumentos de cordas na categoria solos na tonalidade Mi e aos poucos fui alargando meu campo de ação.
Depois de alguns anos eu já podia dizer que dominava qualquer instrumento de cordas e havia me transformado em um crítico completo e seguro de si. Ninguém poderia dizer que eu não teria autoridade para criticar já que sabia como ninguém do que estava falando.

Mas certas duvidas começaram a despontar em minha mente. Pude sentir o que é e como é difícil poder tocar um instrumento e a idéia de que um outro viesse a falar mal de minha técnica ou de minha sonoridade ou de meu estilo me deixava meio perturbado. Havia afinal sentido a força das notas, dos sons que eu mesmo produzia com minhas mãos e sabia não só com a mente mas também com o corpo o quanto um acorde de quinta aumentada conseguia emocionar. A música havia deixado de ser abstrata e ainda que frutos derivados de abstrações, as freqüências das ondas formadas no ar pela vibração que meus dedos produziam nas cordas, era algo extremamente concreto.

Naquele momento eu já tinha 30 anos e o dinheiro da venda da casa, que me havia sustentado nos dez anos precedentes, estava no fim. Porém me sentia pronto e voltei a me oferecer como crítico.

Percorri escritórios de editores, jornais, revistas e nada. Ou melhor, em um único lugar me deram ouvidos. Foi no sindicato dos ferroviários. O responsável pelo boletim mensal pensou que seria algo interessante publicar uma coluna sobre música e eu não perdi tempo e me pus a trabalhar. Confesso que por inexperiência e talvez excesso de vontade, depois de dois dias eu tinha 28 paginas escritas sobre as técnicas de fraseado da música de câmera ao rock. Tudo foi recusado. Ele me disse que além de longo meu texto, estava mal escrito. “Pelo menos as cinco primeiras paginas que eu li, posso dizer que estavam uma bosta, o resto eu não aguentei ler”, me disse dando baforadas com o cigarro. Perguntei pelo manuscrito e então ele me disse que havia jogado no lixo, mas que eu não me preocupasse, pois se alguém no lixão o encontrasse e o lesse não ocorreria nada demais, pois ali só tem gente acostumada com coisas nojentas. E riu.

Passei por um outro período difícil. Vaguei por oito anos pelas ruas, vivendo de favores e esmolas. Uma vez fiquei mais de um mês sem tomar banho. Comia restos do lixo e dormia envolto em papelão e jornais. Havia chegado no mais baixo ponto que um ser humano pode imaginar. Mas algo dentro de mim em toda esta fase me dizia para não desistir, que o reconhecimento como crítico chegaria. Não me saíam da mente também as palavras do editor do boletim dos ferroviários : você escreve mal.

Quando faltavam dez dias para meu aniversário de 39 anos, fiz um esforço e pedi esmolas por mais de dez horas. Consegui juntar uma boa quantia de dinheiro. Sentia que meus problemas estavam chegando ao fim. Fui a uma livraria e comprei um manual de redação e um dicionário, não sem antes levar alguns socos dos seguranças que não queriam me deixar entrar. Por um longo tempo, li estes livros e escrevi para me exercitar. Usava o que podia: embalagens de cimento, restos de papel de todos os tipos e até os muros das passagens subterrâneas onde me abrigava para dormir. Alguns de meus colegas da rua me chamavam de doutor e eu fazia questão de emendar: doutor crítico musical. Isso demonstrava minha convicção e minha certeza. Alguém haveria de me escutar e me dar crédito além dos meus companheiros de rua para quem às vezes tocava um violão que fiz com uma lata de óleo e uns arames. De fato, quando em uma manhã chuvosa de domingo eu escrevia no muro de arrimo de um viaduto algo sobre as séries retrógrada e inversa na dodecafonia, um senhor muito distinto parou o carro e aproximou-se. Sem dizer uma palavra começou a ler tudo e enquanto lia, no seu rosto ia se abrindo um sorriso. No inicio fiquei sem graça mas quando vi que se interessava, continuei. Quando terminei, ele se aproximou e me disse estar estupefato. Quis saber minha história e lhe contei tudo. Esteve ali por duas horas e se foi sem dizer nada, só me recomendou de não abandonar aquele local.
Horas depois ele voltou e junto com ele uma equipe de reportagem. Era um jornalista da TV local e gravou comigo uma entrevista de mais de uma hora. Fiz questão de salientar mais de quinze vezes que eu era um crítico musical profissional, especializado em instrumentos de cordas e tinha já escrito um livro com mais de duas mil paginas pelos muros da cidade. Fiquei agitado. Depois que desligaram os equipamentos perguntei a ele se podia me ajudar, se conhecia alguém que pudesse dar-me uma mão para que pudesse sair da situação na qual me encontrava e poder contribuir com meu trabalho. Ele disse que ia tentar e que por hora só podia recomendar que eu visse o programa. Disse que iria ao ar no sábado depois da meia-noite. Por dois dias tentei imaginar como fazer para ver o programa. Então eu e meus amigos da rua resolvemos comprar um televisor e depois de juntar o dinheiro de todos, conseguimos na loja de materiais usados, um velho dez polegadas portátil e uma bateria de caminhão. Meus amigos estavam muito excitados. Imagine, um barbudo de rua, sendo entrevistado na tv! E ainda por cima na qualidade de crítico musical. Que bela é a vida! Quantas alegrias me deu essa profissão. Pude exercê-la de modo um pouco, vamos dizer, inconstante, mas no final das contas todo o esforço valeu a pena. Na noite de sexta para sábado, quase não consegui dormir. Fiquei olhando para o céu que estava estrelado e não obstante as luzes da cidade, se podia sentir o quanto é imenso o universo, o quanto importante era minha vida, o quanto belo é esse mundo.
Sábado, meia noite. Eu e mais oito de meus amigos, reunidos em torno a um velho preto e branco, debaixo de um viaduto da zona sul da cidade. Na minha mente me vinham as palavras que usei na entrevista. Era uma semana que ecoavam em meu cérebro. Começa o programa. Falam dos moradores de rua. O foco é na miséria, o desespero de quem é obrigado a se arranjar para sobreviver. Eu havia pensado que iriam fazer um programa sobre meu talento. Eu apareci por dois minutos, depois de quarenta de programa. Dois minutos onde apareciam minhas falas mais ridículas. Os meus poucos lamentos. Aquele repórter havia me instigado a falar de meus problemas. Eu queria falar da música. Queria não mais falar mal de ninguém. Aprendi a amar a música e todo e qualquer ser humano que a produz. Aprendi que a arte é mágica e libertadora. Mas ninguém pôde ver isso. Viram só mais um barbudo reclamando da vida. Um estúpido e ridículo mendigo lamentando-se de sua vida desperdiçada. Quando eu estive pronto, depois de uma vida de lutas e sacrifícios, me cortaram. Minha luz nunca atingiu nenhum olho que não fosse o meu próprio.
No domingo a tarde o repórter apareceu la debaixo do viaduto e me disse que o que se viu não foi culpa sua. O editor reorientou o material para aquilo que se viu. O editor lhe disse que todo aquele papo era muito chato. Batalhei toda uma vida por algo que é muito chato.
Hoje tenho 43 anos. 43 anos de uma vida inútil. Tenho duas alternativas. Mudar de profissão ou dar por encerrados meus dias.
Maldita, maldita hora em que resolvi falar mal dos outros. Nesse mundo, vai bem quem está de acordo.

Esta carta de adeus deixo para minha irmã. Quero que você saiba mana: você tinha razão.

fevereiro 23, 2006

Não achei nada demais

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fevereiro 21, 2006

Rei Mídias

No momento em que me deitei senti a maciez do lençol e o seu agradável perfume de pano lavado. Decidi não ligar a tv para me acalentar o sono. Decidi nem mesmo ler. Luz apagada e os pensamentos em fúria. O som da noite com a sua massacrante indefinição. Tudo parece mais longe. O carro que passa apressado parece longe. O cão que ladra, parece muito longe. E não dá pra dormir. Um dia inteiro a fazer cálculos, com medo de que não iria fechar no orçamento, com medo de fazer feio, com medo de errar algo, com medo de não parecer esperto, com medo de nem se sabe o que. A vida, o mundo, tudo baseado no medo. Antonio Albanese estava outro dia propondo o ministério do medo. Institucionalizar a coisa a fim de garantir uma dose de medo igual a todos os cidadãos. Porque existe muita desigualdade na distribuição do cagaço e isso não è justo. O pavor de não conseguir pagar todos os objetos inúteis que nos convenceram que melhorariam nossa vida, deve ser universal, assim como o são o direito de odiar esquadrias de alumínio anodizado e o jogo da piorrinha. E essa gente sabe convencer mesmo. A famosa mídia. Alguns dizem que tem poder a mídia. Errado, a mídia è o poder. Em todo o mundo è conhecida como “o quarto poder”, título já ocupado pela imprensa mas que hoje se alarga à mídia em geral.
A mídia, essa entidade virtual constituída por uma infinidade de empresas comerciais, estatais e para-estatais que difundem fundamentalmente informações e entretenimento. E ideologia. E medo. Difícil definir uma entidade assim virtual e multi-facetada. No final, de algo desse tipo, o que sobra è uma resultante dos inúmeros vetores que a compõe. Mas o que eles querem è vender e ter lucro e em um ciclo fechado, fazer as cabeças para que consumam o que eles vendem. Marilin Monroe, Harry Potter, Paulo Coelho, Os Flintstones. Desenho animado, tv, jornais e rock and roll. A produçao do país depende de nós. Temos que gostar de tudo isso e consumir o que nos aconselham. Ou determinam. Que vetorzinho de merda que sou.
Me viro para o outro lado. Acho que comi muito no jantar e a pressão no estômago não estava fazendo bem. Mesmo assim, me lembrei das pessoas que devem seu sucesso à mídia e que são famosos porque são famosos. Ninguém sabe o que fazem e nem porque são conhecidos, mas são, fazer o que? Em São Paulo, anos atrás, destruíram a vida de alguns cidadãos proprietários e professores de uma escola chamada “Base” com denuncias falsas de molestamento sexual de crianças. Na mídia, o que foi feito está feito. Vira historia, ainda que falsa. Ao ponto de que sempre mais pessoas não conseguem distinguir o que é fajuto do que é legitimo. E a ética em um ambiente assim vai desaparecendo. Parece que está tudo certo, o caminho desejado é esse mesmo. Mas não desejado por mim. E quem se importa?
Na virada na cama, os gases se vêem livres e decididos, saem para a glória, em um peido majestoso. A mulher do lado, geme algo como: “o que foi?” Respondo que não disse nada e que continue a dormir porque tenho muito em que pensar. As idéias agora parecem mais claras.
Penso na Itália. Pobre pais rico. Que caminha a passos largos em direção ao passado e que tenta este ano reverter a situação, quem sabe. Algumas sentenças recentes de alguns tribunais indicam isso. A corte de cassassão recentemente decidiu que chamar alguém de negro sujo è somente uma forma de expressão e não uma ofensa passível de punição. A liberdade de expressão é sagrada por aqui, coisa de louco. O que não pode por aqui é combater o stress com um fuminho diferente. Uma nova lei iguala todos os tipos de drogas, sejam leves ou pesadas. Eu não uso drogas mas conheço muita gente que usa muito eventualmente e que agora arrisca de pegar quatro anos de prisão se for pego carregando alguns gramas de fumo. O estupro também é matéria de revisões. Se o cara estupra uma menor que já havia tido relações sexuais a pena é aliviada. Mas parece que não vai avante essa lei. No entanto uma que foi avante é a da legitima defesa da propriedade. Essa semana, invocando a tal lei, um cidadão matou um outro porque este pegava umas mudas de plantas no jardim do primeiro. O governo quer um estado sempre menor e por isso não garante a segurança. Mas autoriza a passar chumbo, claro. Governo de direita, claro.
Meto uma almofada a mais porque senão o jantar vai voltar. Vou dormir sentado de novo. Me lembro de que um meu conterrâneo se arriscou a levar chumbo essa semana em uma cidade a vinte quilômetros daqui. Vinte e seis anos, nascido na Bahia, às duas da manhã gritou pedindo ajuda porque se entalou na janela. Só que era a janela de um bar onde ele havia serrado as grades e tentava entrar com a boa intenção de fazer uma limpeza, mas ele errou no tamanho do buraco. Penso que não ajudou muito a elevar a boa imagem dos brasileiros por aqui. Alias uma coisa que vi outro dia me deixou entusiasmado. Um concurso em Rio Claro, perto de Limeira, de rebaixamento de carros e sonorização. O que me agradou foi quando disseram a medida do rebaixamento do vencedor: zero. O carro estava literalmente assentado no chão. Me fez refletir muito esse carro brasileiro que se arrasta como um réptil. Mas teve mais. Logo em seguida declararam os vencedores de sonorizaçao onde se medem os decibeis gerados. Resultado: 250. Me lembrei das aulas de conforto ambiental e se não me engano, acima de 120 decibéis o risco à saúde é altíssimo. No final fiquei por dias impressionado com esses carros que não te levam a lugar nenhum mas em compensação te explodem o cérebro. Fascinante.
Me agito debaixo das cobertas. Esse carro faria sucesso aqui. Minha cidade é pequena mas tem um trafego terrível e o pesadelo é estacionar o automóvel no centro. Pra ajudar decidiram fazer um estacionamento subterrâneo e confirmando o óbvio, sempre que se escava na Itália, encontraram restos de um estrato de uma cidade romana de dois mil anos. Vai atrasar mais de um ano o estacionamento, se è que vai ser feito mesmo, mas confirmou a teoria de que Riva tem origem romana, o que nunca havia sido provado. Ao menos posso pensar que giro por uma cidade romana quando procuro parar o carro. É um grande consolo. Bocejo. A arqueologia me fez lembrar dos Rolling Stones, não sei porque. Eles eram os jovens que mostrando um fingida rebeldia, ajudaram a criar o mercado onde os adolescentes passaram a ter vontades e preferências. Hoje eles são os velhos que mostrando uma fingida rebeldia, ajudam a criar um novo mercado onde os cacarecos podem ter vontades e preferências. São políticos esses caras. Mas mesmo assim fazem uma musica irresistível. Eu teria ido ao show em Copacabana. Um momento histórico. Idosos que mostram aos adolescentes como se comportar. Histórico. E político. Me lembro que este ano vou votar duas vezes. Aqui na Itália e no Brasil. Me lembro da política, dos partidos, das campanhas que virão. Finalmente me vem o sono. Durmo.

fevereiro 20, 2006

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fevereiro 17, 2006

Cansado de tudo isso

Muita punheta
nesse mundo
tão cheio
de buceta.

fevereiro 4, 2006

Um giro

Tomamos café com ervas frescas e saímos para uma caminhada. Estávamos bem animados e fazíamos passos decisivos. A manhã era fria e pouca gente se aventurava pelas ruas. Havia um silêncio calmante. Podíamos ouvir em destaque o som de nossas botas afundando na neve. Improvisamente um carro se aproxima e uma de suas portas se abre. Pensei que fosse alguém conhecido dela e entrei decidido. Ela pensou o mesmo, que fosse alguém conhecido meu. Era um casal muito simpático e nos ofereceu sorrindo um passeio pelos quatro cantos do mundo. Era muito bom para ser verdade. Um giro pelo mundo de carro com os amigos dela, era algo que me entusiasmava. O carro era enorme. Podia-se ouvir um som de gente se divertindo e rindo. Perguntei o que era e eles me disseram que no porta malas funciona um cassino e àquela hora estava ainda cheio de clientes. Dava pra ouvir mesmo o girar das roletas e as pessoas que falavam animadas. Era grande aquele carro. Não obstante a enormidade, a um certo ponto da viagem ele decolou e pude sentir as rodas abandonando o chão. Não me contive, a minha curiosidade me levou a perguntar:

-Me desculpe, mas quantos quilômetros faz com um litro?
-Depende muito, temos muitos motores aqui e podemos colocar qualquer tipo de coisa para fazê-los funcionar. Podemos até girar os motores em um modo especial e obter outras tantas coisas deles mesmos. São motores inteligentes, que nem mesmo sabemos onde estão. Eles se escondem sabe?
-Imagino.
-As vezes a gente encontra um passando por aí e o usamos para aquecer as coisas.
-Genial esse carro, vou me lembrar disso quando for trocar o meu.
-Vocês gostariam de conhecer a Lentônia?
-Vamos lá, ótimo.

A gente sorriu satisfeito com a idéia de ir para a Lentônia. Os amigos dela eram gente muito agradável. Se assim não fosse, a viagem à Lentônia teria sido um desastre. Porque durou uma eternidade. Imediatamente nos demos conta de quando entramos no território da Lentônia pois o carro, que viajava a uma velocidade estonteante, de repente reduziu tremendamente sua corrida. Para se ter uma idéia, da periferia da capital até o centro, levamos mais de duas semanas. Passávamos o tempo jogando tênis no teto do automóvel ou fazendo sauna junto a um dos motores e mesmo assim foi longo. Mas afinal chegamos. Na Lentônia as pessoas se parecem com estátuas, se movem em modo imperceptível. Os amigos dela me disseram que se nos movêssemos continuamente, ninguém nos veria. Então, para pedir um café no bar, ficamos dois dias imóveis, enquanto o amigo dela, falava com o garçom. Uma sílaba a cada 35 minutos. Ele emitia aquele som contínuo mas forte, parecendo um órgão de igreja em um concerto de musica experimental. A sua boca quase não se movia, apenas aquele som, por dois dias. Quando terminei de tomar o café eu sentia uma fome tão grande, como nunca havia sentido e me veio uma angustia terrível só de pensar em pedir um almoço ali. Eu não suportaria esperar dias e dias pela comida. Disse aos amigos dela que já que não somos vistos, poderíamos pegar emprestados alguns alimentos na feira livre. A idéia foi aceita de pronto. Saímos e fomos diretamente à feira. No caminho pude salvar a vida de uma pessoa, afastando um vaso que estava caindo em sua cabeça. Ela nem me viu. Foi muito fácil, o vaso caia lentamente, enquanto a pessoa parecia completamente imóvel. Enquanto comíamos, os amigos dela nos diziam que passando muito tempo ali, a gente começa a absorver aquele ritmo. No momento não acreditei, mas quando olhei pra ela, vi que estava com os olhos fechados e que foram se abrindo devagarinho. Percebi que isso eram os seus olhos piscando. Disse-lhe isso e a sua boca se moveu lentamente e começou a emitir um som contínuo. Era hora de partir. Pedi a nossos anfitriões que nos tirassem de lá. Eles sorriram. Eu me sentia estranho. Percebi que no tempo que empreguei para falar com eles estas poucas palavras: “vamos embora daqui?”, vi o sol se pôr e em seguida nascer de novo. Levantamo-nos e nos dirigimos ao carro. A esse ponto, a luz do sol e seu movimento lembravam uma lâmpada agitada em um lustre pendente que recebe um golpe de vento. Seu movimento era cada vez mais rápido, inclusive o das pessoas que nos circundavam. Agora já podíamos ver que se moviam. Estava preocupado, mas o amigo dela me garantiu que estava tudo bem:

-Lentônia é o estado de quem conseguiu um passaporte especial para esta vida mais longa e muito tranqüila. Mas não só isso, viver aqui é um privilégio porque na verdade o tempo pode nos servir e não o contrario. Você pensa que é fácil entrar aqui?
-Vocês nos trouxeram, não pensei que fosse difícil chegar aqui.
-Chegar aqui é difícil sim, entender o lugar è mais ainda, entrar no ritmo justo è dificilíssimo.
-Mas você não se ofendeu porque te pedi para ir embora, não é?
-Claro que não.

Entramos no carro e ele partiu cantando os pneus, mas eu sabia que isso era ilusório pois o sol a essa altura descrevia sua parábola pelo céu em poucos segundos. Os pneus cantavam sem parar, em coro, o que parecia ser uma ária de Bach. Isso também era ilusório, mas muito agradável. Depois de mais ou menos oito meses, chegamos à fronteira e tudo voltou ao normal. Gostaria muito de retornar à Lentônia outra vez, mas com mais tempo.
Disse ao amigo dela:

-Sabe amigo, agora è que me lembro, temos que voltar pra casa. Deixei o computador e a tv ligados. Se bobear tem algo no forno também.
-Tranqüilo, vamos só fazer mais um girinho. Vamos parar no Azerbeijão.
-Uau, Azerbeijão, que maravilha, ouvi muito falar desse lugar.
-Vá se preparando para uma experiência inesquecível.
-Estou sempre preparado para o inesquecível, mas assim mesmo a memória às vezes falha.
-Sim.
-O que?
-Como assim?
-Hmm?

Nesse momento olhei pelas janelas do carro e a cidade me pareceu muito bonita. Os prédios eram visivelmente húmidos, mas era perfeitamente aceitável e agradável isso. Tudo era muito húmido e quente, mas nada sufocante, muito ao contrário, era algo extremamente sensual. A arquitetura tinha suas formas orgânicas e sinuosas. Um leve perfume de menta predominava nos ambientes. Chegamos a um hotel maravilhoso, todo revestido de pele. Uma pele como humana, viva, transpirante e com perfume de mulher no cio. Eu já estava superexcitado. Duas garotas lindas vêm nos recepcionar e nos beijam longamente. No Azerbeijão, as pessoas se beijam longamente, a despeito e à revelia de quaisquer críticas a uma possível pobreza de trocadilho. Antes de querer se demonstrarem cultos e cheios de tiradas geniais, os azerbeijanos querem se divertir e viver a vida.
Quando o porteiro da noite me beijou longamente, posso dizer, sinceramente, algo do encanto inicial se quebrou. Mas estávamos ali para conhecer um lugar diferente e tentamos nos integrar aos costumes. Mas ele devia ter comido muito alho. Se com as moças eu já estava integrado à cultura local em modo automático, com o porteiro o que houve foi uma certa desintegrada geral. Mas resistimos bem.
Nas três semanas em que permanecemos em Kisscity, meus lábios permaneceram inchados e vermelhos. De todos aliás. Mas foi muito bom. Consegui convencer os homens que vinham para o meu lado, que na minha terra o costume era dar um cutucão nas costelas, de modo que quando vinham me beijar, eu deixava um dedo se enfiar nos flancos do dito cujo e com isso no máximo eu levava um selinho inocente. No caso das moças, ao contrário, era muito bom ser recebido em qualquer situação com umas lambidas nos beiços. Me atraquei com várias delas, no shopping, na fila do caixa, na estação de trem, em tudo que é canto. Ela me olhava desconfiada, no inicio não gostava, mas logo se entretinha com algum rapaz.
Quando nossos lábios começaram a apresentar sinais de fadiga, decidimos partir.
Os amigos dela a esse ponto nos sugeriram mais algumas poucas paradas antes de voltarmos pra casa.
Aceitamos.
Como não tínhamos dormido desde que saímos de casa, paramos para descansar uma noite na República de Camasruins e sem fugir nunca ao óbvio, dormimos péssimamente, apesar de que a comida fosse excelente, com destaque aos crustáceos.
Depois, uma noitada em Montevídeos, cidade decadente e praticamente abandonada, mas com um charme ainda intacto. Passamos pela cidade nova, Montedvds, mas estava tão entupida de conteúdos especiais, entrevistas e jogos inúteis, que no final a impressão que ficou é que se trata de um lugar redondamente chato.
Eu já começava a apresentar sinais de cansaço. Ela também. Os amigos dela também demonstraram-se dispostos a voltar pra casa. Nos prometemos que nos reencontraríamos para um novo giro. Quem sabe incluindo a Tchetchéquia e Luxohamburger. Nos despedimos a moda azerbeijana e ficamos ali, em frente de casa, eu e ela, olhando para aquele carro enorme que ia se afastando lentamente. Estávamos felizes.
Ela me olhou sorrido e disse:

-Teus amigos foram fantásticos.
-Como meus amigos? Não são teus amigos?
-Não, nunca os tinha visto antes.
-Nunca? Mas que coisa.
-Olha que perigo.
-É mesmo. Mas foi bom.
-Foi mesmo.
-Você sabe o nome deles?
-Não, eu pensei que você soubesse.
-Ah, bem, da próxima vez a gente pergunta.
-Você está sentindo cheiro de queimado?

fevereiro 1, 2006

Links úteis

O nosso blog não é muito afeito a linkania. Nos sentimos um pouco por demais responsáveis quando indicamos algo para os pobres leitores. Achamos que cada um é esperto e independente o suficiente para buscar aquilo que é de seu interesse. Hoje existe uma mania de tentar convencer as pessoas do que é bom, sem levar em conta de que cada qual pode desenvolver seu próprio gosto pessoal e relacionar-se com o mundo em modo autônomo. Mas desta vez, não pudemos deixar de apresentar estes links, seja pela utilidade, que pela importância dos temas tratados. Neste aqui você fica sabendo dia mês e ano em que vai morrer. No inicio pode preocupar um pouco, mas depois entra neste outro aqui e fica sabendo o que foi em uma vida passada e com isso cria novas esperanças para uma outra vida futura. Eu vou refazer os testes todos, até porque ali diz que eu devo morrer com 99 anos e estou achando que tem algo errado nisso. Pensei que ia durar mais. Se for assim, pra que tanto cuidado com alimentação e saúde? Vou voltar a fumar amanhã mesmo