Crítico
Quando eu tinha 8 anos perguntei ao meu tio o que queria dizer “crítico”. Ele que era um sujeito meio sem tempo e muito objetivo me disse que crítico é o sujeito que ganha dinheiro pra achar defeito nos outros. Minha mente ferveu: quero ser crítico.
Mas crítico de que? Onde é que vou achar defeito? Voltei às minhas pesquisas e perguntei à minha irmã mais velha:
- O que é que o crítico critica?
- Ah, bem, o crítico pode falar das obras de arte em geral, dos livros, pinturas, música.
- Música é legal, vou ser crítico musical.
- Bem, o problema é seu.
Pensei: que irmã invejosa que eu tenho. Mas não me abalei e segui em frente. Comecei a criticar tudo o que eu ouvia. Achava ruim qualquer coisa que se parecesse com música. Comecei a ficar detestável. Nos aniversários todos tinham que ouvir minhas opiniões a respeito do parabéns a você. No natal então nem se fala, aos primeiros acordes do Noite Feliz o meu nariz já estava torcido revelando eloqüentemente minha opinião.
Meus pais começaram e se preocupar com isso e procuraram ajuda profissional. Me colocaram em análise. Na primeira sessão, o analista não foi de grande ajuda, se limitou a ouvir minhas impressões sobre a qualidade do que se ouve na sala de espera. Já na segunda, me fez enxergar que para ser um crítico completo eu deveria estudar mais. Deveria conhecer como ninguém a matéria a qual me dispunha a criticar. Não bastava o achismo, eu teria que ser um profundo analista e para isso ocorria muita dedicação e pilhas de livros.
Sai dali arrasado mas ao mesmo tempo aliviado. Quando se perde algo, outra coisa vem preencher aquele espaço. Havia perdido minha verve crítica espontânea e natural mas ganhei a capacidade de analise fria baseada em dados objetivos.
Estudava música freneticamente. Passava noites e mais noites acordado deglutindo tratados sobre as escalas mixolídia, temperada e microtonal e livros sobre a influencia dos 12 intervalos à razão de 16/15 da escala cromática na percepção das freqüências altas naturais. Passei a conhecer os harmônicos, os sons fibonaccianos, a analise modal e tonal, chegando a saber da compensação da sobretensão aplicada às cordas dos instrumentos. Virei uma enciclopédia mas não estava contente.
O tempo foi passando e me encontrei na situação de precisar trabalhar. Parti para uma longa busca de onde pudessem aproveitar esse meu vasto conhecimento musical. Me apresentava sempre como crítico musical e a pergunta vinha imediata:
- Onde você já publicou?
- Não, não publiquei em lugar nenhum ainda não.
- Sim, mas então que raio de crítico é você? É inédito? Que merda hein?
- Pois é, preciso começar de alguma forma.
- Pois aqui é que não vai ser, obrigado.
- Obrigado a você.
Passei por um período difícil onde reavaliei meus planos de vida. Lavava os pratos em um restaurante e reavaliava. Carregava móveis em uma fábrica e reavaliava. Um dia, quando terminava de lavar o corpo de um defunto no necrotério, me dei conta do tipo de crítico musical em que havia me transformado. Pedi minhas contas e parti para aquilo a que minha reavaliação tinha me orientado. Tinha chegado à conclusão que para ser um bom crítico eu deveria ter além da teoria, a prática. Para poder me considerar completo não bastavam os conhecimentos livrescos, deveria somar a eles o duro e demorado aprendizado de um instrumento. Sabia que nesse mundo da especialização eu não poderia me apresentar como crítico musical de modo assim genérico. Resolvi por isso ser crítico de instrumentos de cordas. Me inscrevi em uma escola e para surpresa de meus mestres, lhes mostrei mais conhecimento que aquele reunido na pequena biblioteca junto ao bar. No inicio eu era um crítico musical de instrumentos de cordas na categoria solos na tonalidade Mi e aos poucos fui alargando meu campo de ação.
Depois de alguns anos eu já podia dizer que dominava qualquer instrumento de cordas e havia me transformado em um crítico completo e seguro de si. Ninguém poderia dizer que eu não teria autoridade para criticar já que sabia como ninguém do que estava falando.
Mas certas duvidas começaram a despontar em minha mente. Pude sentir o que é e como é difícil poder tocar um instrumento e a idéia de que um outro viesse a falar mal de minha técnica ou de minha sonoridade ou de meu estilo me deixava meio perturbado. Havia afinal sentido a força das notas, dos sons que eu mesmo produzia com minhas mãos e sabia não só com a mente mas também com o corpo o quanto um acorde de quinta aumentada conseguia emocionar. A música havia deixado de ser abstrata e ainda que frutos derivados de abstrações, as freqüências das ondas formadas no ar pela vibração que meus dedos produziam nas cordas, era algo extremamente concreto.
Naquele momento eu já tinha 30 anos e o dinheiro da venda da casa, que me havia sustentado nos dez anos precedentes, estava no fim. Porém me sentia pronto e voltei a me oferecer como crítico.
Percorri escritórios de editores, jornais, revistas e nada. Ou melhor, em um único lugar me deram ouvidos. Foi no sindicato dos ferroviários. O responsável pelo boletim mensal pensou que seria algo interessante publicar uma coluna sobre música e eu não perdi tempo e me pus a trabalhar. Confesso que por inexperiência e talvez excesso de vontade, depois de dois dias eu tinha 28 paginas escritas sobre as técnicas de fraseado da música de câmera ao rock. Tudo foi recusado. Ele me disse que além de longo meu texto, estava mal escrito. “Pelo menos as cinco primeiras paginas que eu li, posso dizer que estavam uma bosta, o resto eu não aguentei ler”, me disse dando baforadas com o cigarro. Perguntei pelo manuscrito e então ele me disse que havia jogado no lixo, mas que eu não me preocupasse, pois se alguém no lixão o encontrasse e o lesse não ocorreria nada demais, pois ali só tem gente acostumada com coisas nojentas. E riu.
Passei por um outro período difícil. Vaguei por oito anos pelas ruas, vivendo de favores e esmolas. Uma vez fiquei mais de um mês sem tomar banho. Comia restos do lixo e dormia envolto em papelão e jornais. Havia chegado no mais baixo ponto que um ser humano pode imaginar. Mas algo dentro de mim em toda esta fase me dizia para não desistir, que o reconhecimento como crítico chegaria. Não me saíam da mente também as palavras do editor do boletim dos ferroviários : você escreve mal.
Quando faltavam dez dias para meu aniversário de 39 anos, fiz um esforço e pedi esmolas por mais de dez horas. Consegui juntar uma boa quantia de dinheiro. Sentia que meus problemas estavam chegando ao fim. Fui a uma livraria e comprei um manual de redação e um dicionário, não sem antes levar alguns socos dos seguranças que não queriam me deixar entrar. Por um longo tempo, li estes livros e escrevi para me exercitar. Usava o que podia: embalagens de cimento, restos de papel de todos os tipos e até os muros das passagens subterrâneas onde me abrigava para dormir. Alguns de meus colegas da rua me chamavam de doutor e eu fazia questão de emendar: doutor crítico musical. Isso demonstrava minha convicção e minha certeza. Alguém haveria de me escutar e me dar crédito além dos meus companheiros de rua para quem às vezes tocava um violão que fiz com uma lata de óleo e uns arames. De fato, quando em uma manhã chuvosa de domingo eu escrevia no muro de arrimo de um viaduto algo sobre as séries retrógrada e inversa na dodecafonia, um senhor muito distinto parou o carro e aproximou-se. Sem dizer uma palavra começou a ler tudo e enquanto lia, no seu rosto ia se abrindo um sorriso. No inicio fiquei sem graça mas quando vi que se interessava, continuei. Quando terminei, ele se aproximou e me disse estar estupefato. Quis saber minha história e lhe contei tudo. Esteve ali por duas horas e se foi sem dizer nada, só me recomendou de não abandonar aquele local.
Horas depois ele voltou e junto com ele uma equipe de reportagem. Era um jornalista da TV local e gravou comigo uma entrevista de mais de uma hora. Fiz questão de salientar mais de quinze vezes que eu era um crítico musical profissional, especializado em instrumentos de cordas e tinha já escrito um livro com mais de duas mil paginas pelos muros da cidade. Fiquei agitado. Depois que desligaram os equipamentos perguntei a ele se podia me ajudar, se conhecia alguém que pudesse dar-me uma mão para que pudesse sair da situação na qual me encontrava e poder contribuir com meu trabalho. Ele disse que ia tentar e que por hora só podia recomendar que eu visse o programa. Disse que iria ao ar no sábado depois da meia-noite. Por dois dias tentei imaginar como fazer para ver o programa. Então eu e meus amigos da rua resolvemos comprar um televisor e depois de juntar o dinheiro de todos, conseguimos na loja de materiais usados, um velho dez polegadas portátil e uma bateria de caminhão. Meus amigos estavam muito excitados. Imagine, um barbudo de rua, sendo entrevistado na tv! E ainda por cima na qualidade de crítico musical. Que bela é a vida! Quantas alegrias me deu essa profissão. Pude exercê-la de modo um pouco, vamos dizer, inconstante, mas no final das contas todo o esforço valeu a pena. Na noite de sexta para sábado, quase não consegui dormir. Fiquei olhando para o céu que estava estrelado e não obstante as luzes da cidade, se podia sentir o quanto é imenso o universo, o quanto importante era minha vida, o quanto belo é esse mundo.
Sábado, meia noite. Eu e mais oito de meus amigos, reunidos em torno a um velho preto e branco, debaixo de um viaduto da zona sul da cidade. Na minha mente me vinham as palavras que usei na entrevista. Era uma semana que ecoavam em meu cérebro. Começa o programa. Falam dos moradores de rua. O foco é na miséria, o desespero de quem é obrigado a se arranjar para sobreviver. Eu havia pensado que iriam fazer um programa sobre meu talento. Eu apareci por dois minutos, depois de quarenta de programa. Dois minutos onde apareciam minhas falas mais ridículas. Os meus poucos lamentos. Aquele repórter havia me instigado a falar de meus problemas. Eu queria falar da música. Queria não mais falar mal de ninguém. Aprendi a amar a música e todo e qualquer ser humano que a produz. Aprendi que a arte é mágica e libertadora. Mas ninguém pôde ver isso. Viram só mais um barbudo reclamando da vida. Um estúpido e ridículo mendigo lamentando-se de sua vida desperdiçada. Quando eu estive pronto, depois de uma vida de lutas e sacrifícios, me cortaram. Minha luz nunca atingiu nenhum olho que não fosse o meu próprio.
No domingo a tarde o repórter apareceu la debaixo do viaduto e me disse que o que se viu não foi culpa sua. O editor reorientou o material para aquilo que se viu. O editor lhe disse que todo aquele papo era muito chato. Batalhei toda uma vida por algo que é muito chato.
Hoje tenho 43 anos. 43 anos de uma vida inútil. Tenho duas alternativas. Mudar de profissão ou dar por encerrados meus dias.
Maldita, maldita hora em que resolvi falar mal dos outros. Nesse mundo, vai bem quem está de acordo.
Esta carta de adeus deixo para minha irmã. Quero que você saiba mana: você tinha razão.


