Quinze minutos
Saí apressado e corri entre os carros na rua molhada. Buscava ganhar tempo, driblando os carros parados a espera de uma simples luz verde. Me veio em mente que posso me mover para onde quero mas devo respeitar os demais. Pensei no espaço necessário entre a ética e a liberdade. Espaço difícil de se encontrar. Está a cada dia mais restrito, mas ainda pode ser encontrado. Precisa ser encontrado a todo custo.
Minhas tarefas às quais devia me dedicar ainda hoje eram muito simples e poucas. Deveria tirar um pouco de dinheiro no caixa eletrônico, quem sabe comprar um pouco de pão, quem sabe um pouco de frios. Meu médico disse que devo comer menos. O problema de poucos, comer demais. O problema de muitos, comer de menos. Olhei o caixa eletrônico e vi as pessoas que se incluem no mundo protegido e as que estão fora dele. Sou uma célula de gordura do mundo, que se espalha pela carne, infiltrada e sutil. Mas não inofensiva. Tenho mais que fome, minha neurose me leva a devorar o que deveria ser de outros.
A máquina vomita as notas novas e sinto que faço parte de um clube muito exclusivo e importante. A padaria fica a apenas poucos passos. A rua está encharcada e vejo as poças d’agua que refletem as luzes da cidade. Parecem profundas mas nao o são. Me vem o desejo de afogar-me a ponto de ir ao fundo da mente do mundo onde nem a dúvida sobre a existência de deus existe. Não seria no raso de uma poça d’agua, eu precisaria encontrar o que nunca foi encontrado. Sigo.
Os pães estão ainda quentes. A garota me serve e me sorri. Como sorriem todos, em qualquer canto. Como sorriu um dia o soldado que morre sem saber o porque. Como sorriu um dia aquele que perdeu as esperanças nesse mundo e se agasalhou com explosivos e voou para longe. O pão iria me alimentar e não pude me esquecer do drama da ingenuidade que tenta frear a guerra. Nem na desgraçada, estúpida e fria ingenuidade de quem faz a guerra. A ignorância continua vencendo.
Corto caminho até o estacionamento. Passo ao lado do grande muro da cidade velha. A enorme fortaleza que existiu para separar os bons dos maus. Vivo o pensamento a respeito do muro que separa o sentido, do real. Sei o quanto è difícil separar a representação da coisa em si. Além disso, poucos tem olhos para observar o que ocorre ao seu redor. As mentes estão sempre flutuando em outros planetas.
Chego logo em casa e faço as contas do quanto ridículo tem sido meu modo de pensar. Como o pão compulsivamente e me lembro que tenho que tentar livrar-me da mania de ter que pensar e dizer coisas inteligentes e ir além do senso comum.
O telefone toca. Devo voltar.
Comments
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Posted by: dianne | março 31, 2006 6:07 PM
O negócio é comer como um louco e depois correr feito um tarado pela rua.
Quanto ao modo ridículo de pensar, Flavio, penso exatamente o mesmo, mas a meu respeito... Aí, engulo 8 croissants e saio correndo pela rua como um animal em fuga.
Pode parecer brincadeira. Agora, neste momento, estou saindo para fazer um daqueles ECGs (eletrocardiograma de esforço.) Vão me botar numa esteira e terei de correr pavlovianamente com cada vez maior inclinação naquela merda. Uma célula de gordura pulando parada. Um ratinho branco de gaiola. Prometo pensar em ti enquanto estiver correndo parado. Mas da minha forma, idiotamente.
Posted by: Milton Ribeiro | janeiro 25, 2006 5:58 PM
Você poderia trocar um pecado capital por dois, sairia ganhando: a gula por avareza a preguiça.
Posted by: Manoel Carlos | janeiro 24, 2006 5:22 PM
Compulsão x (comer pão + pensar + falar)= FP.
Posted by: pecus | janeiro 24, 2006 4:15 PM
Comer, comer... É o melhor para poder crescer... Pros lados. E eu amo pão!
Posted by: Roberta de Felippe | janeiro 24, 2006 6:28 AM
Nunca li um post tão inteligente só pra dizer que gosta de pão :p
:-)
Posted by: Daniela | janeiro 24, 2006 1:06 AM
a obrigação de originalidade e perspicácia ao ver , ouvir e escrever é uma prisão e tanto.
Posted by: anna | janeiro 23, 2006 8:20 PM
Ah...comer eu como muito, mas tenho mil neuroses e sentimentos de culpa, umas sérias e outras cretinas (as puramente estéticas), mas que cabam são sendo sérias na sociedade em que vivemos. Beijinhos...ah, sou viciada em pão, ainda bem que qd estive na Itália só passei 12 dias...o que eu comi...na verdade sou viciada em massas...
Posted by: Jan | janeiro 23, 2006 7:57 PM
Ultimamente a ignorância tem vencido todas.
Essa sua mania de viver sem dinheiro vai acabar virando filme.
Posted by: Allan | janeiro 22, 2006 7:15 AM
aiiiiiiiii... pão é minha perdição... e eleito Top 15 sexy você não tem do que reclamar, querido, come seu pão sossegadinho...
Beijo!
Posted by: Denise Arcoverde | janeiro 22, 2006 2:40 AM
calma, é contra indicado para outro tipo de idiota, aquele que não sabe que é.
espero que visite-me outra vez.
Posted by: renmero | janeiro 22, 2006 1:10 AM
Ainda bem que existem os momentos para comer coisas bem gostosas compulsivamente, e nos fazer esquecer das culpas, medos e tristezas.
bjs, bom fds
Posted by: Leila | janeiro 21, 2006 10:28 PM
"Além disso, poucos tem olhos para observar o que ocorre ao seu redor.".
Não há necessidade de comentários depois desta frase.
Grande beijo.
Posted by: Sandra | janeiro 21, 2006 10:27 PM