O último dia do ano
Todos sabem que eu faço parte do corpo de defesa civil de minha cidade. No último dia do ano tivemos um chamado de emergência que mobilizou quase todos os operadores e voluntários. Eram mais ou menos seis da tarde do dia trinta e um quando meu celular tocou. Era uma mensagem de código vermelho, emergência máxima. Deixei a cerveja pela metade e quase não me despedi dos amigos no bar e me meti voando dentro do carro e com ele me dirigi velozmente ao centro da cidade onde já estavam se posicionando meus companheiros, além da polícia e corpo de bombeiros. Reconheci o capitão Roccaforte da divisão de inteligência das forças especiais de segurança pública da guarnição “Montefalcone” do corpo de guarda “Marengo” do grupo de caça “Positano” da arma carabinieri local. Nessas ocasiões de emergência a comunicação, apesar de nos conhecermos bem, deve ser formal. Me dirigi a ele:
-Olá capitão Roccaforte da divisão de inteligência das forças especiais de segurança pública da guarnição “Montefalcone” do corpo de guarda “Marengo” do grupo de caça “Positano” da arma carabinieri local, como vai?
-Tudo bem e voce? Me respondeu.
-Tudo também - lhe retruquei.
-Você não estava servindo como voluntário da divisão de suprimentos das forças especiais de prevenção de acidentes da guarnição “Positano” do corpo de sentinela “Montefalcone” do grupo de logistica “Marengo” da arma polizia local?
-Não capitão, eu estou servindo como contravoluntário civil adjunto como auxiliar de divisão no corpo especial do agrupamento “Marengo” do braço operativo “Positano” da força “Montefalcone” da companhia “Roccaforte” da marinha do exército.
-Muito bem contravoluntario civil Prada, adjunto auxiliar de divisão no corpo especial do agrupamento “Marengo” do braço operativo “Positano” da força “Montefalcone” da companhia “Roccaforte” da marinha do exército, o que você quer saber?
-O que está acontecendo aqui?
-Ainda não sabemos bem mas tememos pelo pior. Encontraram uma pessoa dentro do prédio da prefeitura, numa sala do sexto andar.
-Ele está com alguma atitude suspeita?
-Sim, tudo leva a crer que esteja trabalhando.
-Santo deus! Sábado, véspera de ano novo e o cara trabalhando na prefeitura? Mais um caso de maníaco trabalhicida?
-Pensamos que seja esse o caso. Já deslocamos os atiradores de elite sobre os telhados vizinhos mas parece que eles não tem ângulo de tiro.
-Pô, vai ser complicado hoje, já sinto isso.
-Vamos tentar freá-lo com gás.
-Mas um psicólogo não poderia ajudar antes?
-Sim, nós vamos tentar primeiro com o psicólogo mas temos que ter todas as opções de ação, caso a situação se degenere e ele queira mesmo continuar trabalhando.
-Eu fico pensando na familia desse cara, que choque vai ser. Já avisaram?
-Sim, me parece que a mulher pensava que ele tivesse saído pra ir ver as putas mas o cara pelo jeito além de tudo é mentiroso.
-Temos que detê-lo a qualquer custo capitão. É perigoso mesmo.
-Ela deve chegar logo aqui. Vamos usá-la para tentar persuadi-lo.
-Os bombeiros não poderiam entrar pela janela com a escada telescópica?
-Eles também já estão posicionados para essa eventualidade. Se o sujeito não quiser se afastar do computador eles lhe darão um jato de água fria que o fará voar longe.
-Bem que merece!
-Calma com o que fala meu caro. Sabe que isso é uma doença? Ele não tem culpa disso.
-Bem, tem razão capitão, eu exagerei mesmo. Bom, mas o que posso fazer para ser útil?
-Se não for pedir muito, gostaria que você desse apoio moral à familia.
-Vou tentar fazer o meu melhor.
Nesse momento vi que os bombeiros se aproximavam da janela dos fundos do prédio, onde não eram vistos pelo maníaco. Um minuto depois, chegou a esposa, morena clara, olhos verdes, aproximadamente trinta anos. A mulher chorava copiosamente e aos prantos gritava:
-Trabalhando? Meus deus o que aconteceu com meu marido? O que foi que eu fiz? Como é que não percebi nada?
Nesses momentos, mesmo nós que estamos acostumados a lidar com essas situações difíceis, nos sentimos mal, sem saber o que dizer. Mas, como eu estava lá para acalmá-la me aproximei e lhe disse:
-Senhora, veja que o bombeiro leva uma garrafa de spumante e duas taças. Logo logo teu marido cai na farra, garanto.
-Será que eles conseguem?
-Garanto. Eles, ou melhor, nós, sempre conseguimos. Vejo que na pressa de sair de casa a senhora se esqueceu de colocar o sutiã. Me permita dizer que tem lindos seios.
-Obrigada, sabe que meu marido nem olha mais pra eles?
-O teu marido precisa de tratamento. Três meses em uma clínica e se recupera. Pode acreditar.
-Será? Ele anda tão desligado de tudo. Só pensa mesmo em trabalhar. Eu deveria ter desconfiado.
-Com uma mulher bonita como a senhora e pensando em trabalho, esse seu maridinho está muito louco mesmo.
-O senhor me acha bonita? Obrigada.
-Até quando estava chorando te achei bela. Mas fique tranqüila, nos meses que o teu marido estiver na clínica, eu pessoalmente continuarei a dar o suporte necessário. E repare, não vejo a hora de te dar todo o suporte necessário.
-Obrigada, já me sinto mais tranqüila mesmo, eu também pens...
A mulher não conseguiu terminar a frase. Gritos, euforia coletiva, um fusuê dos diabos. Quase caio no chão pelo susto, visto que estava meio inclinado por sobre a infeliz esposa para protegê-la psicologicamente. Corri ao capitão para saber o que houve:
-Capitão Roccaforte da divisão de inteligênc...
-Deixa disso Prada, acabou tudo bem.
-Acabou? Bem? Como foi? Foi com o jato d'agua?
-Não foi preciso. O cabo Guerrino entrou pelos fundos e pôde ver que o suposto maníaco trabalhicida estava na verdade jogando paciência no computador e visitando sites pôrno. Ele é normal meu caro. Nesse momento eles estão terminando de tomar o vinho e depois descem. Aliás, vá dar a boa noticia à esposa.
-Precisa é?
-Sim, claro. É uma boa noticia não é?
-É, né?
-O que foi? Não se sente bem?
-Não Capitão, para falar a verdade estou mal de verdade. Não consigo dar a noticia à esposa não. Devo ir pra casa.
Saí correndo, abandonando pela primeira vez meu dever de defensor civil. Passei toda a festa de ano novo pensando no caso. Me marcou muito tudo isso e acho que nunca vou me esquecer. Que seios meu deus!
Comments
Fotos??? Fotos??? Fotos???
Você anda sempre com uma máquina fotográfica na mão e não tirou nenhuma? Ou é egoísta...?
Posted by: Allan | janeiro 5, 2006 2:44 PM
:-)Como já ri demais não vou mais comentar, vou é sair para recuperar o folêgo!!!! Beijos.
Posted by: Jan | janeiro 5, 2006 1:03 PM
Ih, tá fodido. O Ramiro Conceição te achou! :-)
Posted by: Nelson Moraes | janeiro 4, 2006 7:49 PM
Prada! Ce devia escrever um livro!
:-)
Posted by: Daniela | janeiro 4, 2006 3:53 PM
Hilário ! Você começou o ano de maneira magistral !
Um excelente 2006, cheio de encontros de blogueiros, e de intervenções de emergência marcantes !
Beijos.
Posted by: horvallis | janeiro 4, 2006 3:36 PM
O toque demoníaco é jogar paciência e ver site pornô ao mesmo tempo. Um campeão do ócio criativo. O certo mesmo era fazer tudo isso e dar conta do peixão. Mas, ninguém é perfeito.
Posted by: Pecus | janeiro 4, 2006 3:25 AM
Pradinha! muita neve e felicidade pra você e sua familia paulistana desterrada!
Fprte abraço
Posted by: Dudi | janeiro 4, 2006 12:51 AM
Mudou de site mas o humor continua ótimo! :)
Beijinhos
Posted by: Clara | janeiro 4, 2006 12:40 AM
Muito bom!!!
Tudo de mais feliz para vc e sua família!
Posted by: Pat | janeiro 3, 2006 9:36 PM
Menino,
Saudade do teu excelente humor... Adorei tua visita no meu estranho mundo. Sabe que vc é dessas figuras que fazem falta, né?
Quanto ao comentário, digo o mesmo de vc... rsss
Bjo e feliz Ano Novo!!
Posted by: Lena | janeiro 3, 2006 8:08 PM
hahaha
ô homem charmoso este, está abalando as mulheres todas.
vc é ótimo, escreve textos tão originais...
fiquei feliz por ter me visitado achava que tinha esquecido o caminho :)
Muito sucesso em tudo que fizer, boa sorte!
um bj laura
Posted by: laura | janeiro 3, 2006 7:58 PM
Oi moço,
E ai chegou?
pelo site do correio, já devia estar por ai...
falo do seu presente..
um abraço,
ps adorei o texto
Posted by: Cris cris | janeiro 3, 2006 5:55 PM
Quem sabe o sujeito lá não adoece mesmo e chamam o voluntário Prada novamente? Não desista, um voluntário não desiste nunca. Sei-o muito bem?
Posted by: Cláudio Costa | janeiro 3, 2006 5:20 PM
Hahahaha... você não existe Flávio, querido... com você, o ano começa bem ;-)
Beijos!!!
Posted by: Denise Arcoverde | janeiro 3, 2006 3:37 AM
Oi Xará! Valeu a visita no blog! vou tentar atualizar sempre de novo, tava totalmente enrolado e fiquei sem postar nem ler blogs! Gostei do espaço novo do teu blog! e Claro, sempre gosto do q vc escreve, realmente mto bom! Esse então rs... excelente! Abraços e ótimo 2006 também!!!
Posted by: Flavio | janeiro 3, 2006 3:04 AM
Fora de série! Cheguei a pensar que ele estava escrevendo um post de fim de ano para o blog dele, heheh abração
Posted by: D. Afonso XX o Chato | janeiro 3, 2006 2:36 AM
hahahahahaa.. Isso é uma prévia do que vira por todo o ano? Se for só posso dizer uma palavrinha:
YYYYYEEEEBBBBBBAAAAA!!!!
BEIJÃO VERSÃO 2006
Posted by: Sandra | janeiro 3, 2006 12:46 AM
Hmmm, acho que se eu resolver tentar o suicídio, vou fazê-lo em Riva del Garda...
Posted by: Viva | janeiro 3, 2006 12:31 AM
Como seiólatra de carteirinha, venho prestar minha solidariedade ao defensor civil Prada.
Uma vez li um livro de Hesse em que ele dizia que as coisas mais belas do corpo humano eram o cérebro do pensador e o seio da mulher. Deixemos o pensador com ele e fiquemos com os seios.
Tenho dito, defensor civil Prada. (E não esqueça que o cara não olha mais para os seios da mulher, sempre há uma chance!)
Posted by: Milton Ribeiro | janeiro 3, 2006 12:07 AM
Essa história foi muito engraçada. E o pior que devem existir um bocado dessas figuras por aí. Abraço.
Posted by: Carlos | janeiro 2, 2006 7:42 PM
e no caso dos seios, aguarde sua memória falhar e tal visão inesquecível e abalante, não passará de um sonho meio embaçado.
Posted by: anna | janeiro 2, 2006 6:26 PM
só tomando ociosite, de 12 em 12 hs, prum caso que parecia ser de trabalhite galopante.
Posted by: anna | janeiro 2, 2006 6:16 PM
Flavio, obrigada por me provocar as primeiras risadas desta segunda-feira! Estou aqui trabalhando, depois de umas duas noites quase sem dormir, e não tem luz ou aquecimento na minha casa desde ontem às 3 da tarde, sendo que o tempo aqui é de chuva forte e vendaval. Pena que não tem uma divisão voluntária de emergência para vir me dar apoio moral.
Posted by: Leila | janeiro 2, 2006 6:01 PM