O que nos resta dessa vida
O quarto dela era minúsculo, quase um cubículo. Tiramos a roupa em um segundo e a vontade era forte demais. Ela ficou de quatro sobre a cama e eu a penetrei por trás. Nos movíamos juntos em um ritmo apaixonado. Me veio em mente que posso me mover para onde quero mas devo respeitar os demais. Pensei no espaço necessário entre a ética e a liberdade. Espaço difícil de se encontrar. Está a cada dia mais restrito, mas ainda pode ser encontrado. Precisa ser encontrado a todo custo.
Depois de fazer duas vezes, eu ainda queria mais. Olhei para aquele corpo ao meu lado e me excitei, mas eu deveria ficar quieto. Algo dentro de mim me impelia à ação. Ela dizia que devo me excitar menos. O problema de poucos, excitar-se demais. O problema de muitos, excitar-se de menos. Olhei para os seus olhos luminosos e felizes e vi as pessoas que se incluem no mundo protegido e as que estão fora dele. Sou um aglomerado de células que querem se reproduzir ao infinito em um desejo de eternidade, que se espalham fecundantes, infiltradas e sutis. Mas não inofensivas. Tenho mais que desejo, minha neurose me leva a possuir o que deveria ser de outros.
Aquela mulher me deixa louco e de novo estou pronto. Sinto que faço parte de um clube muito exclusivo e importante. Atinjo o prazer e rio contente, hedonista e lascivo. Vou à ducha e no chão do banheiro vejo as poças d’agua que refletem a pequena lâmpada sobre o espelho da pia. Parecem profundas mas não o são. Me vem o desejo de afogar-me a ponto de ir ao fundo da mente do mundo onde nem a dúvida sobre a existência de deus existe. Não seria no raso de uma poça d’agua, eu precisaria encontrar o que nunca foi encontrado. Sigo.
Na cozinha ela me preparou um café. A garota me serve e me sorri. Como sorriem todos, em qualquer canto. Como sorriu um dia o soldado que morre sem saber o porque. Como sorriu um dia aquele que perdeu as esperanças nesse mundo e se agasalhou com explosivos e voou para longe. Não posso deixar de admirá-la vestida somente com minha camisa e não pude me esquecer do drama da ingenuidade que tenta frear a guerra. Nem na desgraçada e estúpida ingenuidade de quem faz a guerra. A ignorância continua vencendo.
Vou pra casa. Corto caminho até o estacionamento. Passo ao lado do grande muro da cidade velha. A enorme fortaleza que existiu para separar os bons dos maus. Vivo o pensamento a respeito do muro que separa o sentido, do real. Sei o quanto è difícil separar a representação da coisa em si. Além disso, poucos tem olhos para observar o que ocorre ao seu redor. As mentes estão sempre flutuando em outros planetas.
Chego logo em casa e faço as contas do quanto ridículo tem sido meu modo de pensar. De novo me excito compulsivamente e me lembro que tenho que tentar livrar-me da mania de ter que pensar e dizer coisas inteligentes e ir além do senso comum.
O telefone toca. Devo voltar.
Comments
O problema de poucos, excitar-se demais. O problema de muitos, excitar-se de menos.
Posted by: wilson | fevereiro 15, 2006 4:22 AM
Ou melhor, Toppone.
Posted by: gugala | fevereiro 6, 2006 5:56 PM
o conjunto da obra está cada vez melhor. Parabéns! Estes foram de Topão #1 mesmo.
Posted by: gugala | fevereiro 6, 2006 2:52 PM
Repito a pergunta do Allan: afinal, pô, vais atender ou não esse telefone? Os vizinhos devem estar de saco cheio do barulho, hehehe abração
Posted by: D. Afonso XX o Chato | janeiro 27, 2006 11:56 PM
Hummm agora entendi porque apareceu lá. Tá bom.
Muito bom os teus textos, li os três, fiquei com vontade de reler, depois volto.
Vc é mto bom, já disse antes.Gostei mto da imagem da poça.
Tenho que ler de novo, hoje estou com dor de cabeça.
Dizer coisas inteligentes, vc disse lá, mto bem por sinal.
Um bj para vc tbm, laura
Posted by: laura | janeiro 27, 2006 8:37 PM
Hummm agora entendi porque apareceu lá. Tá bom.
Muito bom os teus textos, li os três, fiquei com vontade de reler, depois volto.
Vc é mto bom, já disse antes.Gostei mto da imagem da poça.
Tenho que ler de novo, hoje estou com dor de cabeça.
Dizer coisas inteligentes, vc disse lá, mto bem por sinal.
Um bj para vc tbm, laura
Posted by: laura | janeiro 27, 2006 8:35 PM
Afinal, você vai ou não atender esse telefone?
Posted by: Allan | janeiro 27, 2006 5:45 AM
Flavio: seus textos estãoa cada dia mais refinados...adorei!
Beijos carinhosos diretamente do meu Cotidiano.
Posted by: lia | janeiro 27, 2006 3:18 AM
Flavio: seus textos estãoa cada dia mais refinados...adorei!
Beijos carinhosos diretamente do meu Cotidiano.
Posted by: lia | janeiro 27, 2006 3:17 AM
Flavio, você não existe, ha ha ha! Genial.
Posted by: Leila | janeiro 27, 2006 2:14 AM
O efeito produzido pelos três textos é bem interessante, e o Milton falou tudo.
Muito bom, muito bom...
Posted by: marcelo | janeiro 27, 2006 1:33 AM
Que trio de posts, rapaz!
Segundo Vladimir Propp, em "Comicidade e Riso", o humor que se repete trocando algumas peças sutilmente de lugar é absolutamente irresistível. É claro que não é necessário Propp, a gente cria humor sem teoria, mas tu sabes que eu tenho absoluta compulsão por mostrar minha cultura de leitor de orelhas de livro...
Sei lá se foram três textos impopulares - poucos comentários, muita incompreensão -, para mim estão entre os melhores que em li em blogs.
Intramuros: botou bem. :¬))
Posted by: Milton Ribeiro | janeiro 27, 2006 12:44 AM