O acessório e a essência
Acordei cedo hoje, e saí para uma caminhada. Quando entrava no elevador lotado, um fulano me esbarrou em modo forte e nem mesmo se desculpou. Me veio em mente que posso me mover para onde quero mas devo respeitar os demais. Pensei no espaço necessário entre a ética e a liberdade. Espaço difícil de se encontrar. Está a cada dia mais restrito, mas ainda pode ser encontrado. Precisa ser encontrado a todo custo.
A manhã estava fria mas o sol convidava ao passeio. Olhei para as montanhas e as nuvens e acelerei o passo. Passei pelas vitrines das lojas e fiz força para não olhar. Meu amigo disse que devo consumir menos. O problema de poucos, consumir demais. O problema de muitos, consumir de menos. Olhei todas aquelas lojas e vi as pessoas que se incluem no mundo protegido e as que estão fora dele. Sou uma bactéria parasita do mundo, que se espalha pelo organismo, infiltrada e sutil. Mas não inofensiva. Tenho mais que necessidades, minha neurose me leva a consumir o que deveria ser de outros.
Não resisto e paro diante de uma loja de eletrônicos e sinto que faço parte de um clube muito exclusivo e importante. Me fascinam aqueles brinquedos. A rua está encharcada e vejo as poças d’agua que refletem o fraco sol da manhã. Parecem profundas mas não o são. Me vem o desejo de afogar-me a ponto de ir ao fundo da mente do mundo onde nem a dúvida sobre a existência de deus existe. Não seria no raso de uma poça d’agua, eu precisaria encontrar o que nunca foi encontrado. Sigo.
Entro na loja e me esqueço do exercício físico. A garota me serve e me sorri. Como sorriem todos, em qualquer canto. Como sorriu um dia o soldado que morre sem saber o porque. Como sorriu um dia aquele que perdeu as esperanças nesse mundo e se agasalhou com explosivos e voou para longe. O meu novo brinquedinho iria me divertir como a uma criança e não pude me esquecer do drama da ingenuidade que tenta frear a guerra. Nem na desgraçada e estúpida ingenuidade de quem faz a guerra. A ignorância continua vencendo.
Corto caminho até o estacionamento. Passo ao lado do grande muro da cidade velha. A enorme fortaleza que existiu para separar os bons dos maus. Vivo o pensamento a respeito do muro que separa o sentido, do real. Sei o quanto è difícil separar a representação da coisa em si. Além disso, poucos tem olhos para observar o que ocorre ao seu redor. As mentes estão sempre flutuando em outros planetas.
Chego logo em casa e faço as contas do quanto ridículo tem sido meu modo de pensar. Abro a embalagem compulsivamente e me lembro que tenho que tentar livrar-me da mania de ter que pensar e dizer coisas inteligentes e ir além do senso comum.
O telefone toca. Devo voltar.
Comments
Il telefono. Sempre il maledetto telefono.
Posted by: Nelson Moraes | janeiro 27, 2006 12:15 AM
Um flâneur pensador.
Posted by: Inagaki | janeiro 26, 2006 11:38 PM
Bacana a idéia. abração.
Posted by: D. Afonso XX o Chato | janeiro 26, 2006 10:21 PM
geniais! ambos!!
Posted by: Ana | janeiro 26, 2006 6:34 PM
Uma série formada de um esqueleto comum? Idéia de gênio.
Este consegue ser melhor que o primeiro.
Abraço.
Posted by: Milton Ribeiro | janeiro 26, 2006 1:58 PM
ética métrica?
Posted by: gugala | janeiro 26, 2006 1:42 PM
Essa rotina esta te fazendo mal....Coloque o carro do outro lado da rua para variar....
Posted by: Claudio | janeiro 26, 2006 4:23 AM
O espaço necessário entre a ética e a liberdade tem sido um tema que mexe comigo... legal você falar sobre isso... fale mais...
beijo....
Posted by: Maybe | janeiro 26, 2006 1:37 AM