Morte
Morre o ano, nasce um outro. Vida e morte, o eterno tema. Eterno porque contraditório ao infinito. Quanto mais se foge dele, mas presente se torna. Portanto o afronto, sempre, e ele desaparece, desgraçado. Como faço a explicar que se me utilizo de humor e auto ironia é porque sei que uma das poucas coisas verdadeiramente importantes nessa curta vida é somar belos momentos e construir uma história de encontros e entendimento com os outros? A competição e o desentendimento é o que nos vem naturalmente, resquício de nosso passado selvagem e animalesco. A colaboração e o acordo são infinitamente mais trabalhosos. Comunicar é algo que ainda estamos aprendendo a fazer e requer tempo a paciência. Eu estou tentando estabelecer essas pontes. Nós precisamos de pontes, precisamos abrir portas, derrubar barreiras. Sempre mais.
Lutamos com nossos instintos para podermos viver mínimamente em paz em sociedade. Deixados a satisfazer todos os nossos desejos íntimos, o mundo seria ainda mais escravista, ainda mais guerreiro, ainda mais faminto.
Não existem duvidas nesse caso: os que não se importam, os que acham que o mundo não precisa de reformas, os que crêem que a miséria é um dado estatístico, esses são pessoas sérias. Riem raramente. Estão sempre ocupados demais para bobagens. São perigosíssimos.
O ato de rir é também um resquício de nossos instintos primordiais. O animal que se vê acuado, enfrenta o próprio medo e a presa, mostrando os dentes em uma defesa que ao mesmo tempo demonstra força, ainda que presumida. Nós também mostramos os dentes ao sorrir e isso revela que estamos serenos e enfrentamos a besta fera do destino. O riso é o medo domado, é a resolução de enfrentar as dores e decidir viver a vida porque se sabe que acaba. Sorrir portanto é a maior sensação de força aliada a um sentido de civilidade que alguém pode provar. Se o escravista não ri mas o escravo sim, está feita a mágica, a transformação contraditória da miséria em beleza que só quem experimentou pode saber o quanto é profunda e importante. É o que nos permite viver e transcender e ir além. Espero continuar nessa linha.
O mundo está tendo mais uma das incontáveis recaídas de egoísmo o qual dessa vez dão o nome de liberalismo e também cresce muito a competição e o espírito guerreiro. Seria um belo desejo esperar menos liberalismo e mais cooperação e entendimento.
O ano está morrendo. Colo aqui as palavras de Sócrates, o filosofo, proferidas antes de tomar o veneno que o matou. Traduzi livremente mas creio que o sentido foi preservado. Todos sabem que ele foi condenado por um tribunal de jurados a tomar cicuta pela acusação de corromper a juventude com seus ensinamentos. Diante da perspectiva de morrer, ele deixou estas palavras:
“Porém é necessário, senhores juízes, que também vós esperais bem diante da morte e tenhais em mente essa verdade, que não pode existir mal para um homem bom, nem vivo nem morto e nada que se refira a ele é negligenciado pelos deuses; até as minhas causas de agora não aconteceram por acaso, mas me é claro que agora para eu morrer e ser liberado do peso da ação e das coisas do mundo era a coisa melhor. Por isso também é que o sinal, a divina voz, nunca interveio para dissuadir-me e eu pessoalmente não sinto nenhum rancor por quem me votou contra e quem me acusou. Para dizer a verdade, não me votaram contra e me acusaram com essa intenção, mas pensando em fazer-me um dano e portanto por isso merecem ser censurados. Todavia, a eles faço esse pedido: Os meus filhos, uma vez crescidos, puni-los, cidadãos, atormentando-os como eu os atormentei, se a vós parecer que se preocupem com dinheiro ou outra coisa que não seja a virtude; e se fingirem-se de ser aquilo que não são, reprovai-os como eu fazia com vós, se não cuidarem daquilo que devem cuidar e pensam de ser algo não valendo nada. Se fizeres assim, eu terei sido tratado justamente por vós e também os meus filhos o serão.
Mas é chegada a hora de ir, eu para a morte, vós para vossas vidas; quem dos dois porém vai em direção ao melhor, isso é obscuro a todos, exceto que ao deus.”
Comments
Feliz 2006! espero que continue com este humor para nos fazer sorrir. abs, laura
Posted by: laura | janeiro 2, 2006 3:17 AM
Legal essa nossa caincidência de aniversários, e só para reforçar tudo de bom este ano e sempre. Beijão
Posted by: Jan | janeiro 1, 2006 4:58 PM
é a democracia corintiana rediviva!
saúde e sucesso em 2006!
Posted by: claudio boczon | dezembro 31, 2005 6:43 PM
Vida nova pra todos nós em 2006!!
Posted by: Nina | dezembro 31, 2005 5:59 PM
Pois vou sorrir muito em 2006, eu espero.
beijo grande Flávio e tudo de bom pra você.
Posted by: Simy | dezembro 31, 2005 3:41 PM
Flávio,
Não entendi muito, principalmente quando você chamou o jogador Sócrates de filósofo, mas gostei assim mesmo.
Use bem 2006: É um ano inteiro e novinho.
Posted by: Allan | dezembro 31, 2005 4:39 AM
Importantes reflexões, Flavio.
E para rir bastante, conto com a sua amizade em 2006. Grande beijo,
Posted by: Leila | dezembro 30, 2005 2:02 AM
Taí alguém que compreendeu que o eterno e o infinito são coisas diferentes. Eternos são os ensinamentos éticos; infinita é a alma de quem os prega. E ele vive até hoje. Sabes, por acaso, o nome de algum dos juízes que o condenaram a morte? Permito-me supor que não, da mesma forma que suponho que os atuais "liberais" jamais serão lembrados. A morte os matará para o eterno e para o infinito.
A solidariedade não faz dos homens seres eternos, mas os faz infinitos.
Saúde em 2006 para vocês. Com saúde, o resto a gente consegue! abs
Posted by: D. Afonso XX o Chato | dezembro 30, 2005 12:20 AM
Um de seus melhores posts de todos os tempos e o melhor que li nesses dias de avaliações e balanços. Mas daqui eu discordo (ô mania terrível!):
"Não existem duvidas nesse caso: os que não se importam, os que acham que o mundo não precisa de reformas, os que crêem que a miséria é um dado estatístico, esses são pessoas sérias. Riem raramente. Estão sempre ocupados demais para bobagens. São perigosíssimos."
Lutar contra essas coisas que vc falou no seu post é uma luta inglória. Por vezes demais rouba o sorriso dos rostos.
Feliz Ano Novo pra você e pros seus, querido!!
Posted by: Daniela | dezembro 29, 2005 11:48 PM
Faltei no Natal que espero tenha sido bárbaro, mas estou aqui para desejar um feliz 2006, 2007, 2008 e por aí vai. Beijos.
Posted by: Jan | dezembro 29, 2005 9:28 PM
Melhor post de final de ano que eu li... que maravilha, fiquei emocionada e com vontade de ler Sócrates. Muito obrigada e um excelente 2006 pra vc e toda sua família!
Posted by: Juju | dezembro 29, 2005 8:35 PM
Que em 2006, caminhemos para a vida com a dignidade que ele enfrentou a morte.
Posted by: Manoel Carlos | dezembro 29, 2005 8:18 PM
Com o defunto 2005 sendo levado, vim para lhe desejar um magnífico 2006, repleto de oportunidades e de excelentes realizações.
Posted by: As 14 Máscaras | dezembro 29, 2005 5:57 PM
Flavio, foi um prazer te conhecer nesse 2005. Desejo para ti e para Mrs. Prada e para os Pradinhos mirins, um otimo 2006, cheio de saúde, alegria e bom-humor. E não esqueça de continuar seguindo o programa de exercícios e a dieta para se preparar para o Top Sexy 2006. Beijos !
Posted by: Ana Lucia | dezembro 29, 2005 4:18 PM
Há muitos tipos de sorrisos. Lembrei daquele, chamado "Pai Tomás" do negro submisso, do qual foi acusado o Louis Armstrong. Há um rosnado escondido ali?
Posted by: pecus | dezembro 29, 2005 3:10 PM