Aconteceu naquela noite.
O Milton já está chateado comigo porque estou revelando certos detalhes que talvez ele quisesse omitir mas o que vou relatar aqui, depois de refletir muito, julguei que o interesse do assunto supera eventuais indisposições.
Aconteceu na primeira noite que Milton dormiu aqui em casa. Acordei como sempre às três da manhã para ir ao banheiro e notei que do quarto onde Milton dormia vinha uma luz. Uma luz tênue e azulada de um ponto que parecia distante. A porta estava apenas entreaberta e não resisti a curiosidade e empurrei-a de leve para ver melhor. Aquele é o quarto dos meninos e tem quatro metros por três mas me pareceu maior quando olhei. Na verdade pareceu absurdamente maior. Abri mesmo a porta e entrei pois aquilo me pareceu algo extraordinário. Aos poucos meus olhos foram se acostumando com a pouca luz e fui podendo enxergar melhor. Percebi que o que era o quarto de meus filhos estava ladeado por imensas colunas de mármore de seus sete metros de altura. Calculei aproximadamente largura e comprimento do espaço em quinze por quarenta metros. A luz estava no final dos quarenta metros na parede oposta à porta. Lembrava demais o interior de um templo grego. O piso era também em mármore todo decorado em um mosaico de cores. Logo atrás da luz percebi a presença de uma figura humana. Pensei em uma estátua pois era enorme, quase três metros de altura e uma fina fumaça de incenso subia por ambos seus lados. Estive por alguns segundos, ou minutos não sei, ali, tentando entender o que era tudo aquilo. Pensei que fosse um sonho alucinante causado pelo vinho, mas era tudo muito real para ser um sonho. Conseguia sentir o cheiro do incenso, o frio que vinha das pedras, o eco sutil de meus passos, era tudo muito real. Fui me aproximando lentamente da estátua e quando estava a um metro pude ler no seu pedestal: Oraculum Verbeaticus. Levantei os olhos e nesse momento aquilo que no inicio pareceu uma estátua, abriu os olhos e se inclinou levemente para me olhar. Quase não acreditei no que vi. Ali, diante de mim, em carne e osso, o grande Milton Ribeiro. Era ele. Enorme. Seus braços estavam repousados avante como uma esfinge e seu corpo estava deitado sobre o que me pareceu uma mala gigante. Me veio imediata a pergunta:
-Mas..mas você Milton é um pitoniso?
-O que é que está escrito na plaquinha ó babaca? Próximo!
-Como próximo? Ah... mas então é verdade que dá pra fazer só uma pergunta? Puxa vida Milton, só tem eu e você aqui, me dá uma chance de matar uma curiosidade.
-Tudo bem, dessa vez passa, o movimento anda fraco mesmo.
-Mas faz muito tempo que você é pitoniso?
-Desde sempre, ora bolas. Mas somente para assuntos blogais nos últimos tempos.
-Entendo, os deuses lhe sopram as verdades no seu ouvido e você as transmite em forma de enigmas.
-Sim, mas ultimamente a concorrência anda ameaçando minha atividade. Deuses jovens estão me roubando clientes.
-Deuses jovens?
-Sim, um se chama Google e outro Wikipedia, veja se isso são nomes de deuses.
-Pois é.
-Além disso esse oráculo não é meu, pago aluguel pelo templo e está a maior dificuldade. Já me ofereceram pra redirecionar o negócio e trabalhar no ramo evangélico mas ainda não me decidi.
-Nem pense nisso, continue firme.
-Mas afinal qual é tua pergunta? Já estou perdendo a paciência.
-Bom, agora que inaugurei um blog em um condomínio decente e assinei um contrato milionário, quero saber quando é que vou ter a minha caixa de comentários cheia daquelas pessoas interessantes que discutem profundamente os assuntos palpitantes do momento, teorizando e criando espirais de pensamento em um vórtice intelectual que suga toda e qualquer racionalidade para dentro dos assuntos tratados e os reverte em noções importantes e pertinentes.
-Escuta, porque você não volta a dormir? É tarde, são já três e meia.
-Essa é uma resposta enigmática não é? Você quer dizer que... eu nunca... ou melhor... você. bem... O que você quer dizer?
-Que você já está rompendo minhas bolas.
-Mais um enigma não é?
-Sabe que eu acho que vou entrar mesmo no ramo evangélico?
-Agora é você que me faz perguntas. Que louco isso.
-Põe louco nisso. Bem, quer saber mais alguma coisa?
-Só mais uma coisinha. Oraculum não é latim? Não deveria estar escrito em grego?
-Fora, pode sair, chega de me encher o saco.
Dizendo isso, o pitoniso Milton se levantou e apontou seu dedo médio da mão esquerda em direção à porta. Ele era mesmo grande. Me veio um certo medo mas fui saindo andando de ré. O templo estava envolto em uma bruma etérea e as pedras das colunas me pareceram úmidas. Milton também se afastou. Ele parecia ser feito de mármore, mas seus movimentos eram de uma pessoa normal ainda que em pé chegasse a ter mais de seis metros. Sua expressão era sempre a mesma, com mínimas variações. Eu nunca poderia esperar algo de minimalista em Milton mas foi assim que se deram as coisas. Saí e fechei a porta. Estava no mesmo corredor de casa de sempre. Só então percebi que havia feito o xixi nas calças e fui me lavar e trocar.
No dia seguinte e no outro também, Milton era a mesma pessoa de antes, altura normal, pele normal e se comportou como se nada tivesse acontecido. O quarto dos meninos também não apresentava qualquer anomalia. Não encontrei modo de dizer que sabia de seu segredo. Não consegui reunir a coragem para falar-lhe abertamente. Faço-o agora aqui, publicamente, como nos programas de televisão onde as pessoas vão resolver conflitos familiares diante de milhões de pessoas. Espero que ele não se ofenda. Penso que vai saber me perdoar. Quem sabe ele me recomenda em uma oração à nosso senhor Jesus Cristo?
Comments
Flávio, este texto foi demais... Me fala uma coisa: vc bebeu foi o quê? Me fala pq eu quero tb! hahahaha :D
Bjo
Posted by: Ana Letícia | dezembro 16, 2005 6:25 PM
Flávio e Milton, vocês nasceram um para o outro! Amém!
Posted by: nora borges | dezembro 15, 2005 7:02 PM
Oi, Flávio,
Face a relato tão aterrorizador, quase mijei-me também.
Espero só encontrar o Milton em sua versão terrena.
Rsrsrsrsrsrsrs!
Abração
fernando cals
Posted by: fernando cals | dezembro 13, 2005 9:01 PM
no próximo encontro, não esqueça da fralda. no frio, gela.
Posted by: anna | dezembro 13, 2005 4:22 PM
Aê Pradinha! Acredite mas está frio até aqui em São Paulo.
abraço
Posted by: Dudi | dezembro 13, 2005 4:41 AM
Eu acho que antes de vc tomar todo esse vinho, deve engolir um ovo cru, um copo de azeite, sei la , qualquer coisa que não te de esses pesadelos....
Posted by: Claudio | dezembro 13, 2005 4:37 AM
Ah, ah, como ser profundo , morrendo de rir? Vc me faz lembrar o os versos" o poeta é um fingidor".
abraço, garoto
Posted by: denise | dezembro 13, 2005 3:18 AM
He he he!
Mas Flavio, você não está satisfeito com os nossos comentários? Temos que ficar mais profundos aqui também?
:D
Posted by: Leila | dezembro 13, 2005 12:57 AM
"Bom, agora que inaugurei um blog em um condomínio decente e assinei um contrato milionário, quero saber quando é que vou ter a minha caixa de comentários cheia daquelas pessoas interessantes que discutem profundamente os assuntos palpitantes do momento, teorizando e criando espirais de pensamento em um vórtice intelectual que suga toda e qualquer racionalidade para dentro dos assuntos tratados e os reverte em noções importantes e pertinentes."
o que ocê quis dizer com isso?
acho que num foi pra mim não?
Que viagem!! Uau.
Beijoca.
Posted by: Simy | dezembro 13, 2005 12:42 AM
continua...demais!
Posted by: gugala | dezembro 12, 2005 6:21 PM
(A vingança é um prato que se come frio...)
Estou tranqüilo, desfiando britanicamente minhas memórias de viagem. Talvez hoje fale sobre Roma, depois sobre Verona e Veneza, porém depois a fleugma do viajante tupiniquim será substituída por calculada e implacável vingança. Sabes aquela cara que o Clint Eastwood faz antes de disparar? Pois é. O Oraculum Verbeaticus está com aquele sorrisinho marmóreo. É melhor não dar-lhe as costas mesmo.
Gigantesco abraço mais dois beijinhos.
Posted by: Milton Ribeiro | dezembro 12, 2005 5:27 PM
Ei, pitoniso paga dobrado! Peraê que não é bem assim! Não é bem assim!!!
Falando em revelar detalhes. Olha o péssimo espírito esportivo do Pitoniso: eis que sexta mando-lhe uma mensagem no celular, dizendo mais ou menos:
"Acabei de falar ao telefone com Flavio Prada! Que barato! :-D"
Toca meu telefone. É Milton Ribeiro. Atendo:
- E aí!
- Grandescôsa. Eu dormi na cama dele.
Estraga-prazeres.
Posted by: tiagón | dezembro 12, 2005 3:07 PM
Absolutamente impagável, Flávio Prada. Qdo eu penso que já vi de tudo, vc ainda me surpreende..rs
Beijocas
Posted by: Daniela | dezembro 12, 2005 2:49 PM
Cuidado: na reunião anual que acontece aqui no condomínio, não te aproximes da piscina de água de côco. O Milton pode estar na espreita... abs
Posted by: D. Afonso XX o Chato | dezembro 12, 2005 12:32 PM
Ah, o Milton é magnânimo, acima de tudo. Ele só vai te esculhambar um pouco lá no blog dele, só isso.
Posted by: Renato K. | dezembro 12, 2005 11:40 AM
Muito bom! Até.
Posted by: Pat | dezembro 12, 2005 10:00 AM
Estou preocupada com sua segurança. Espero que o Milton não seja vingativo....
Posted by: Viva | dezembro 12, 2005 4:27 AM
Flávio, vc é demais, impressionante teu humor.:)
tenho inveja dos que são seus amigos, taí, uma pessoa especial.
Gosto de vc.
Muito bommm.
Posted by: laura | dezembro 12, 2005 2:30 AM