A justiça está com uma boa cor hoje.
Não teve jeito, o exterminador do presente mandou mais um para o lado de lá. O caso causa certa repulsa. Um pessoa, Stanley "Tookie" Williams, que vinha de um passado de violências e ajudou a criar quando jovem uma gangue de rua de Los Angeles, acusado de quatro homicídios, dos quais sempre se declarou inocente, foi morto hoje com uma injeção letal. Se não bastasse a pena de morte em si ser já uma abominável forma de vingança institucional, ou seja, o estado agindo como justiceiro, em perfeita contradição com o discurso liberal que diz que o estrado não deve interferir na vida dos cidadãos (e que interferência!), o caso em questão é ainda mais clamoroso por alguns aspectos. Primeiro porque a pessoa que mataram hoje não é a mesma que supostamente cometeu os crimes de quase trinta anos atrás. Mais de vinte anos de cadeia mudam qualquer pessoa. Mas no pais que se diz liberal, e a ideologia serve a isso: fazer crer que as coisas são o seu contrário, o estado deixou um seu cidadão na cadeia por mais de vinte anos e depois, mesmo com sua radical mudança comportamental, o eliminou. Mas isso para os liberais não é interferência ou mão pesada estatal, eles conseguem chamar isso de justiça. A verdade é que no mundo liberal, a liberdade é um conceito muito relativo. Em segundo lugar, quando esse mesmo cidadão estava pronto a contribuir socialmente e ser útil e com isso reparar o custo que representou em passado, vem simplesmente retirado do mundo. Se um è pragmático não pode não considerar isso uma burrice. Em terceiro lugar tem o lado humano. Neste aspecto não tem muito o que explicar. Porque existem os que entendem e não precisam de explicações e os que não entendem, aos quais são inúteis quaisquer considerações a respeito. Um individualista simplesmente não consegue se projetar no outro, insensível, é capaz de tentar até justificar as maiores atrocidades.
O único ser humano que poderia livrar o ex-criminoso Williams era Arnold Schwarzenegger, o canastrão austríaco de direita que faz o papel de governador da Califórnia. O céu não se abriu, o mar continuou onde está e os rios seguiram seu curso. Tudo como previsto, Arnold não se manifestou e está manhã, depois de 22 minutos de agonia, mais uma possibilidade de paz e redenção no mundo se foi. Não sei qual está sendo a repercussão na mídia, pouco estou acompanhando, mas duvido que seja muita. Ele era negro.
Comments
Não tenho muito o que acrescentar. Só posso dizer, a partir de agora, mudei um pouco minha opinião a respeito da pena de morte.
Posted by: Luciana | dezembro 28, 2005 11:43 PM
Do ponto de vista das famílias das vítimas, mesmo não trazendo-as de volta, tenho certeza que ficarm satisfeitos. É complicado pois não sei se é pior matá-los logo ou deixá-los apodrecer até morrerem. E não podemos esquecer que os "Creeps", gangue criada por ele, é uma das mais violentas da califórnia. Quantas pessoas comuns não foram assassinadas apenas pela idéia do cara? Sou a favor dos direitos humanos mas primeiro dos meus direitos humanos.
Posted by: Ricardo Rayol | dezembro 25, 2005 11:55 AM
Assisti ao filme sobre esse cara, é ótimo.
Sou completamente contra a pena de morte.
Mas é importante ver que 1) havia previsão legal para que o(s) crime(s) por ele cometidos o levassem à morte; 2) juízes o condenaram, com direito a várias instâncias e recursos; 3) só então o Conan deixou de conceder o perdão, ou de se manifestar contra a execução da sentença.
Não dá pra culpar só o Mr. Universo. Já havia passado pelos 2 outros poderes, ele, como executivo, poderia ter mudado - no meu ponto de vista deveria -, mas não o fez.
Posted by: Beto Lins | dezembro 18, 2005 9:08 PM
Gostei. Uma obra prima do politicamente correto. Talvez por isso vc tenha tanto sucesso e possa escrever o texto acima. Arre!!!
Posted by: Blogue da Magui | dezembro 15, 2005 10:47 PM
Gostei. Uma obra prima do politicamente correto. Talvez por isso vc tenha tanto sucesso e possa escrever o texto acima. Arre!!!
Posted by: Blogue da Magui | dezembro 15, 2005 10:47 PM
Os humanos são assim,fazem leis desumanas e se orgulham delas. Em todas as épocas e em todas as partes do mundo. Cada lugar tem suas penas de morte ( com outros nomes, talvez).
Posted by: nora borges | dezembro 15, 2005 7:09 PM
Pena de morte não é justiça, é vingança. Aliás, quando vejo gente defendendo penas cada vez maiores, me convenço de que a justiça humana existe não para evitar mais crimes, mas para aplacar a sede de sangue e vingança das vítimas e/ou suas famílias.
Por essas e outras que só confio na justiça lá do alto.
Post perfeito, parabéns.
Posted by: Daniela | dezembro 15, 2005 3:02 PM
Flavio, li duas vezes e não consegui ter opinião sobre o assunto. Que coisa difícil falar sobre pena de morte. Sem mais comentários. Beijocas
Posted by: Yvonne | dezembro 15, 2005 12:16 PM
Stanley morreu...Por um dia esse foi o comentario mundial, hoje passado 24 horas ninguem mais se lembra de quem era Stanley, ou porque morreu. É Flavio, o mundo atualmente é isso, vc nasce vive e morre e a midia não tem tempo de se aprofundar no tema, porque tem outras notícias já esperando para serem publicadas, não existem mais herois ou vilões, mocinho ou bandido, existe apenas a notícia fresca, e depois o pó.....
Posted by: Claudio | dezembro 15, 2005 3:33 AM
Flavio, dizem que a justiça é cega.
mas, porque ainda não aprendeu braile?
aproveito para comentar post teu sobre milton e o bach, hehehe. assim, saiba que o Porto-alegrês é uma das línguas mais difíceis do "Ocidente" (que não é o hemisfério, e sim um bar em Porto Alegre). Para começar, só existe uma interjeição: "báh!" - que é usada em mais ou menos 462 situações diferentes. Prá complicar, "bah!" tem, também, 497 entonações diferentes: pode ir de um simples "beh!", até um complicado, "pãh!" dependendo do que tu queres dizer.
viu? não é por acaso a esquisitice do Milton.
bjo
lelex
Posted by: Elenara iabel | dezembro 14, 2005 10:10 PM
o mundo ficou mais triste hoje com a morte desse cara, causada pelo desprezo e descrença à capacidade humana de arrepender-se (mudar a rota). confirma-se o mentiroso ditado que diz: pau que nasce torto morre torto.
Posted by: anna | dezembro 14, 2005 8:54 PM
Também sou contra a pena de morte, a não ser que o condenado seja o Arnaldo Pretonegro.
Posted by: Renato K. | dezembro 14, 2005 7:28 PM
Flavio, eu não comento este post. Muito bem escrito e absolutamente horrível de se ler.
Contrariamente ao Tiago, acho que as TVs brasileiras deram grande cobertura a este assassinato. A narrativa passo a passo que ouvi ontem na Bandeirantes - cheia de imagens do governador, dos favoráveis à morte e dos hostis a ela - deixou-me com aquela sensação de que a humanidade é uma merda mesmo. A Globo também deu bom destaque.
Posted by: Milton Ribeiro | dezembro 14, 2005 5:54 PM
Pô, ele era NEGRO, tá explicado...
Posted by: Roberta de Felippe | dezembro 14, 2005 4:58 PM
Essa é a grande crônica sobre o caso, e que não li em nenhum jornal. E os comentários adicionam com propriedade. Parabéns a todos.
Posted by: tiagón | dezembro 14, 2005 4:57 PM
Aprendi, num livro que a minha filha leu para a escola, sobre uma história que se passa na Geórgia, entre Europa e Ásia, que a justificativa de direito da vendeta é reequilibrar numericamente os clãs, para evitar que a morte de um membro deixe o seu clã em desvantagem, que se propagará na descendência. Deve ser a origem da pena de morte, que não tem mais sentido.
Posted by: pecus | dezembro 14, 2005 3:57 PM
Sou contra a pena de morte. Mas creio que ela possa existir. Basta que os que a defendem a experimentem primeiro, para provar que funciona de verddade.
Posted by: Allan | dezembro 14, 2005 3:09 PM
Também sou, absolutamente, contra a pena de morte. A grande maioria dos penalizados são sempre negros e pobres. O Exterminador do Futuro fez média com seu curral eelitoral. Os que estavam contra a pena de morte não iriam votar nele, nas proximas eleições, de qualquer forma, então...
Posted by: Denise Arcoverde | dezembro 14, 2005 2:59 PM
Puxa, difícil de digerir, não é mesmo! Quando li isso nos jornais fiquei pensando como é difícil ter nas mãos a decisão de matar alguém. Tem horas que sou a favor da pena de morte para alguns dos monstros que povoam a terra. Mas concordo com você que depois de 20 anos, aquele condenado a morte não é mais o mesmo que cometeu atrocidades.
Posted by: pat | dezembro 14, 2005 1:34 AM
Parece que a decisão foi acima de tudo político-partidária. Conveniências eleitorais para agradar à base se tornam mais importantes que uma vida humana. Williams não era realmente inocente dos crimes, o pedido de clemência foi devido a ele ter se reformado e estar contribuindo para a sociedade através de livros infanto-juvenis falando contra a violência de gangues. De qualquer forma, sou absolutamente contra a pena de morte e acho repugnante que alguém, com a decisão em suas mãos sobre a vida de uma pessoa, leve mais em conta aspectos políticos do que o fato de que você está decidindo sobre um ser humano morrer ou não.
Posted by: Leila | dezembro 14, 2005 1:33 AM
Difícil o caso. Estou na fase da prisão perpétua. Mas permito-me discordar um pouco quanto à questão de ser o Estado a matar. Entes abstratos não matam. Quem mata somos nós, que escolhemos deputados que propõem e aprovam leis que permitem a pena de morte. abs
Posted by: D. Afonso XX o Chato | dezembro 14, 2005 1:03 AM
acho que o governador só assistiu "o exterminador do futuro 1". Seu verdadeiro ' persona'.
Posted by: gugala | dezembro 13, 2005 10:11 PM