A fama mexe com qualquer um
A minha fama como mito sexual durou pouquíssimo. Já estou tendo que afrontar a dura realidade. Isso me deixou deprimido. As pessoas quando estão meio deprimidas, raciocinam em um modo incomum. Isso as leva a fazerem as coisas mais diversas para tentarem se curar. Em termos de auto diagnóstico, a depressão leve acho que ganha de muitas outras doenças. Os tratamentos, são os mais variados também. Eu, quando me vem esse quadro depressivo, tento conquistar uma mulher bonita, agora então nem se fala, eu senti a necessidade disso. Em geral, a depressão me atinge quando não consigo chamar a atenção das mulheres bonitas, por isso a cura vai nessa direção. Por isso se não consigo conquistar a mulher bonita quando estou deprimido, a depressão aumenta e aí tento conquistar uma mais bonita ainda.
Com o passar dos anos certas partes do corpo mudam de consistência, fazem um câmbio, uma verdadeira inversão de valores: aquilo que era duro fica mole e vice versa. Por exemplo, se um era duro de entender e aceitar o fato de que é mais feio que diarréia de gordo, com a idade essa compreensão da realidade, diante de um simples espelho, é mole mole.
Hoje me veio uma depressão. Eram 10 e 32 da manhã e ela veio assim de repente, logo após ler as noticias no jornal. Pensei comigo: preciso encontrar uma garota já. Entrei na primeira loja que encontrei quando saí do escritório às 13. Era um beauty shop e isso já me pareceu um bom começo. Comprei qualquer coisa, um tônico capilar e lixas de unhas e passei no caixa. Ali estava ela. Bela, perfumada, uma imagem de mulher no auge de seu esplendor, um primor da natureza, quase não encontrava mais lugares comuns para descrever a visão daquele ser feminino de raras feições e tez aveludada. Me aproximei e ela me sorriu. Olhei bem fundo em seus olhos. Notei todos os detalhes de seu rosto. As mínimas diferenças de textura da pele, o nariz perfeito na sua imperfeição, a boca plena de contradições e ironias, os cabelos de uma impossível maior beleza. Depois vi suas mãos. Graciosas, delicadas, com os dedos longos e finos e unhas maravilhosas. Todas as unhas eram aparadas e limpas e a parte branca de todos com um milímetro, exceto no dedo anular que tinha 2,4 milímetros. Ela inclinou levemente a cabeça para o lado e tomou a iniciativa:
-São cinco e trinta e dois euros.
-Que maravilha!
-O senhor é que usa lixas de unha?
-Eu? Sim, quer dizer, não. É para uma amiga. Ela está com gripe e tem que fazer as unhas e me pediu...sabe?
-Sim, sei.
-Espere, você não está pensando que eu uso lixa de unhas? Puxa vida, você é tão bonita, quer dizer, eu estava aqui pensando em te convidar pra tomar alguma coisa e quer dizer, se você confunde as coisas fica complicado e eu estou dizendo bobagens mas na verdade eu queria dizer que você é a pessoa mais bonita que eu já vi na minha vida.
-Obrigada. O senhor me deu só dois euros, faltam três e trinta e dois.
-Ah, sim, espere, deixe essa senhora passar que eu quero te dizer algo.
Enquanto ela fazia as contas da velha senhora que comprou tintura lilás para os cabelos, ela sorria e a cada 8 segundos me dava uma olhadinha. Meu rosto estava fervendo, as orelhas queimando. Afinal a velha foi embora e então dessa vez fui eu que puxei a conversa:
-Então quer dizer que faltam dois e tinta e dois?
-Três e trinta e dois.
-Eu queria te dizer que desde o momento em que entrei aqui e te vi, algo fez minhas glândulas se espremerem e injetarem hormônios em minha corrente sanguínea em modo cavalar, por isso eu quero te dizer que algo me ferve dentro e eu quero te dizer que estou queimando e...
-Hahaha, quer que eu chame os bombeiros?
-Sim... não.
-Você não disse que queria me convidar para um drinque?
-Sim, era isso, era aí que eu queria chegar, sim, ufa.
-Aceito, claro, bastava me dizer, hehehe.
Aquilo era o máximo. Que depressão? Transtornos emotivos? O que é isso? Eu estava no céu e caminhava a um metro do chão. Levei-a a um bar perto do seu trabalho. Me disse que tinha 24 anos e estava terminando a universidade. Eu lhe disse que não me importava que ela estivesse terminando a universidade, para mim ela seria sempre uma universitária. Ela disse que não entendeu o que quis dizer e na verdade nem eu mesmo havia entendido. Eu estava confuso, emocionado, em agitação. Ela voltou a falar:
-Sabe, eu agora comecei a estudar a holística.
-Ah, mas eu conheço tudo sobre o assunto.
-Sério? É apaixonante não?
-Sem duvida, sabia que só na Itália são mais de 560 tipos de óleo de oliva?
-Espera, eu estou falando de holistica.
-Eu também, o estudo dos óleos de oliva, não é?
-Não, mas não é essa holistica, é outra.
-Ah, bem, eu já saí da universidade já há algum tempo, sabe? As coisas evoluem muito rápido.
Notei que o seu sorriso perdeu alguns lux do brilho original. Teria eu dito algo de errado?
Ela mudou de assunto de repente:
-Você gosta de cinema?
-Eu? Claro que sim. Adoro.
-Eu amo o cinema de Almodóvar.
-Mas eu também, vi quase todos os filmes dele.
-Sério? Qual Você mais gosta?
-Eu não me lembro bem do titulo. É um em que ele é um lutador de boxe. Tem uma cena em que ele sobe uma escadaria enorme durante um treinamento e depois dá uns pulinhos gritando.
-Almodovar? Ele é ator também?
-Sim, claro, deixa eu me lembrar, já faz tempo que eu vi...Rocky o lutador, esse era o titulo.
-Mas... desculpe... Você esta falando de Silvester Stallone, o maior e mais nojento canastrão de todos os tempos.
-Stallone é? Ah, hehehe, gostou da piada? Nojento ele, não é?
-Você conhece mesmo Almodóvar?
-Eu? Bem, claro... quer dizer... não.
-Você esta tentando me impressionar não é?
-Er.. sim.
-Você já leu Kierkegaard?
-Claro! Claro!
-E Heidegger?
-Desde sempre.
-E B. O. Tonic Fontoura?
-Também.
-Você é um bruto mentiroso não é?
-Seus olhos são como duas pérolas negras em um mar de...
-Chega disso, tenho que ir. Tenho que voltar à loja.
-Entendo.
Ela se levantou e saiu e não tinha mais aquele sorriso maravilhoso e até seu corpo parece que não tinha mais aquela ginga, aquela graça. Olhando melhor, ela até que nem era lá essas coisas. Para dizer a verdade, achei ela feia pra burro, mas quis me enganar, até em respeito a ela mesma. Tá louco, que mulher horrível.
Comments
Não sabia que esse tipo de cantada rolava também em países integrantes da união européia.
E fica aqui a pergunta que não quer calar: afinal, vc pagou ou não o resto do dinheiro??
Passa uma cantada deslavada e ainda por cima ganha desconto,esse cara é profissional.
Posted by: Luciana | dezembro 28, 2005 11:39 PM
Ahahhahahaha!!!!! Sem palavras!
Posted by: nora borges | dezembro 27, 2005 3:32 PM
Isso que eu chamo de se afundar em um mar de lama e se ferrar em verde, amarelo, azul e branco (ou no seu caso em branco verde e vermelho).. Prefiro me passar por um casca grossa do que passar por isso rs. []'s
Posted by: Ricardo Rayol | dezembro 24, 2005 1:16 PM
Oi Flávio! Obrigada pela visita ao Tricotando. Sempre vejo seus comentários no blog da Sandra (Escritos em Letra de Forma). Então quer dizer que você faz o mesmo que o cara do Celta prata?! Ô meu Deus! Que a moça do ônibus não te encontre na europa, pois se não ela te agarra! hehehehe!
Mas cá pra nós, essa de Almodovar e Stallone... ruim demais!
Beijos e um Feliz Natal pra você e pra sua família.
Posted by: Jacque | dezembro 22, 2005 9:51 PM
Hahaha!!! Que cena, heim?? Mas a moça não estava de todo errada, né?? Rsrs!!
Gato preto não dá azar não moço, a minha Lola linda só me dá alegria!! =^;^=
Posted by: Nina | dezembro 22, 2005 4:01 PM
Flávio, é a primeira vez que visito seu blog, cheguei aqui através do Stuck in Sac.
É impressionante como uma simples conversa pode mudar nossa visão da coisas...se livrou da mocréia.
Posted by: Ronzi | dezembro 22, 2005 3:10 PM
Toma tenência, rapaz! Essa vida de Don Juan tem lá suas manhas. Anota aí a dica do curso de persuasão de Mme. Nóvoa: quando o papo fica difícil, tem que fazer aquela cara de conteúdo e assumir um silêncio intrigante. Daí quando ela chegar no Almodovar você fala no ouvido dela: ata-me; e amarra a moça na maciota.
Mas vai querer apelar pra violência.... Stallone?? Francamente, Flavio, a fama lhe desceu à cabeça! :))
Posted by: christiana | dezembro 22, 2005 6:38 AM
Imprimi para ler com calma (é um hábito meu) e ia voltar para comentar quando li seu comentário no meu último post. Não entendi bem a provocação em dizer-me que o seu domingo foi ótimo, pois tenho a certeza de que eu estava em companhia bem mais agradável que a sua.
É só.
Posted by: Allan | dezembro 22, 2005 5:36 AM
Só passei para dizer que adorei a música... rssss... Um dia você vai cantar!!!
Beijão
Posted by: Sandra | dezembro 21, 2005 11:54 PM
Passei aqui para desejar um feliz natal pra você e sua família! Bjo.
Posted by: Pat | dezembro 21, 2005 11:37 PM
PUTZ! Além de sem graça era metida a intelectual...
Posted by: Guilherme | dezembro 21, 2005 6:05 PM
Orra meu! até que enfim você escreveu alguma coisa séria. Afinal, você já é um garotão, tem mais é que sentar esse seu trazeiro gordo aí e escrever, meu!
PS: botei o anexo no meu nome que assim quem sabe você me dá bola!!!
Posted by: DALVA AMIGA DA CHRISTIANA NOVOA | dezembro 21, 2005 5:37 PM
flavio, absolutamente hilário.
Posted by: gugala | dezembro 21, 2005 5:04 PM
Muito bom, Flávio. E adorei a expressão "a boca plena de contradições e ironias". Abraço (sem beijinhos).
Posted by: Milton Ribeiro | dezembro 20, 2005 8:40 PM
Mais que bela: inteligente e interessante, como é mesmo o provérbio? Deus dá nozes a quem não tem dentes.
Que em 2006 sejamos atentos às palavras do poeta.
Grande e fraterno abraço.
Manoel Carlos
http://www.agrestino.blogger.com.br
Quem Morre
Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu
amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma
em escravo do hábito, repetindo todos
os dias os mesmos trajetos, quem não
muda de marca, não se arrisca a vestir
uma nova cor ou não conversa com
quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma
paixão, quem prefere o negro sobre o
branco e os pontos sobre os "is" em
detrimento de um redemoinho de
emoções, justamente as que resgatam
o brilho dos olhos , sorrisos dos
bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa
quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto
para ir atrás de um sonho, quem não
se permite pelo menos uma vez na vida
fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os
dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona
um projeto antes de iniciá-lo, não
pergunta sobre um assunto que
desconhece ou não responde
quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige
um esforço muito maior que o simples
fato de respirar.
"Somente a perseverança fará com que
conquistemos um estágio esplêndido de
felicidade".
Pablo Neruda
Posted by: Manoel Carlos | dezembro 20, 2005 6:29 PM
Eu conheco o nome desse conto: "a raposa e as uvas"!
Mas, falando sério, feia, nao sei, mas, chata, certamente! A cena de Rocky na escadaria é um "clássico", como alguem pode nao ter visto?! ;-) Voce se livrou de uma boa, meu caro!
Beijoes,
Vanessa
Posted by: Vanessa | dezembro 20, 2005 6:19 PM
É difícil encontrar uma italiana feia.
Posted by: Leila | dezembro 20, 2005 5:50 PM
disdeprimiu?
Posted by: anna | dezembro 20, 2005 5:34 PM
Por um momento, achei que ela não tinha dedinho.
Posted by: pecus | dezembro 20, 2005 1:41 PM
Eu sabia qu essa história de TOP 15 ia afetar seriamente alguém...
Mas tinha que ser justo você, Flávio?!?!?!?!?
Posted by: Sandra | dezembro 20, 2005 2:57 AM
hihihi
coisas da vida, meu caro. :)
Muito boa sua historinha e divertida.
abs, laura
Posted by: Laura | dezembro 20, 2005 1:42 AM