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dezembro 29, 2005

Morte

Morre o ano, nasce um outro. Vida e morte, o eterno tema. Eterno porque contraditório ao infinito. Quanto mais se foge dele, mas presente se torna. Portanto o afronto, sempre, e ele desaparece, desgraçado. Como faço a explicar que se me utilizo de humor e auto ironia é porque sei que uma das poucas coisas verdadeiramente importantes nessa curta vida é somar belos momentos e construir uma história de encontros e entendimento com os outros? A competição e o desentendimento é o que nos vem naturalmente, resquício de nosso passado selvagem e animalesco. A colaboração e o acordo são infinitamente mais trabalhosos. Comunicar é algo que ainda estamos aprendendo a fazer e requer tempo a paciência. Eu estou tentando estabelecer essas pontes. Nós precisamos de pontes, precisamos abrir portas, derrubar barreiras. Sempre mais.
Lutamos com nossos instintos para podermos viver mínimamente em paz em sociedade. Deixados a satisfazer todos os nossos desejos íntimos, o mundo seria ainda mais escravista, ainda mais guerreiro, ainda mais faminto.
Não existem duvidas nesse caso: os que não se importam, os que acham que o mundo não precisa de reformas, os que crêem que a miséria é um dado estatístico, esses são pessoas sérias. Riem raramente. Estão sempre ocupados demais para bobagens. São perigosíssimos.
O ato de rir é também um resquício de nossos instintos primordiais. O animal que se vê acuado, enfrenta o próprio medo e a presa, mostrando os dentes em uma defesa que ao mesmo tempo demonstra força, ainda que presumida. Nós também mostramos os dentes ao sorrir e isso revela que estamos serenos e enfrentamos a besta fera do destino. O riso é o medo domado, é a resolução de enfrentar as dores e decidir viver a vida porque se sabe que acaba. Sorrir portanto é a maior sensação de força aliada a um sentido de civilidade que alguém pode provar. Se o escravista não ri mas o escravo sim, está feita a mágica, a transformação contraditória da miséria em beleza que só quem experimentou pode saber o quanto é profunda e importante. É o que nos permite viver e transcender e ir além. Espero continuar nessa linha.
O mundo está tendo mais uma das incontáveis recaídas de egoísmo o qual dessa vez dão o nome de liberalismo e também cresce muito a competição e o espírito guerreiro. Seria um belo desejo esperar menos liberalismo e mais cooperação e entendimento.
O ano está morrendo. Colo aqui as palavras de Sócrates, o filosofo, proferidas antes de tomar o veneno que o matou. Traduzi livremente mas creio que o sentido foi preservado. Todos sabem que ele foi condenado por um tribunal de jurados a tomar cicuta pela acusação de corromper a juventude com seus ensinamentos. Diante da perspectiva de morrer, ele deixou estas palavras:

“Porém é necessário, senhores juízes, que também vós esperais bem diante da morte e tenhais em mente essa verdade, que não pode existir mal para um homem bom, nem vivo nem morto e nada que se refira a ele é negligenciado pelos deuses; até as minhas causas de agora não aconteceram por acaso, mas me é claro que agora para eu morrer e ser liberado do peso da ação e das coisas do mundo era a coisa melhor. Por isso também é que o sinal, a divina voz, nunca interveio para dissuadir-me e eu pessoalmente não sinto nenhum rancor por quem me votou contra e quem me acusou. Para dizer a verdade, não me votaram contra e me acusaram com essa intenção, mas pensando em fazer-me um dano e portanto por isso merecem ser censurados. Todavia, a eles faço esse pedido: Os meus filhos, uma vez crescidos, puni-los, cidadãos, atormentando-os como eu os atormentei, se a vós parecer que se preocupem com dinheiro ou outra coisa que não seja a virtude; e se fingirem-se de ser aquilo que não são, reprovai-os como eu fazia com vós, se não cuidarem daquilo que devem cuidar e pensam de ser algo não valendo nada. Se fizeres assim, eu terei sido tratado justamente por vós e também os meus filhos o serão.
Mas é chegada a hora de ir, eu para a morte, vós para vossas vidas; quem dos dois porém vai em direção ao melhor, isso é obscuro a todos, exceto que ao deus.”

dezembro 24, 2005

Bom Natal, Cremal, Manteigal, Queijal

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Que escorra leite por tudo

dezembro 22, 2005

Ishak ! Saúde!

-ciao!cretino!
-o que foi?
-estou um caco hoje.
-toma um banho que passa.
-vou lavar só o pé...direito.
-deixa que eu o lavo.
-olavo? que olavo?
-quer um uísque?
-é daquele envelhecido em tonéis ...do que mesmo?
-de carvalho.
-é mau.
-o uisque?
-de quem voce perguntou?
-do olavo.
-olavo?
-que caralho!
-e o uisque?
-é puro malte falsificado.
-como ele.
-é.
-e?
-é!
-um brinde?
-um brinde!
-ciao! cretino!

dezembro 19, 2005

A fama mexe com qualquer um

A minha fama como mito sexual durou pouquíssimo. Já estou tendo que afrontar a dura realidade. Isso me deixou deprimido. As pessoas quando estão meio deprimidas, raciocinam em um modo incomum. Isso as leva a fazerem as coisas mais diversas para tentarem se curar. Em termos de auto diagnóstico, a depressão leve acho que ganha de muitas outras doenças. Os tratamentos, são os mais variados também. Eu, quando me vem esse quadro depressivo, tento conquistar uma mulher bonita, agora então nem se fala, eu senti a necessidade disso. Em geral, a depressão me atinge quando não consigo chamar a atenção das mulheres bonitas, por isso a cura vai nessa direção. Por isso se não consigo conquistar a mulher bonita quando estou deprimido, a depressão aumenta e aí tento conquistar uma mais bonita ainda.
Com o passar dos anos certas partes do corpo mudam de consistência, fazem um câmbio, uma verdadeira inversão de valores: aquilo que era duro fica mole e vice versa. Por exemplo, se um era duro de entender e aceitar o fato de que é mais feio que diarréia de gordo, com a idade essa compreensão da realidade, diante de um simples espelho, é mole mole.
Hoje me veio uma depressão. Eram 10 e 32 da manhã e ela veio assim de repente, logo após ler as noticias no jornal. Pensei comigo: preciso encontrar uma garota já. Entrei na primeira loja que encontrei quando saí do escritório às 13. Era um beauty shop e isso já me pareceu um bom começo. Comprei qualquer coisa, um tônico capilar e lixas de unhas e passei no caixa. Ali estava ela. Bela, perfumada, uma imagem de mulher no auge de seu esplendor, um primor da natureza, quase não encontrava mais lugares comuns para descrever a visão daquele ser feminino de raras feições e tez aveludada. Me aproximei e ela me sorriu. Olhei bem fundo em seus olhos. Notei todos os detalhes de seu rosto. As mínimas diferenças de textura da pele, o nariz perfeito na sua imperfeição, a boca plena de contradições e ironias, os cabelos de uma impossível maior beleza. Depois vi suas mãos. Graciosas, delicadas, com os dedos longos e finos e unhas maravilhosas. Todas as unhas eram aparadas e limpas e a parte branca de todos com um milímetro, exceto no dedo anular que tinha 2,4 milímetros. Ela inclinou levemente a cabeça para o lado e tomou a iniciativa:
-São cinco e trinta e dois euros.
-Que maravilha!
-O senhor é que usa lixas de unha?
-Eu? Sim, quer dizer, não. É para uma amiga. Ela está com gripe e tem que fazer as unhas e me pediu...sabe?
-Sim, sei.
-Espere, você não está pensando que eu uso lixa de unhas? Puxa vida, você é tão bonita, quer dizer, eu estava aqui pensando em te convidar pra tomar alguma coisa e quer dizer, se você confunde as coisas fica complicado e eu estou dizendo bobagens mas na verdade eu queria dizer que você é a pessoa mais bonita que eu já vi na minha vida.
-Obrigada. O senhor me deu só dois euros, faltam três e trinta e dois.
-Ah, sim, espere, deixe essa senhora passar que eu quero te dizer algo.

Enquanto ela fazia as contas da velha senhora que comprou tintura lilás para os cabelos, ela sorria e a cada 8 segundos me dava uma olhadinha. Meu rosto estava fervendo, as orelhas queimando. Afinal a velha foi embora e então dessa vez fui eu que puxei a conversa:

-Então quer dizer que faltam dois e tinta e dois?
-Três e trinta e dois.
-Eu queria te dizer que desde o momento em que entrei aqui e te vi, algo fez minhas glândulas se espremerem e injetarem hormônios em minha corrente sanguínea em modo cavalar, por isso eu quero te dizer que algo me ferve dentro e eu quero te dizer que estou queimando e...
-Hahaha, quer que eu chame os bombeiros?
-Sim... não.
-Você não disse que queria me convidar para um drinque?
-Sim, era isso, era aí que eu queria chegar, sim, ufa.
-Aceito, claro, bastava me dizer, hehehe.

Aquilo era o máximo. Que depressão? Transtornos emotivos? O que é isso? Eu estava no céu e caminhava a um metro do chão. Levei-a a um bar perto do seu trabalho. Me disse que tinha 24 anos e estava terminando a universidade. Eu lhe disse que não me importava que ela estivesse terminando a universidade, para mim ela seria sempre uma universitária. Ela disse que não entendeu o que quis dizer e na verdade nem eu mesmo havia entendido. Eu estava confuso, emocionado, em agitação. Ela voltou a falar:

-Sabe, eu agora comecei a estudar a holística.
-Ah, mas eu conheço tudo sobre o assunto.
-Sério? É apaixonante não?
-Sem duvida, sabia que só na Itália são mais de 560 tipos de óleo de oliva?
-Espera, eu estou falando de holistica.
-Eu também, o estudo dos óleos de oliva, não é?
-Não, mas não é essa holistica, é outra.
-Ah, bem, eu já saí da universidade já há algum tempo, sabe? As coisas evoluem muito rápido.

Notei que o seu sorriso perdeu alguns lux do brilho original. Teria eu dito algo de errado?
Ela mudou de assunto de repente:

-Você gosta de cinema?
-Eu? Claro que sim. Adoro.
-Eu amo o cinema de Almodóvar.
-Mas eu também, vi quase todos os filmes dele.
-Sério? Qual Você mais gosta?
-Eu não me lembro bem do titulo. É um em que ele é um lutador de boxe. Tem uma cena em que ele sobe uma escadaria enorme durante um treinamento e depois dá uns pulinhos gritando.
-Almodovar? Ele é ator também?
-Sim, claro, deixa eu me lembrar, já faz tempo que eu vi...Rocky o lutador, esse era o titulo.
-Mas... desculpe... Você esta falando de Silvester Stallone, o maior e mais nojento canastrão de todos os tempos.
-Stallone é? Ah, hehehe, gostou da piada? Nojento ele, não é?
-Você conhece mesmo Almodóvar?
-Eu? Bem, claro... quer dizer... não.
-Você esta tentando me impressionar não é?
-Er.. sim.
-Você já leu Kierkegaard?
-Claro! Claro!
-E Heidegger?
-Desde sempre.
-E B. O. Tonic Fontoura?
-Também.
-Você é um bruto mentiroso não é?
-Seus olhos são como duas pérolas negras em um mar de...
-Chega disso, tenho que ir. Tenho que voltar à loja.
-Entendo.

Ela se levantou e saiu e não tinha mais aquele sorriso maravilhoso e até seu corpo parece que não tinha mais aquela ginga, aquela graça. Olhando melhor, ela até que nem era lá essas coisas. Para dizer a verdade, achei ela feia pra burro, mas quis me enganar, até em respeito a ela mesma. Tá louco, que mulher horrível.

dezembro 17, 2005

Belo dentro e fora

Agradeço as meninas e mostro que sou belo dentro também

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As sinapses encruzadas, as mesóclises paródicas, as politetrafluidificantes palavras difíceis que invento saem daqui.

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Todos temos no nosso íntimo um tesouro.

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Estamos já nos preparando para o top do ano que vem. Treinamento forte, que as vezes causa lesões.

dezembro 15, 2005

Pausa para os comerciais

Esta é uma mensagem publicitária.

Você acorda de manhã, liga o computador e abre teus blogs preferidos e eles te empurram filosofia negativista, ideologia primitivista, negativismo ideológico e primitivismo filosófico? Você pode preparar e tomar um chá bem amargo e depois se matar, ou então visitar alguns blogs joviais, ecléticos e dinâmicos.

Você faz a pausa almoço e depois tenta digerir o bife com fritas lendo blogs e só encontra mal entendidos, brigas, xingamentos e baixarias? Você pode vomitar tudo em cima do teclado ou então visitar somente blogs alegres, bem-humorados e digestivos.

Você tenta se livrar da insônia lendo algo de interessante na blogosfera e se depara com deprimentes depoimentos íntimos, escabrosos casos mal resolvidos, infelicidade em doses industriais? Você pode ir batendo a cabeça na parede até pegar no sono, ou ir aos blogs leves, com mais sabor e seguros de si mesmos.

Você precisa vir para o lixo. O teu lugar é aqui. Agora rodeado de verbeats por todos os lados.

Lixo Tipo Especial, jovial, eclético e dinâmico.

dezembro 13, 2005

A justiça está com uma boa cor hoje.

Não teve jeito, o exterminador do presente mandou mais um para o lado de lá. O caso causa certa repulsa. Um pessoa, Stanley "Tookie" Williams, que vinha de um passado de violências e ajudou a criar quando jovem uma gangue de rua de Los Angeles, acusado de quatro homicídios, dos quais sempre se declarou inocente, foi morto hoje com uma injeção letal. Se não bastasse a pena de morte em si ser já uma abominável forma de vingança institucional, ou seja, o estado agindo como justiceiro, em perfeita contradição com o discurso liberal que diz que o estrado não deve interferir na vida dos cidadãos (e que interferência!), o caso em questão é ainda mais clamoroso por alguns aspectos. Primeiro porque a pessoa que mataram hoje não é a mesma que supostamente cometeu os crimes de quase trinta anos atrás. Mais de vinte anos de cadeia mudam qualquer pessoa. Mas no pais que se diz liberal, e a ideologia serve a isso: fazer crer que as coisas são o seu contrário, o estado deixou um seu cidadão na cadeia por mais de vinte anos e depois, mesmo com sua radical mudança comportamental, o eliminou. Mas isso para os liberais não é interferência ou mão pesada estatal, eles conseguem chamar isso de justiça. A verdade é que no mundo liberal, a liberdade é um conceito muito relativo. Em segundo lugar, quando esse mesmo cidadão estava pronto a contribuir socialmente e ser útil e com isso reparar o custo que representou em passado, vem simplesmente retirado do mundo. Se um è pragmático não pode não considerar isso uma burrice. Em terceiro lugar tem o lado humano. Neste aspecto não tem muito o que explicar. Porque existem os que entendem e não precisam de explicações e os que não entendem, aos quais são inúteis quaisquer considerações a respeito. Um individualista simplesmente não consegue se projetar no outro, insensível, é capaz de tentar até justificar as maiores atrocidades.
O único ser humano que poderia livrar o ex-criminoso Williams era Arnold Schwarzenegger, o canastrão austríaco de direita que faz o papel de governador da Califórnia. O céu não se abriu, o mar continuou onde está e os rios seguiram seu curso. Tudo como previsto, Arnold não se manifestou e está manhã, depois de 22 minutos de agonia, mais uma possibilidade de paz e redenção no mundo se foi. Não sei qual está sendo a repercussão na mídia, pouco estou acompanhando, mas duvido que seja muita. Ele era negro.

dezembro 11, 2005

Aconteceu naquela noite.

O Milton já está chateado comigo porque estou revelando certos detalhes que talvez ele quisesse omitir mas o que vou relatar aqui, depois de refletir muito, julguei que o interesse do assunto supera eventuais indisposições.
Aconteceu na primeira noite que Milton dormiu aqui em casa. Acordei como sempre às três da manhã para ir ao banheiro e notei que do quarto onde Milton dormia vinha uma luz. Uma luz tênue e azulada de um ponto que parecia distante. A porta estava apenas entreaberta e não resisti a curiosidade e empurrei-a de leve para ver melhor. Aquele é o quarto dos meninos e tem quatro metros por três mas me pareceu maior quando olhei. Na verdade pareceu absurdamente maior. Abri mesmo a porta e entrei pois aquilo me pareceu algo extraordinário. Aos poucos meus olhos foram se acostumando com a pouca luz e fui podendo enxergar melhor. Percebi que o que era o quarto de meus filhos estava ladeado por imensas colunas de mármore de seus sete metros de altura. Calculei aproximadamente largura e comprimento do espaço em quinze por quarenta metros. A luz estava no final dos quarenta metros na parede oposta à porta. Lembrava demais o interior de um templo grego. O piso era também em mármore todo decorado em um mosaico de cores. Logo atrás da luz percebi a presença de uma figura humana. Pensei em uma estátua pois era enorme, quase três metros de altura e uma fina fumaça de incenso subia por ambos seus lados. Estive por alguns segundos, ou minutos não sei, ali, tentando entender o que era tudo aquilo. Pensei que fosse um sonho alucinante causado pelo vinho, mas era tudo muito real para ser um sonho. Conseguia sentir o cheiro do incenso, o frio que vinha das pedras, o eco sutil de meus passos, era tudo muito real. Fui me aproximando lentamente da estátua e quando estava a um metro pude ler no seu pedestal: Oraculum Verbeaticus. Levantei os olhos e nesse momento aquilo que no inicio pareceu uma estátua, abriu os olhos e se inclinou levemente para me olhar. Quase não acreditei no que vi. Ali, diante de mim, em carne e osso, o grande Milton Ribeiro. Era ele. Enorme. Seus braços estavam repousados avante como uma esfinge e seu corpo estava deitado sobre o que me pareceu uma mala gigante. Me veio imediata a pergunta:

-Mas..mas você Milton é um pitoniso?
-O que é que está escrito na plaquinha ó babaca? Próximo!
-Como próximo? Ah... mas então é verdade que dá pra fazer só uma pergunta? Puxa vida Milton, só tem eu e você aqui, me dá uma chance de matar uma curiosidade.
-Tudo bem, dessa vez passa, o movimento anda fraco mesmo.
-Mas faz muito tempo que você é pitoniso?
-Desde sempre, ora bolas. Mas somente para assuntos blogais nos últimos tempos.
-Entendo, os deuses lhe sopram as verdades no seu ouvido e você as transmite em forma de enigmas.
-Sim, mas ultimamente a concorrência anda ameaçando minha atividade. Deuses jovens estão me roubando clientes.
-Deuses jovens?
-Sim, um se chama Google e outro Wikipedia, veja se isso são nomes de deuses.
-Pois é.
-Além disso esse oráculo não é meu, pago aluguel pelo templo e está a maior dificuldade. Já me ofereceram pra redirecionar o negócio e trabalhar no ramo evangélico mas ainda não me decidi.
-Nem pense nisso, continue firme.
-Mas afinal qual é tua pergunta? Já estou perdendo a paciência.
-Bom, agora que inaugurei um blog em um condomínio decente e assinei um contrato milionário, quero saber quando é que vou ter a minha caixa de comentários cheia daquelas pessoas interessantes que discutem profundamente os assuntos palpitantes do momento, teorizando e criando espirais de pensamento em um vórtice intelectual que suga toda e qualquer racionalidade para dentro dos assuntos tratados e os reverte em noções importantes e pertinentes.
-Escuta, porque você não volta a dormir? É tarde, são já três e meia.
-Essa é uma resposta enigmática não é? Você quer dizer que... eu nunca... ou melhor... você. bem... O que você quer dizer?
-Que você já está rompendo minhas bolas.
-Mais um enigma não é?
-Sabe que eu acho que vou entrar mesmo no ramo evangélico?
-Agora é você que me faz perguntas. Que louco isso.
-Põe louco nisso. Bem, quer saber mais alguma coisa?
-Só mais uma coisinha. Oraculum não é latim? Não deveria estar escrito em grego?
-Fora, pode sair, chega de me encher o saco.

Dizendo isso, o pitoniso Milton se levantou e apontou seu dedo médio da mão esquerda em direção à porta. Ele era mesmo grande. Me veio um certo medo mas fui saindo andando de ré. O templo estava envolto em uma bruma etérea e as pedras das colunas me pareceram úmidas. Milton também se afastou. Ele parecia ser feito de mármore, mas seus movimentos eram de uma pessoa normal ainda que em pé chegasse a ter mais de seis metros. Sua expressão era sempre a mesma, com mínimas variações. Eu nunca poderia esperar algo de minimalista em Milton mas foi assim que se deram as coisas. Saí e fechei a porta. Estava no mesmo corredor de casa de sempre. Só então percebi que havia feito o xixi nas calças e fui me lavar e trocar.
No dia seguinte e no outro também, Milton era a mesma pessoa de antes, altura normal, pele normal e se comportou como se nada tivesse acontecido. O quarto dos meninos também não apresentava qualquer anomalia. Não encontrei modo de dizer que sabia de seu segredo. Não consegui reunir a coragem para falar-lhe abertamente. Faço-o agora aqui, publicamente, como nos programas de televisão onde as pessoas vão resolver conflitos familiares diante de milhões de pessoas. Espero que ele não se ofenda. Penso que vai saber me perdoar. Quem sabe ele me recomenda em uma oração à nosso senhor Jesus Cristo?

dezembro 9, 2005

Milton Ribeiro e sua herança

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Milton Ribeiro passou por aqui como um raio. Algumas coisas ele se esqueceu de levar de volta. Dois frascos de shampoo, uma extensão elétrica com três tomadas, uma lampadinha e três carrinhos de brinquedo. Quando ele voltar eu devolvo tudo. Mas alguém já viu alguém que viaja e leva na mala uma extensão de três tomadas e uma lampadinha? Depois quando eu digo que ele é esquisito...

dezembro 6, 2005

Megagaláctico

Para marcar a estreia do novo blog, faço aqui um relato breve do fim de semana passado. Logo abaixo estão as fotos do ultra evento. Amanhã posto o filme da assinatura do meu contrato com a Verbeat.

Os últimos acontecimentos foram notáveis. Isso não quer dizer que alguém tenha notado, mas notáveis o foram e isso é já bastante. O blogosófico Milton Ribeiro, mais a sua cara Cláudia, em uma meteórica passagem pelos Alpes italianos, deixaram todos com a certeza de haverem conhecido dois personagens extraordinários. Ou seja, uma extraordinariamente simpática e agradável e outro, extraordinariamente estranho e bizarro. Milton é tão esquisito que vive a repetir que gosta de Bach: “mas Bach, tchê” e faz as malas de um modo todo particular. Além disso gosta de lavar louça, o que em nossa opinião denota algum distúrbio grave. Fora estes defeitos, Milton è cheio de qualidades, com destaque para três: é mais baixo, mais calvo e mais grisalho que eu. Pessoalmente, confirmando o que já se afirmou a seu respeito, é mesmo muito bonito, mas se mostrou desconfortável quando lhe dei os dois beijinhos italianos.

Muita gente supersticiosa poderia fazer correlações que acreditamos absolutamente infundadas, mas por onde passou Milton Ribeiro, a chuva, a neve e o frio foram os maiores dos últimos duzentos anos. Seria algo a se considerar por parte do governo brasileiro para ao menos aliviar a situação do nordeste. Metamos Milton Ribeiro em um tour permanente pelo sertão e não se ouvirá mais falar sobre seca e calor de matar. Só não o deixem se aproximar do litoral, que o turismo iria sentir. O caso é serio, esquiar no interior do Pernambuco deve ser o máximo.

Foram momentos muito agradáveis, apesar do frio polar. Roteiro curto: Rovereto, um giro relâmpago no Mart, museu de arte moderna. Como sei que Milton abomina a modernidade ficamos com o que existe de mais tradicional dentro do museu: o bar, onde tomamos um também tradicional café. Depois, um giro parcial e congelante por Riva e Milton: “mas Bach tchê”. Eu tinha a impressão que estava com um velho amigo, daqueles com quem se compartilham bons momentos. Incrível esse nosso instrumentinho internético de aproximação de gente afim. Eu sempre desconfiei de gente que não ri. Milton e Cláudia sabem rir, por isso não desconfiei nadinha.

No dia seguinte, no sábado, o ponto alto. Iniciamos com um giro por uma Trento inteiramente coberta por 60 cm de neve. Apos um ritual diante da estátua de Dante Alighieri, a bela surpresa com a chegada de Allan do Carta da Italia, dando inicio oficial ao terceiro super hiper megagaláctico encontro internacional blogueiro da Itália propriamente dito. Todos os encontros anteriores terminaram em pizza e este não foi diferente. Milton não parava de dar autógrafos e isso não permitiu que conversássemos muito. Mas pude observar e dou aqui em primeira mão. O grande Milton Ribeiro também come pizza, como qualquer cidadão normal. Eu a Allan trocávamos comentários admirados, enquanto Milton enfrentava a multidão de fãs. Depois de um breve pulo na catedral para uma oração de agradecimento, partimos para a degustação de vinhos em uma cantina. Apliquei o velho golpe do cartão eletrônico que não funciona e Allan pagou a minha conta.

À noite, a grande cerimônia de posse e assinatura do contrato com a Verbeat, com o bom Milton como presidente da mesa e Allan como testemunha. Algumas publicações brasileiras (Manchete, O Cruzeiro e Sétimo Céu) me telefonaram querendo saber o meu salário verbeatico. Registro aqui para que não me liguem mais, pois estou orientado pelos meus advogados e contadores a esconder tudo e nunca revelar a ninguém os números verdadeiros, nem mesmo à receita federal. Ou seja, não me liguem mais, por favor

No domingo fizemos um giro por Milano e quando íamos nos avizinhando do centro, Milton me olhou muito sério e disparou: deixa eu descer que eu vou embora. Claudia ainda tentou argumentar mas Milton estava irredutivel. Apanharam as malas e se mandaram. Assim, sem mais nem menos. Tudo isso só pra nao arriscar de levar mais dois beijinhos. Não há de ser nada, um dia acho que eles voltam. Eu espero que eles voltem.

Fotos do encontro

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A primeira coisa que Milton quis fazer é visitar o local do primeiro grande encontro de blogueiros da Itália. Esse local deve ter algum sapo morto enterrado, porque basta sentar ali para que o desânimo e a depressão se apossessem dos corpos.

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Este é o momento de nossa primeira briguinha. Milton insistia em levar um pouco de neve para Porto Alegre pra mostrar para os filhos e encheu a mala com a mesma. Eu insistia que isso era besteira. Os carregadores do aeroporto roubam toda neve que encontram, ele deveria ter levado na bagagem de mão.

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Debaixo da famosa estátua de Dante Alighieri, um gesto veio expontâneo. Será que o fato de ter sido obra de Mussolini, tem algo a ver?

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Já com a chegada de Allan, Milton começou a se comportar melhor e parou de reclamar de tudo. Allan veio com seu boné de confederado e isso penso que intimidou o gaúcho.

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Diante da catedral de Trento, onde os melhores bispos do século XVI fizeram suas orações, fizemos nossa melhor pose de blogueiros brasileiros na Italia.

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Na hora do almoço blogueiro, nos dirigimos a melhor pizzaria holandesa da cidade, propriedade de um coreano fresco que obriga todos a usar chapéus anti caspa, para proteger as pizzas da nojenta poeira. Ficamos muito animados com isso e a foto comprova.

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Um brinde entre amigos é sempre algo que enche de prazer. Até a próxima.