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-Estou esgotado, cansado demais, tenho

-Estou esgotado, cansado demais, tenho trabalhado muito e a conseqüência por querer dar o melhor à minha família é que não estou resistindo fisicamente. Corro como um danado mas estou sempre atrasado. Durmo pouquíssimo e pra isso tomo oito cafés por dia. Não sei até quando posso aguentar esse ritmo. Se por um lado quero proporcionar uma boa vida a vocês, não quero morrer cedo e deixá-los na mão, entende o paradoxo?
Enquanto eu dizia isso à minha mulher, me vestia e olhava a tela do computador que descarregava a foto do satélite. Queria ver se chovia aquela tarde no lugar onde deveria ir. Teria cinco encontros e alguns no canteiro de obras e por isso... ei essa camisa não está passada pelo amor de deus! Problemas práticos, obstáculos aos montes. Minha mulher me olhava com um misto de ternura e riso irônico e me disse secamente:
-Pegue este cartão, é do dottor Paione, você deve passar lá no consultório dele às 19, ele vai te ajudar, te garanto.
Saí correndo com a camisa amassada mesmo e cumpri meus compromissos, inclusive com os cafés. Consegui chegar ao consultório às 20 e 15 pensando que não seria mais atendido. No entanto o próprio dottor Paione estava ali a me receber, vestido todo de branco. Me pareceu um homem muito tranqüilo e equilibrado. Foi dizendo de pronto:
-Tua mulher me disse que você chegaria às 20 e 30, que bom que veio mais cedo.
-Puxa vida, que legal, ainda deu tempo. Demora muito a consulta? Eu tenho uns trabalhos pra terminar essa noite.
À minha pergunta o doutor sorriu e me fez entrar no consultório. Era uma sala muito agradável, com luz indireta e sofás no lugar das tradicionais mesa, cadeiras e maca. Depois de quinze minutos de conversa, que me pareceu informal, o dottor Paione me traz uma receita e dois tubinhos com pastilhas.
-Tome uma dessas vermelhas quando acorda e uma destas azuis antes de se deitar pra dormir.
-Isso vai curar meu stress?
-Não só isso. Aqui está o endereço de meu colega, dottor Comemai, que te ajudará no tratamento. Am... você vai querer fatura?
-Sim, porque?
-Melhor sem fatura, este é um tratamento alternativo que fazemos só para amigos chegados.
-Ok.
Disse ok mas algo me dizia que alguma coisa estava torta. De qualquer maneira, me dispus a fazer o tratamento proposto. Mas a pastilha azul, naquela noite não tomei. Tomei a vermelha quando acordei no dia seguinte. Fui direto ao consultório do dottor Comemai. Aquele me pareceu um consultório de verdade. Secretária, sala de espera, revistas velhas. Na plaquinha dizia que o dottor Comemai era acupunturista. Isso me deixou apreensivo e curioso. Mas estava calmo, talvez já efeito da pastilha vermelha. O dottor Comemai era barbudo e aparentava 60 e poucos anos mas com um ar bem jovial. Me deu um abraço quando entrei e pude sentir o seu hálito um pouco esquisito. Me disse que conheceu o Brasil anos atrás quando terminou o seu serviço na guerra do Vietnã. Fez cinco anos no Vietnã e depois mais dois no Rio Grande do Norte, perto de Mossoró. Em seguida me fez falar a respeito de meus problemas. Eu disse que estava trabalhando demais, só isso, mas nada que me deixasse doente no sentido clássico do termo, só um cansaço um pouco exagerado, apesar de estar sempre a mil por hora. Na verdade é mais minha mulher que...
-Parado, não diga mais nada! gritou o dottor. - Já entendi tudo! Está impotente.
-Como está impotente? Eu não, ao contrário, tenho muito vigor. Se me deixar terminar de falar...minha mulher reclama que sou muito ativo, tudo o contrário...entende?
-Nesse caso, a cura é simples. Está tomando as pastilhas do dottor Paione?
-Sim, comecei hoje.
-Ótimo, agora fume isso aqui.
-Fumar? Eu parei de fumar.
-Recomece, é o tratamento.
-Mas é grande esse treco.
-E é do bom.
-Cof, cof.... mhas dhotthor mhe pahreceh fhorthe phra bhurrho.
-Vai te fazer bem, soldado.
-Sohldhadho? Cof,cof...caimmmhh.
-Quis dizer: amigo.
-Dottor, a amizade é o principio de tudo e até faz com que a gente se meta a blusa ao contrário, hehehehe.
-Isso, ria que faz bem.
-Hehehehe, faz bem, hahahaha, Fala de novo: faz bem. Hehehehe Faz bem! Hehehehehe. Que frase dottor: faz bem, hahahahahahahaha.
-Com você faz efeito rápido o tratamento, estou gostando.
-Faz bem, hahahahahahahahahahahahahaha.
-Voce tem compromissos para hoje?
-Sim, tenho, hahahahaha, tenho duas reuniões, hahahaha. Faz bem, hahahahahaha.
-Ok, você vai nestas reuniões como se nada tivesse acontecido e amanhã você volta aqui pra gente continuar o tratamento.
-Vou lá, mas e as agulhas? Você não é acupunturista?
-Sim, mas no teu caso nem precisa.
-Faz bem, hahahahahahahahahahahaha.
Saí de lá me sentindo outro. Voltei pra casa pra me trocar antes de ir à minha primeira reunião do dia. Encontrei meu vizinho Renato nas escadas. Disse a ele:
-Bom dia Renato, você viu como as escadas estão flexíveis hoje? Gostei desse balanço.
-Que balanço? Tá louco?
-Hahaha, Renato, sempre brincalhão. Bem, vou tomar um banho e sair.
-Faz bem.
-Hahahahahaha, você também? Hahahahahaha.
Renato me parecia um pouco preocupado. Pensei em recomendar o tratamento a ele também, mas deixei pra lá. Durante o banho de meia hora, pude rever na cortina do box, um filme de quatro horas com Walter Mathau e Jack Lemmon. Ri muito e as melhores gags se repetiam inúmeras vezes. Que cortina legal. Depois de comer oito sanduíches de pão com mortadela me veio o sono e como o dottor Paione tinha me recomendado, tomei uma pastilha azul. Quando acordei uma hora depois, tomei uma vermelha, tudo conforme o prescrito. A reunião era ao meio dia e previa um almoço à uma hora com o pessoal da empresa. Eu iria apresentar um projeto da nova sede dessa empresa que produz motores de barco. No caminho notei que tinham pintado o asfalto de vermelho e gostei muito pois uma voz me dizia que essa idéia era minha e eles a roubaram. Não faz mal, tenho outras idéias, podem roubar a vontade. As abelhas que conservo no porta luvas estavam fazendo um barulho estranho e deixei que elas fizessem um giro pelo carro. Se acalmaram e uma chegou a dizer que me amava. A estrada estava naquele dia mais longa que o normal. Cheguei ao meio dia em ponto. Estava no horário e entrei dançando pelo saguão. Isso sempre traz felicidade e estava gostando de irradiar assim a minha alegria. Todos na recepção riam, que bom. Me dirigi à recepcionista:
-Bela mulher com samambaias no cabelo que reunião tenho eu que fui agora?
-O senhor é o arquiteto?
-Certo certo certo certo certo certo

-O aguardam na sala de reuniões. Logo ali no final do corredor
-Vou a pé mesmo. Ando bem a pé. Vou com os dois pés. Fim do corredor. Ah, senhorita, tem banheiro ali?

-Sim, é a primeira porta à direita
-Sim, os queijos resolvem muitos problemas e não vivem em pecado. Ajude-se!
-Desculpe?
-Certo certo certo
Foi a melhor reunião de trabalho de minha vida. No final diziam que eu era excêntrico, criativo, muito engraçado e em resumo: genial. Que fantástico. Estava tudo correndo às mil maravilhas quando chega meu sócio Geraldo para o almoço e estraga tudo. Disse que eu havia apresentado o projeto errado e ainda por cima insinuou que eu estava me drogando. As pessoas quando não tem mais argumentos, vem já atacando tentando diminuir o oponente. Ele estava claramente tentando destruir minha boa imagem e sabe-se lá com que objetivo. Eu lhe disse com convicção:
-Escute aqui meu caro amigo, o passarinho irá te levar daqui voando. Deixa eu destampar tudo aqui que você vai ver
Nesse momento, o diretor da empresa interveio:
-Ele tem razão Geraldo, afinal os problemas societários entre vocês não nos compete e afinal gostamos muito do projeto apresentado
-Mas ele te apresentou um projeto de cemitério, você não sacou as tumbas?
-Quando eu perguntei se aquilo eram as ilhas de produção ele disse que sim, que ali se produzia muito e usou um termo...disse que... quem produz...faz bem e riu. O teu sócio é ótimo Geraldo
Meu sócio não se conformava com meu sucesso. Mas aquela cena que estava armando tinha sido o cúmulo. Eu tinha que agir, fazer algo antes que a situação precipitasse. Me lembrei que a dança anima o ambiente e alegra as pessoas e então puxei o diretor e começamos a rodopiar pelo salão. Algumas mesas caíram, é claro, mas foi tudo dentro da coreografia, no ritmo. O diretor não sabia dançar muito bem, de modo que eu tinha que conduzi-lo, usando mesmo um pouco de força. Ele gritava de alegria. Os garçons também dançavam. Estranho que dançavam um twist bem em cima do espaguete que caiu no chão. Aquele restaurante a partir daquele momento perdeu toda aquela atmosfera formal e todos caíram na gandaia. Ninguém permaneceu sentado. Garrafas voavam, pratos eram atirados em minha direção. Penso que se tratasse de alguma forma de dança étnica, grega eu acho. No melhor da festa, apareceram alguns policiais, não se sabe como, e levaram quase todos pra delegacia. Me levaram primeiro para o hospital pois eu tinha levado uma pratada na testa e estava desmaiado. Assim que acordei no pronto socorro, tomei uma pastilha azul e uma vermelha. Uma porque acordei e a outra porque não tive tempo de tomá-la antes da pratada. Chegando na delegacia, bela, toda decorada com peixes e limões, encontrei os meus dois médicos, que estavam algemados dentro de uma cela. Eu ri durante quarenta minutos e depois que as cãibras no estômago passaram, pude dizer ao delegado:

-O fixo total... temo que sim... abstinência de tudo... como regra, entende?
Bem, isso já faz um mês. Saio amanhã da clinica de recuperação e parece que meu sócio entendeu tudo e vai me dar uma chance, mas a conta do restaurante vou ter que pagar sozinho. Eu também o desculpei pela crise de ciúmes que ele teve. Bem, amanhã reencontro minha mulher. Minha mulher... foi tudo idéia sua. Minha mulher que me meteu nessa. Acabo de ter uma idéia. Uma idéia simples, mas eficaz. Já sei o que fazer com as pastilhas que sobraram.
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