A carta dele começava
A carta dele começava mais ou menos assim:
“Estima, consideração e apreço são sentimentos nobres que me invadem a alma, porém são palavras pobres para exprimir tanto amor, tamanha paixão que tenho por você”
Achei muito formal, muito “manual de como escrever cartas”. Bem, era a primeira carta que ele mandava pra mim desde que eu fui transferida aqui para o interior. Achava que com o tempo as coisas iam melhorar. Respondi-lhe no dia seguinte e toquei de leve no assunto. Disse que poderia se soltar mais, escrever como se estivesse conversando comigo. Duas semanas depois recebí outra carta. Havia melhorado um pouco:
“Sem você por perto é como estar vivendo em um cemitério. Tudo está sem vida, sem graça. Fico horas e horas parado na calçada do colégio onde você lecionava, recordando nossos bons momentos juntos”.
Ainda estava um pouco formal, mas é claro, a gente tem que dar um desconto, pois ele foi educado num esquema muito rígido, colégio de padres e agora é funcionário do Ministério do Trabalho. Escrevi-lhe que me orgulhava do seu esforço e que havia achado muito melhor o seu estilo. Claro, a gente tem que elogiar para a pessoa se sentir segura e prosseguir. Disse também que ele poderia dispensar as analogias , as metáforas, as alegorias e as hipérboles, pois eu sabia o quanto ele me amava e não precisava tudo aquilo. Dei nota 6 pra ele.
A carta seguinte chegou logo e já revelava um enorme passo adiantre no que se refere à limpeza do texto:
“Sabe quem eu encontrei ontem em frente ao colégio? A Nice, a professora, sua ex-colega. Me fez lembrar de você....”
Escrevi na mesma hora. Bravos! Estamos progredindo muito bem. Direto ao assunto, sem frescuras, sem salamaleque. Só uma coisa me incomodou um pouco. As reticências. Ficou meio ridículo. Uma tanto inacabado, meio bobinho. Mas , de resto, nota 8.
Não deu uma semana e veio a carta nota 10:
“Acabou. Tô com a Nice. Tchau”.
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