Outono é bonito e estranho.
Outono é bonito e estranho. Você abre a janela porque está meio quente e vem um vento gelado e te faz sacolejar tremendo. Fecha a janela e o ciclo recomeça. No outono você tem um relacionamento intenso com a janela.
Quando dizem que um está no outono da vida é porque os urubus já se vêem lá no alto. Um tempo onde as coisas vão definhando e perdendo o brilho. Uma imagem um tanto negativa que no final das contas é uma injustiça. Porque é uma estação belíssima e se para nós seres humanos que um dia ou outro acabamos, o outono é triste porque nos lembra a morte, para a natureza é apenas mais um de seus ciclos.
As folhas amarelas pelo chão, as diversas tonalidades de vermelho das copas das arvores, a bruma que marmoriza a paisagem, tudo convida ao recolhimento e a reflexão.
Reflito que o mundo vive um outono. Espero que seja um dos seus ciclos e não o outono de nós humanos. Está tudo muito estranho. Hoje a noticia que morreu um papagaio na Inglaterra deixa o mundo em polvorosa. Quando é que eu me preocupava com um papagaio que morreu na Inglaterra? Dizem que não devo me preocupar, não existe motivo para alarme mas pode ser que em um futuro breve uma pandemia possa propiciar para milhões de pessoas o mesmo fim do papagaio. Bem, mas devo ou não me preocupar? Não, desde que tome vacinas e compre remédios. Ah, sim, na duvida, a indústria farmacêutica garante lucros fenomenais. E não é que estas coisas se encaixam? Bem, deixa pra lá.
No Brasil se fala de desarmamento. Como sempre e como tudo o que se propõe no país, a idéia é ótima, avançada moderna e civilizada, mas não vai dar certo. A política do medo ainda dita as regras sociais. Fala-se de bandidos como uma entidade mítica que está fora da sociedade e que entra nas casas com o prazer de matar. Os bandidos ao contrário, são parte integrante da sociedade, são cidadãos brasileiros quer isso seja do agrado ou não. O discurso dos “homens de bem contra bandidos” só revela o quanto o Brasil tem ainda que caminhar no sentido de avançar socialmente, fazer diminuir a desigualdade. Isso sem falar que muitos dos bandidos usam gravatas e nunca empunharam uma arma. O que não se percebe é que a proposta do “não” visa socializar o medo e privatizar a segurança. Cada um pra si. Sem armas como vamos fazer, deus do céu? Eu nesse caso, se um terrível bandido entrasse em casa, usaria o papagaio. Mais uns meses e o papagaio vai se transformar em arma temida por todos.
Ah, o mundo e seu outono.
Aqui na Itália a confusão sempre foi de casa mas nunca como agora. Para se ter uma idéia o PSI, ou seja, Partido Socialista Italiano, está fazendo um congresso de bate bocas furiosos pra decidir se fica com a esquerda ou com a direita. Eles saíram do governo Berlusconi que é praticamente fascista e estão pensando em se aliar aos liberais ou à coalisão de esquerda. Isso é que é coerência ideológica. Ninguém se entende mais. E poucos são os que tem informação de boa qualidade. Segundo a organização Reporters sans frontières, a Itália está no 42º lugar da classificação dos países no que se refere liberdade de imprensa. Posso confirmar que as informações que chegam ao cidadão comum são mais filtradas que o vinho que ele bebe. O Brasil também não está muito bem no ranking, ocupando o 62º posto, atrás de Albânia, Botsuana, Timor-Leste, Niger, Croacia e outros.
Temos entre nós e a realidade, o poder.
Levanto e vou abrir a janela, a ar está pesado.
Parou de chover e as nuvens cobrem a metade superior das montanhas. Elas estão sempre lá, as montanhas. Mesmo quando não as vejo, sei que estão lá. As nuvens é que vem e vão. Fabrizio de Andre falava das nuvens. “As vezes elas cobrem o céu por tanto tempo, que não se pode ver nem o sol nem as estrelas e não sabemos nem mesmo onde estamos. Mas elas se vão. O seu poder é efêmero, passageiro. Elas vem e vão e para uma verdadeira, mil são falsas e se colocam ali, entre nós e o céu, pra nos deixar somente, um desejo de chuva”.
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