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Há mais ou menos quatro

Há mais ou menos quatro anos eu estava em uma rua do centro de Trento. Havia apenas estacionado o carro e me dirigia meio distraído para meu compromisso andando em passo lento já que havia ainda alguns minutos. Quando viro a esquina de via Alfieri que vai dar em via Roma, vejo um bando de hooligans estranhos com roupas vermelho/amarelas. Pensei que fosse uma torcida de algum desses times de futebol e segui com a cabeça meio baixa para não me comprometer cruzando olhares com esses seres esquisitos mas também sem querer demonstrar minha indiferença a qualquer coisa que se refira a futebol. Mas quando estava a 10 metros dessa turma de uns onze, doze carecas, pude perceber melhor se tratar do Dalai Lama e sua troupe. Ele passou por mim mas não tinha aquele sorrisinho legal de sempre. Me lembrei que por aqueles dias ele estaria mesmo na cidade e depois me arrependi de não ter ido bater um papo com ele. Pensando melhor ainda, acho que os outros dez carecas iriam me encher de porrada se eu me dirigisse a ele, mas isso não tenho certeza, mas que era uma segurança meio disfarçada, isso era.
Pois o homem voltou ontem à Trento, vai ver que gostou do clima e da comida. Fez à tarde uma conferência concorridíssima. Reclamou do calor e disse que queria ter ficado no hotel que tem ar condicionado, se coçava a todo instante e assoou o nariz na frente do microfone gerando um rumor enorme. Mas fez tudo isso com graça e com um sorriso maroto que era desarmante. Grande figura esse Dalai, muito bem humorado. Quando recebeu chocolatinhos de presente, se levantou e os distribuiu aos circunstantes. Fez estes gestos com naturalidade, como se estivesse na sala de casa sua e não em um palco diante de duas mil pessoas, entre as quais as mais altas autoridades da região. Deve ser muito legal ser uma santidade e fazer o que der na telha.
As ditas autoridades, a começar do presidente da província que curiosamente se chama Dellai, em um quase parentesco fonético com o homenageado, salientaram a total solidariedade para com o povo tibetano em confronto à politica imperialista e intervencionista chinesa. Não só isso, ofereceram também apoio político, técnico e material aos tibetanos no exílio, para que se organizem e resistam na luta. Ofereceram além disso e principalmente a história dessa região, também desde sempre motivo de conflitos e disputas. Hoje, o Trentino vive sob um status de província autônoma, exatamente porque ao fim da primeira guerra foi esse o mecanismo político-institucional possível em um território castigado e com tantos proprietários em potencial. Este pedaço do planeta aqui já foi do império romano, depois passou em mãos dos bárbaros vários, uma parte foi da Repubblica de Venezia, depois passou ao poder da igreja católica com seus príncipes-bispos, depois à Napoleão que deixou sua marca, em seguida ao império Austro-húngaro e depois somente em 1918, à Italia. A grande resistência durante todos estes períodos foi feita com o software, ou seja, a cultura, nas manifestações coletivas de integração e reconhecimento e que forjaram um povo à prova de conquistadores. Ou quase, já que hoje a conquista se faz também com o software e tudo é meio uma salada. Bem, este é já um outro assunto. Porém uma prova da possibilidade de convivência e integração, veio já no inicio do incontro com a saudação ao homenageado em três linguas, o que provocou um comentário da parte do Lama: Fui saudado em três linguas, entendo que sendo assim, neste lugar as coisas aconteçam muito lentamente. Foi o primeiro grande aplauso da platéia.
Parece que o Dalai Lama se interessou muito nesse estatuto de província autônoma e esta, segundo ele, seria uma boa saída para o Tibet. No início ele falou muito de filosofia e religião e salientou que nós ocidentais buscamos e muitas vezes conquistamos muitos bens materiais mas no fundo somos infelizes pois nossa busca se limita a isso. Não fazemos uma conquista interior que nos permita ser o que somos e com isso alcançar um estado de felicidade. Disse que o amor é ou deveria ser a base de todas as relações. Se algo nos agrada, amamos esse algo, mas se algo nos traz desconforto, tendemos a odiar isso e este é um erro, segundo o carequinha. Devemos amar a possibilidade de transformar a má situação em boa situação e seguir sempre em modo positivo. Disse isso e muito mais durante uma hora para somente nos últimos cinco minutos falar de política e dizer, muito coerentemente, que torce pela China. Quer que a China cumpra seu destino como império e potência econômica. Mas para que seja completa a glória Chinesa, ela deve fazer o gesto forte e demonstrar que é um país maduro e que busca a paz, liberando o Tibet. Ou seja, se a China quer ser a potência que se prefigura, deve querer também o respeito e o consenso das nações. O Tibet autônomo é a sua melhor chance de conquistar tudo isso.
O seu chamado mais enfático era sobre algo que parece a cada dia rarear: ética. A ética nas relações deve buscar uma ligação entre seres humanos, sem hegemonias ou busca de poder. A ética pressupõe responsabilidade e esta é mesmo mercadoria em falta no mercado.
O lider budista, chamado “Oceano de sabedoria” deixou o quentíssimo auditório Santa Chiara, sob uma chuva de aplausos. Uma standing ovation. Apesar de seu discurso incluir a noção que a renúncia ao dinheiro é uma das chaves para a felicidade, a província de Trento destinou trezentos mil euros para ajuda ao Tibet em 2006. Claro que o “Oceano” disse também que a riqueza bem distribuída não chega a ser um problema. Além disso trezentinhos são bem pouca coisa para se falar em riqueza mas é sempre uma ajuda e demonstra o quanto a região se interessa pelo problema. No final disse que o egoísmo e a ganância é que fazem a vida na terra um inferno para muitos. Ao contrário, o altruismo transforma a raiva em harmonia, a violência em não-violência, a guerra em paz. Comecei a gostar desse cara.
Meu relato è todo feito com minhas palavras e citações à memória, não sou jornalista e se percebe. Quis apenas dar uma idéia do que se passou ontem por aqui. Foi muito interessante. Da próxima vez que eu cruzar com o Dalai Lama pela rua, vou falar com ele. No mínimo um chocolatinho acho que ganho dele.
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