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Era já uma semana que

Era já uma semana que eu ouvia um ronco forte de um motor de moto, debaixo de minha janela mas não sabia de quem fosse. Pois hoje acabo de retornar do funeral de meu vizinho Renzo. Era dele a moto, comprada há exatos dez dias. Uma moto versão de estrada de um modelo de corrida, igualzinha à que usa Alex Barros, de edição limitada. Um monstro de potência. Talvez Renzo não tenha sabido dominar essa potência, ou talvez tenha sido traido pela falta de reflexos que os seus 57 anos inevitavelmente portavam. O fato é existe aquela curva na estrada e mesmo que em subida, a moto de Renzo deixou uma marca de freada de 50 metros antes de terminar contra um muro de pedra. Não saberia calcular em que velocidade viajava, mas seguramente era tanta. A moto era seu brinquedo desde muito tempo e a parte os últimos segundos, penso que tenha morrido fazendo algo muito prazeroso. Mas mesmo assim, parece que não é justo. Parece que não merecemos acabar, ainda que saibamos que é inevitável. Porque eu vi a dor no rosto da mãe do morto e não me pareceu mesmo justo. Olhei nos olhos da sua mulher e dos filhos e não deu para entender nem aceitar. Me coloquei no lugar de cada um desses personagens, inclusive naquele dentro da caixa e não me pareceu justo mesmo. Mas desde quando a vida foi justa, ou equilibrada, ou coerente? Só pude pensar que nada é mais importante que estar vivo e estar com quem se ama. Quantas asneiras serei obrigado a assistir ou ler ainda, obra de gente que não entendeu nada disso e talvez nunca venha a saber. Quanta energia se gasta com as coisas mais banais e fúteis desse mundo e que são tratadas como fundamentais ou importantíssimas. Quantos fazem pose de leão enquanto sei que são cordeiros. Pensava nisso quando ao final da cerimônia, a filha mais velha, a que tinha casamento marcado para daqui a um mês, fez uma ultima homenagem ao pai, lendo um texto. O que me marcou foi que dizia que nos últimos tempos, seu pai deu para escrever frases e queria quem sabe escrever um livro de máximas. Uma delas, a que a filha leu, dizia: “Se quisermos mesmo estar unidos, devemos aprender a dividir tudo”. Depois disso a filha chorou e na verdade, acho que todos ali também. Uma moto, uma curva, levaram esse homem que tinha ainda planos, talvez já pensando na aposentadoria que viria daqui a alguns meses. Não pude deixar de pensar que um dia estarei também eu ali deitado e algo me disse que hoje devo viver essa dor, esperando que o sol volte de novo amanhã. Horas depois reencontro a agora viuva aqui no condomínio e nos abraçamos de novo. Ela ia acompanhar o corpo até o crematório. Eu não sabia o que dizer e ela indicando meus filhos me disse: Se quisermos mesmo estar unidos, devemos aprender a dividir tudo. Basta por hoje.
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