As coisas vão como deus
As coisas vão como deus manda e permite e vai tudo bem graças a ele e a nós também. À parte aquilo que não vai bem é claro. Vamos levando a vida assim cheia de clichês e frases de efeito que é para amenizar a dor. Muito calor, pouco trabalho, mas são férias, não poderia ter mesmo trabalho, mas o trabalho é pouco mesmo fora das férias de modos que nas férias parece que não tem nada pra fazer. Talvez ouvir de novo Lilly. Já fiz os Pink Martini tocarem vinte vezes hoje, mas vamos ouvir de novo. Porque o ouvido ainda funciona. Ao menos isso. Me lembro que devo consertar a tampa do reservatório da gasolina do carro. Me lembro também que já substituí a tampa mas quero consertar a velha para quando quebrar a nova. Olho para ela e deixo para amanhã. Penso que minha filha está virando mulher e já usa sutiã e absorvente. Vou para o espelho e noto mais três cabelos brancos.
Lilly comes when you stop to call her
Lilly runs when you look away
Lilly leaves kisses on your collar
Lilly, Lilly, Lilly, Lilly, stay!
Abro o jornal, fecho o jornal. Ligo a tv. O rádio também. Me sento no sofá e toco algo no teclado enquanto ouço as notícias. Os meninos estão muito barulhentos hoje e os mando ficarem quietos. Desligo tudo e abro o jornal. Leio uma notícia que se refere à Cristina, a garota que corta meus cabelos. Ela anuncia que não se matou como andavam dizendo por aí e ao invés disso goza de ótima saúde. Puxa vida. Anteontem mesmo eu liguei pra marcar um horário e ninguém atendeu. Juro que pensei que tinha morrido. Boato é algo que faz mal mesmo, dizia Bogart em “Deadline Usa”:” That’s the power of the press, baby, the power of the press. And there’s nothing you can do about it”.
Internet. Acompanho o desenrolar dos episódios de denúncia de corrupção atribuidos a membros e não membros do governo brasileiro com pouca alegria. O que me chama atenção porém é o destaque que se dá aos atores desse teatro e pouco ou quase nenhum à trama e ao plot dramático do entrecho. Casos de corrupção no Brasil não são novidades. Nossa história parece ter sido fundada na exploração do que é público por parte de poucos privados. Em geral, o lucro é privado e o ônus é publico e quase que exclusivamente a cargo dos mais desafortunados. Aí reside meu espanto. Anos e anos de história de saques, derramas, fraudes, maracutaias, superfaturamentos e tudo o que mais se possa imaginar na matéria, não foram ainda capazes de fazer a gente que paga essa conta se indignar e efetivamente conter a sangria.
Vejo as matérias de jornais com títulos “fulano fez isso” “beltrano fez aquilo”. Não vi ainda nenhum que dissesse “ porque nós permitimos isso ainda?” ou “como é que nós não acordamos em tempo?” ou ainda “ quantas vezes nós ainda vamos permitir isso?”.
Lilly comes when you stop to call her
Lilly runs when you look away
Lilly leaves kisses on your collar
Lilly, Lilly, Lilly, Lilly, stay!
Sim, mas a culpa é sempre dos outros. Isso conforta e nos isenta de pesos na conciência. Lembro que eu preciso de conforto. Boto uma almofada na cadeira e me parece já melhor. O peso não só de minha conciência estava forçando a bunda. Olho para o lado e ouço o Enio, meu vizinho, gritando: Doente! Doente! Não jogue sua loucura pra cima de mim! Pensei imediatamente que estivesse me chamando e fui à janela, mas não. Ele estava falando com o seu vizinho de cima, um que è anti-social e tem uma mulher horrível. Não saquei qual era o motivo da briga e vim pra dentro. Logo depois ouço de novo o Enio e volto à janela, isso está movimentado hoje. Era ele explicando aos policiais que já são anos e anos que caem coisas nojentas em cima das suas roupas no varal. Os policiais tomam nota de algo e vão embora. A vida em comunidade está cada dia mais difícil. Minha barriga dói um pouco e eu já sei o que é. Olho para o outro lado e vejo que o outro vizinho do lado está serrando os galhos da figueira, mas só aqueles que chegam até nosso condomínio. Me disseram outro dia que ele faz isso porque o Enio vai lá comer figos e ele odeia o Enio.
Decididamente, hoje não é o dia do Enio.
Lilly comes when you stop to call her
Lilly runs when you look away
Lilly leaves kisses on your collar
Lilly, Lilly, Lilly, Lilly, stay!
Vou parar de ouvir essa música antes que alguém chame a polícia também. Tento entender o caso dos bancos italianos e diante da nova crise, Berlusconi se esconde da mídia e aproveita para implantar novos cabelos. Volto ao espelho e arranco os três fios brancos. Enquanto isso, um ministro italiano, querendo fazer bonito aos dois patrões, declarou que a Itália está mais para Texas que para Massachussetts. Alguns analistas internacionais pensaram que ele estivesse querendo dizer que Italia vai de mal a pior mas não, ele disse isso como algo realmente fantástico. Uau, que fantástico. Esse cara é ministro e eu, de férias, tenho que ler isso. Ah, pouco trabalho. Sou workaholic e estas férias já duram dois dias e eu estou ansioso. Vou inventar um cliente que me dê um projeto a fazer. Quem sabe este cliente me permita algo que outros mais babacas não conseguem entender. No fundo o babaca sou eu que ainda não lancei meu estilo ao mundo. Nem no blog tem meus projetos. Nem eu mesmo me levo a sério, não seriam outros que o deveriam fazer. Sim, deveriam fazer sim. Todos devem me levar a sério e me reverenciar. Ai, o que estou dizendo? Acho que todo o figo que comi está pesando, a barriga ronca. Ligo à Cristina e ninguém atende. Será?
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