Ligo o laptop agora depois
Ligo o laptop agora depois de algumas horas. Estou preso mas por sorte estou sozinho na cela. Faço este relato para servir de orientação ao meu advogado e também para publicar, tentando com isso sensibilizar a opinião publica no sentido de demonstrar que tudo não passou de um tremendo mal entendido além de uma certa dose de, como dizer, má sorte. Isso, espero, ficará claro com o que escrevo aqui e espero também poder fazer ver a todos que a minha intenção foi sempre das melhores e que sou um cidadão honrado e respeitável. Tudo tem início quando um fulano me pede uma indicação na rua, queria saber para que lado era o hospital pois havia levado um tombo e sentia o pulso meio dolorido. Eu, só querendo ajudar, não só lhe indiquei o hospital que não estava assim tão longe mas também tentei ver o pulso a fim de verificar a gravidade da lesão. Me lembrei de meu curso de primeiros socorros e aplicando as técnicas ali aprendidas dei um puxão em sua mão a fim de endireitar as juntas deslocadas. Claro que fiz isso de surpresa para que o pobre não retesasse os músculos e estragasse o movimento. A despeito de meus cuidados e de minha acurada precisão, os ossos do meu paciente se romperam em um estalo seguido de um guincho agudo, este feito com a boca. Disse prontamente que mantivesse a calma que tudo estava sob controle. - Viu que estava mesmo quebrado o pulso? disse a ele, foi bom verificar isso logo antes que começasse a infeccionar. - Como infeccionar se eu estava a caminho do hospital? o senhor me arrebentou o pulso, disse fazendo caretas. - Não se preocupe com nada, eu mesmo o levo até lá. - Acho melhor não. - Eu insisto, já pude perceber que o senhor é um pouco desastrado e não deve arriscar. Dito isso o ajudei a entrar em meu carro. Tive que usar uma certa força já que ele era um pouco pesadinho e continuava a espernear e a gritar a palavra não, repetidas vezes. Como tem gente caprichosa. Nesse momento o destino fez mais uma de suas brincadeirinhas fazendo com que o pescoço do senhor ficasse enganchado no cinto de segurança enquanto eu o puxava pelo outro lado. Como já vinha berrando, não me liguei no estiramento do mesmo e só fui perceber quando vi que a sua cabeça estava inclinada para o lado esquerdo de modo muito acentuado. Minhas aulas de psicologia me deram a calma necessária para enfrentar esses momentos assim como me deram também a sugestão do que fazer. Disse em modo bem calmo a ele: - Esteja bem tranqüilo agora que ajeitamos também o pescoço. Quer ver que nem sentirá nada? Quando assustar terá já acabado. - Acabado? Você vai acabar comigo seu doido! Tire as mãos de cima de mim. Polícia, bombeiros, socorro! - Você está tendo uma crise de pânico, o teu superego está descontrolado e o id está querendo tomar as rédeas e não podemos esperar mais, devemos fazer uma terapia gestalt aplicada bem aqui no pescoço. Enquanto dizia “pescoço” eu lhe apliquei uma chave de braço voando de repente sobre ele e dessa vez obtive um sucesso incontestável. O alívio foi tão grande que ele pegou no sono na hora. Aproveitei que ele repousava e parti como um raio rumo ao hospital. Encontrei a entrada das ambulâncias e me meti ali dentro com a mão na buzina. Vi quando vieram correndo quatro enfermeiros de lá de dentro. Como são eficientes, pensei. Um deles dizia palavrões em voz muito alta, talvez pela emoção do momento. Não conseguia ouvir bem por causa da buzina, mas quando ele me deu um soco no braço afastando-o do volante do carro, passei a ouvir melhor. Ele me pegou então pelo colarinho e me arrancou do carro pela janelinha. Eu lhe disse calmamente: - Caro enfermeiro, o paciente é aquele senhor ali do lado. Quando apontava para o meu socorrido, vi que já o levavam em uma maca. Como me sentia responsável já que havia ajudado a salvar a vida daquele cidadão, entrei junto com a equipe médica na sala do pronto socorro. Eram mesmo exagerados. Colocaram meu protegido sob oxigênio e já lhe engancharam uma agulha com o soro. Até ai tudo bem e eu estava ali quieto mas quando vi que iam aplicar choques elétricos no bom rapaz protestei vivamente já que sou absolutamente contra estes tratamentos radicais. Não existe nada que uma boa terapia e uma boa conversa não possam curar. Tentei argumentar com o doutor mas ele estava irredutível, com aqueles dois coisos nas mãos e um olhar raivoso em minha direção. Os médicos tradicionais não entendendo certas sutilezas da alma humana, querem já dar choques. Eu não podia permitir isso. Fazendo mais um vôo espetacular, joguei o doutor ao chão tentando neutralizá-lo e com isso convencê-lo a ser bom e razoável. No movimento, os eletrodos do desfribilador lhe deram uma descarga e infelizmente o bom doutor ficou reto e duro como uma estaca. Imediatamente os outros vieram lhe socorrer mas um enfermeiro grandão se aproveitando da confusão e demonstrando não saber se comportar de acordo com a situação me agarrou por trás. Já tinham me dito que enfermeiros são todos meio assim, como dizer, estranhos, mas esse veio não só confirmar isso mas também me surpreender com tamanha intimidade sem nem mesmo uma apresentação. Ele não me largava e não tive remédio que não lhe aplicar o golpe numero trinta e nove do manual de defesa pessoal da policia de Singapura: a famosa e prosaica calcanharzada no saco. Saí dali porque o ambiente estava se degenerando. Além disso, pensava naquele momento em ir fazer uma reclamação à direção pois a quantidade de irregularidades e maus comportamentos que havia encontrado ali no pronto socorro me deixaram com o espírito de cidadania mais aguçado que nunca. Quando subia as escadas do saguão, vi com o canto dos olhos, vindo lá do fundo do corredor o enfermeiro grandão que cambaleando vinha tentando correr. Ele gritava muito confirmando o que eu já pensava a seu respeito: um inconveniente. O que era pior, me passou pela cabeça que aquele ser troglodítico talvez estivesse apaixonado por mim. Hoje em dia não se pode excluir nenhuma possibilidade. Diante disso, mesmo que não seja de meu feitio faze-lo, fi-lo, corri. Corri por dezenas de corredores e infelizmente, e aqui vai mais uma critica ao sistema sanitário, estes corredores estavam todos lotados de macas e cadeiras de rodas com doentes. Alguns não pude evitar de abalroar, fazer o que, o meu caso também era grave. Qualquer um que tivesse um armário humano daqueles te perseguindo cheio de amor e querendo te agarrar por trás, faria o que fiz, ou seja, correr. Tenho a dizer em minha defesa que o importante não são os números absolutos mas os relativos, quero dizer, acho que derrubei não mais que vinte por cento das macas que estavam pelo caminho e isso é um nada, convenhamos. Quando cheguei ao sétimo andar, na maternidade, tive uma idéia genial, modéstia à parte. Pensei: vou me esconder. Melhor, vou me esconder disfarçado. Entrei em uma sala e vi que tinha roupa de bebê que não acabava mais. Depois de minutos tentando vestir aquilo percebi que eram peças muito pequenas. Entrei na sala ao lado e tinha uma infinidade de medicamentos e muitas roupas de enfermeiro. Minha mente não pára nunca. Vi então pendurado um jaleco e um crachá. Como a sala estava meio fria, acendi uma estufa velha que tinha um bilhete pendurado escrito “com defeito” a fim de me aquecer um pouco para poder me trocar. A estufa soltava umas faíscas mas funcionava bem demais. Botei as roupas verdes e saí pelo corredor carregando uma pilha de fraldas que me vinham até a testa. No fundo do corredor vi que tinha um elevador e pensei que seria o melhor meio de descer até a rua. Acho que pelo fato de enxergar pouco por causa das fraldas, nem me dei conta que fui parar no subsolo ao invés do almejado térreo. Foi aí que tive a surpresa do dia e que me deixou furioso. Encontrei-me diante do necrotério e vi estarrecido que estavam levando ali meu amigo socorrido em cima de uma maca. Sei o quanto os médicos lutam todo dia contra um sistema de saúde decadente mas o rapaz chegou no hospital com um simples pulso deslocado e agora estava ali mais frio que focinho de foca, algo de muito grave tinha acontecido, me lembrei do choque e me senti no dever de descobrir toda a verdade. Perguntei ao “colega” que levava a maca o que tinha acontecido e ele me disse que era mais uma vítima de uma briga de rua. Ora mas vejam só essa coisa, que absurdo, que invenção tola. Meu sangue ferveu arrebentando todas as válvulas reguladoras da paciência e peguei então o enfermeiro pelo colarinho e gritei: - Vocês mataram meu amigo! - Ele era seu amigo? - Sim, inclusive fui eu que o trouxe aqui. - O que? Você o trouxe aqui? É você que está todo mundo procurando. E dizendo isso me agarrou com força me dando um abraço muito apertado. Mas esses enfermeiros são todos assim chegados? Puxa vida, a coisa é pior do que eu pensava. Consegui com certo esforço me livrar de mais esse assédio violento e buscava subir as escadas a fim de ganhar a rua. Mas o acaso de novo armou uma peça e me fez escorregar arrojando-me à frente e fazendo-me ir bater a cabeça em um enorme quadro de força que se deslocou com a pancada. Imediatamente a luz elétrica foi desligada. Aproveitei que estava escuro e entrei na sala à minha frente. Nesse momento de pânico ouvi um motor que começava a funcionar bem às minhas costas e a luz voltou. Me girei e vi essa máquina enorme mas o barulho era infernal e não me deixava raciocinar e eu precisava raciocinar. Apertei alguns botões e finalmente consegui desligá-la. A luz também se foi. Ouvi muitos gritos e com dificuldade fui me dirigindo a saída e se podia ver uma grande confusão no saguão. Todas pessoas sem controle emocional. Ouvia também muitas sirenes e foi nesse momento que me prenderam e me botaram aqui nesta cela. Faço esse relato, como disse, para explicar tudo como se passou realmente e para provar que não tenho nada a ver com a morte daquele rapaz, muito menos com a das pessoas do corredor e dos que morreram nas salas de cirurgia por falta de energia e menos ainda, imagine, com o incêndio do sétimo e do oitavo andares, pobres bebês. Sei o quanto o mundo é injusto mas eu tenho esperança que uma luz iluminará o juiz. Digo isso porque quando tudo for esclarecido não pretenderei receber medalhas já que será revelado o que fiz e o que sou realmente, mas quero apenas ir para casa e continuar a ser o homem tranqüilo que sempre fui. Termino aqui meu relato pois já é hora do banho de sol. Vejo daqui o carcereiro que deu um mau jeito em um pulso. Vou lá ajudar. --------