Eu aprendi a respeitar os
Eu aprendi a respeitar os mais velhos. Me parece ainda que pra respeitar mesmo mesmo não pode mais nem dizer que são mais velhos. Deve-se dizer idosos, ou ainda mais atual, avançados na idade. Não que eu seja um lactante, mas nesse caso vale a regra: respeitar quem chegou antes. Por este motivo é que não poderia não responder a um pedido de meu amigo que chegou antes, colega de profissão e de bloguâncias Fernando Cals. Ele me enviou uma corrente para que eu respondesse sobre cinema. Talvez o Fernando não saiba que eu tenho enorme dificuldade em eleger coisas que devem ser por natureza inelegíveis. Claro que cada pessoa pensa de uma maneira. Tive um colega holandês que sabia o que queria, era um que escolhia uma coisa e a elegia predileta e nada o perturbava. Durante oito meses, esporadicamente almocei junto com este senhor, já que fazíamos consultoria para a mesma empresa. Durante oito meses, sem nenhum tipo de variação, seja no tempêro que na composição ele comeu a mesma, idêntica, absolutamente invariável e maldita salada mista com atum, sempre no mesmo restaurante. Eu não consigo comer dois dias no mesmo lugar, imagine isso. Depois de um tempo, eu ia lá encontrar o holandês pra tomar o café ou um sorvete. Ele às vezes me convidava pra ir comer com ele e apesar de eu também amar salada mista com atum repondia: obrigado mas este filme eu já vi. Mas isso que estou narrando é uma absurda escapada do tema e devo, sempre por respeito, retornar.
Pois bem, a primeira pergunta da corrente é “ Qual o seu filme favorito?” Bem, essa é fácil de responder. Nesse ponto também tenho uma opinião formada e não tenho alguma dúvida em responder de modo claro e preciso: salada mista com atum.
Já me sinto mais capaz. Já respondi a primeira, o que vir eu traço. Um vento de positividade me atingiu neste momento e me sinto muito seguro e determinado. Que venha a segunda pergunta! (rufar de tambores, ratata plan!) “ Qual o último DVD que você comprou?” Outra facílima, puxa vida: TDK.
Agora me animei de tudo. Isso é muito bom, obrigado Fernandão, vamos em frente, ninguém me segura. Pensei que seria tudo mais ligado mesmo a cinema, mas não faz mal, estou preparado como nunca estive. Nos idos de 1984, em Limeira, interior de São Paulo, eu e mais alguns amigos criamos um cineclube. Foi um período muito interessante e com milhares de histórias que com calma e se minha péssima memória me ajudar, vou narrar aqui.
Bem, sem desvios, encaremos a terceira pergunta. “ Quais os 5 últimos filmes que você viu?” Bem, vamos ver, deixe-me pensar um pouco. Bem, sim, o ultimo foi um com aquele cara que era parecido com aquele outro. Não, esse foi o anterior, ou melhor, o cara era parecido com o holandês das saladas mas isso não tem nada a ver. Hum, tem aquele que eu vi mas não vi inteiro e tem também aquele que eu só vi o começo e …. Fernando, não me lembro.
1. Não esperava por essa. Mas era bem difícil, admitamos todos. Os meus ombros se curvaram um pouco, mas por pouco tempo. Não vou deixar me abater por uma pergunta não respondida. Nunca!
Lá no cineclube de Limeira, depois de algum tempo, começamos a promover um debate após a projeção e que no início não rendeu nada. Mas pouco a pouco e de forma descompromissada, a idéia foi tomando corpo e se transformou em um momento tão especial quanto a visão do filme. Quando o seu Miguel, ex-professor de português e literatura ia lá comentar então, o prazer era redobrado. O homem fazia não uma mas diversas análises, segundo variados pontos de vista e isso fazia com que todos saissem dali verdadeiramente alimentados. A sensação era de ter feito mesmo uma refeição variada. Nada de salada de atum, era bufê rico e sortido. O belo da vida é que as coisas podem ser analisadas de diversos modos e a troca das idéias é que faz o momento mágico. Dito isso, vamos responder de forma segura, a pergunta de numero quatro. “ Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos?”
Mas ora vejam que bela pergunta, depois de tudo o que disse aqui.
Quando eu ensinei a meus filhos as noções básicas, o “melhor” vinha sempre em contraposição ao “pior”. Era difícil atingir a profundidade dos termos, já que sendo absolutamente frutos de subjetividade, não tem parâmetros na natureza sobre os quais um exemplo poderia se basear. Qual a melhor laranja do mundo? Bem, existem centenas de variedades de laranja no mundo e ainda bem que podemos experimentar todas, mas não! Aqui falamos do melhor. Qual a melhor laranja então? Bem, escolhida a variedade, deveriamos escolher a melhor seleção dentro da variedade e o melhor lote dentro da melhor produção e depois a melhor fruta dentro do melhor lote e isso não tem fim e pior de tudo: é completamente inútil e empobrecedor. Fazer uma escolha quer dizer renunciar a tudo o que ficou de fora e isso é dolorido para quem é sensível à beleza da vida e do mundo. Diferente quando profissionalmente devo fazer escolhas e as faço a cada minuto, todas mais ou menos motivadas e quase beirando a racionalidade.
Além de tudo isso a pergunta se refere ao melhor de todos os tempos, o que inclui o futuro e aí sim a coisa ultrapassa o absurdo. Vamos, sempre com muito respeito, considerar o placar em 2.
Começo a sentir uma certo desconforto. Algo me dizia que não ia adiantar ir contra a minha própria natureza. Pelo Fernando eu faço este esforço mas não sei se vai terminar bem, já profiro pessimismos. Como um médico do interior sem secretária, grito forte: a próxima!
“Qual o seu diretor /ator /atriz e o seu gênero favoritos?”
Outra vez a pergunta sobre favoritos que a meu ver não tem resposta. Já fiz muita coisa inútil na vida como inventar máquinas para transformar linguiça em porcos, esportes radicais com uso de algodão doce e músicas silenciosas para surdos, mas isso de escolher ator e atriz eu não vou fazer. Por respeito e para não ser acusado de nojento, respondo um terço da pergunta. O meu gênero favorito é o feminino. Bem estamos em 2,66 a 2,33. Perdi mais uma vez, mas não me sinto mal por isso.
Chegamos ao final : Escolha 5 pessoas para passar a corrente…
O Fernando, já me deu a felicidade de poder escrever este texto dando-me o gancho da corrente, agora quero ter a ilusão que a dita cuja vai morrer aqui no meu colo.
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