Leio tantas receitas para
Leio tantas receitas para o mundo escritas por gente sabida, que resolvi aderir à moda.
Pude sem muito esforço imaginar o mundo como seria se fosse perfeito. Eu que sou expressão de perfeição me perguntei sempre do porquê das coisas desiguais e imperfeitas. Seja lá quem fez o mundo, o fez de modo desleixado, pois tudo resultou desequilibrado.
No mundo perfeito a terra seria perfeitamente redonda e descreveria uma órbita circular perfeita ao redor de um sol sem manchas ou explosões, mas ativo e vigoroso como o mais puro dos astros, resplandecendo de emanações hidrogênicas em colisões subatômicas, também estas perfeitas e integrais. Esta órbita descreveria sua revolução em perfeitos cem dias e cada dia teria 10 horas, de modo que dispensaríamos os meses e as semanas e isso já seria um grande passo. As horas teriam 100 minutos e estes 100 segundos. Centesimal é perfeito. A conseqüência imediata deste movimento perfeito é a ausência de estações. Inútil este desequilíbrio. A temperatura na terra seria de 23 graus, de modo constante e evidentemente tudo seria regular e previsível. Nada de folhas pelo chão no outono, pois não existiria outono. Da mesma forma, sem verão, estaríamos livres dos congestionamentos para a praia e não existiriam nem o ventilador e nem o ambulante vendedor de bugigangas. Não teríamos também o biquíni, mas aí temos que considerar que algum preço temos que pagar para podermos viver no mundo perfeito. O inverno é inutilíssimo. Esqui, casacos pesados, árvore de natal, tudo bobagem. 23 graus e pronto. Taí, roupa é inútil. Pra que roupa com 23 graus? Talvez para esconder as vergonhas. Mas que vergonhas teremos no mundo perfeito? Roupas servem inclusive para definir socialmente, e então não teremos nem definições e nem classes sociais. Políticologia, sociologia, antropologia, psicologia, ciências sociais enfim, vão pra lata do lixo. Ótimo. Aliás, as ciências todas são inúteis, pois todos nasceremos sabendo tudo. Medicina não existirá em um mundo sem dores. Porém para não haver a dor do parto, talvez seja melhor não existir o parto, mas a esse ponto devo pensar um pouco mais avante, pois não gostaria de perder o sexo. Veremos como equacionar isso até porque sem parto, não nascemos. Interessante esse ponto. Bem, onde estava? Sim, não existirão nem ódios nem guerras, nem tampouco a fome. Comer evidentemente também será inútil. Bem, é um outro preço um pouco alto, mas para evitar que se produza muito em certos lugares enquanto que em outros morrem à mingua, no nosso mundo hipotético, viveríamos sem nunca comer. Nao se saberá o que é um risoto de funghi ou um prato de feijoada. Nada de camarões, ou queijos, nem vinho, nem uma simples pizza. Pensando bem, poderíamos incluir o comer e também o sexo, somente com função de geração de prazer. No mundo perfeito, o prazer seria disseminado como o ar puro que respiraremos. Isso mesmo, assim será e está decidido. Sendo assim, posto que estaremos todos nus e o prazer de viver finalmente imperará, o sexo será definitivamente livre. Vamos portanto manter o bom e sano sexo e o parto, que pra não ser doloroso basta acrescentar uma bela flexibilidade muscular e tudo resolvido. Perfeito. Mas o mundo é muito mais complexo que isso. Um turbilhão de idéias me assola. Religião? Inútil. Lancemos aos leões estes crentes, ao menos faz espetáculo. Política? Uma bela fogueira ritual, marcando o fim desse câncer que por milênios carcomeu as estruturas saudáveis do que poderia ser a sociedade perfeita. Pensando melhor, acho que estou fazendo fogueiras demais, acho que estou exagerando, estou mandando aos leões seres humanos como eu. O que aconteceu comigo? Como pude pensar uma barbaridade dessas? Acho que é porque não sou mesmo perfeito como pensei no início. Ufa, ainda bem.
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