Tenho um problema na cabeça.
Tenho um problema na cabeça. Se chama boné da Nike. Quando ainda estava no Brasil, mas já com todas as malas prontas para embarcar aqui pra Itália, uma cliente muito querida me ligou me pedindo duas ou três opiniões a respeito de uns móveis da sala. Eu disse que por telefone não funciona e fui até lá pessoalmente. Dei minha opinião profissional sólidamente embasada em minhas convicções etéreas a respeito de sofás e poltronas e parece que funcionou. Minha cara cliente me perguntou então quanto me devia pela consultoria e eu lhe disse que sua amizade me bastava, demonstrando o quanto sou simpático. Mas ela quis também demonstrar que é simpática e me levou dois dias depois uma camiseta muito chic e um boné da Nike de presente. Boné azul com a tal pincelada, ou seja lá o que for. Aqui na Itália vi alguns bossais com o mesmo identico boné e me deu a impressão que só bossais o usam. Eu o usava, tranquilo. Mas algo me dizia que o boné tinha sido feito com mão de obra escrava de crianças asiáticas acorrentadas e famintas e com as costas cheias de cicatrizes das chicotadas. Mas pensava, não comprei o dito cujo, me foi presenteado por uma pessoa doce e especial que nunca iria patrocinar o sofrimento nem que fosse de uma mosca, quanto mais de crianças. Que mundo complicado. O boné existe, está feito. Se jogo no lixo fico sem aquilo que é o reconhecimento de uma amiga e o trabalho daquele pobre coitado. Mas é tambem o simbolo da globalização avassaladora que está levando o capitalismo a toda parte. Claro que estão levando antes o ismo, o capital vem outra hora. Em todo caso, tenho um problema na cabeça. Ja tive vergonha de usá-lo, assim como já tive orgulho. Estranho como o mesmo objeto se transforma. Meus amigos que me deram listas de empresas a serem boicotadas, nem desconfiam que eu tenho um objeto desses aqui
--------