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Pegou uma folha de papel

Pegou uma folha de papel branco liso e rolou pra dentro da máquina de escrever. Tinha as mãos crispadas sobre o teclado mas por alguns segundos as teve suspensas imóveis. Então começou a escrever:

“Em meio à tormenta viu se aproximar o barco”.

Puxou um cigarro do maço sobre a mesa e o acendeu lentamente. Fazia calor e a fumaça subiu vagarosa no ar espesso. Voltou a escrever:

“Dentro do barco podia-se ver a figura magra de um escritor, debruçado sobre sua máquina de escrever”.

A mulher o chama, se levanta e vai até a cozinha. Quer lhe dizer que amanhã acaba o prazo de pagamento da conta de luz e quer saber se vão ter dinheiro pra pagá-la. Ele diz que ela não pode interrompê-lo pra dizer bobagens e volta à sua maquina:

“As ondas faziam tudo se agitar, o mar estava um pouco revolto e a instabilidade da máquina de escrever sobre o balcão da pequena cozinha do barco perturbava suas ideias”

A mulher volta a interromper e com voz estridente o chama para ver algo. Ele faz que não ouve.

“O vento sopra forte e as velas se batem produzindo estalos de uma sonoridade inponente”.

Continua a escrever mesmo que o rumor do ambiente lhe chegue forte. Está porém demais concentrado para distrair-se com banalidades do mundo real.

“Continua a escrever mesmo que o rumor do ambiente lhe chegue forte. Está porém demais concentrado para distrair-se com banalidades do mundo real”.

Levanta-se e vai ver o que o vento causou ao mastro principal e às cordas. Se detém o minimo indispensável para por ordem nas coisas e volta a escrever:

“A mulher agora lhe pede que venha ver o banheiro que está todo alagado. Ele se impacienta e lhe insulta pesadamente enquanto acende outro cigarro”.

O vento parece que está diminuindo sua força mas o que está escrevendo não lhe agrada.
“O vazamento no banheiro lhe consumiu horas e energia suficientes para fazê-lo abandonar a idéia de escrever. Na verdade está desistindo de escrever para sempre”.

Joga a máquina de escrever no mar.
Silêncio, nada mais... nada.
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