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Já li muito nessa minha

Já li muito nessa minha atual vida, mas depois cansei. Hoje leio de tudo, mas nada que seja importante. Leio os folhetos de promoção do supermercado, incluindo as letrinhas de rodapé onde escrevem que a promoção só é válida se chover por mais de três dias e enquanto durar o estoque de dois produtos. Leio também as embalagens de biscoito e de chocolate em pó. Comprei até uma lupa para me ajudar com as letrinhas miúdas. Mas ja li muita literatura boa. Quando eu não tinha dinheiro para comprar livros eu ia a uma bookstore e ficava lá lendo a tarde inteira. Para não dar a impressão que eu ia lá para ler obras inteiras sem pagar, eu pegava dois ou mais livros e ia lendo o que me interessava e no momento de virar a página dava dois ou três passos e fazia cara de quem escolhe na prateleira. Desse modo pude ler as obras quase completas de Sartre, Proust, Kant e outros tantos. O problema dessa técnica, ou melhor, deste recurso é que por exemplo as vezes não conseguia ler o final de algum livro pois a livraria ia fechar. Isso me causou certos problemas de ordem psicológica e emocional, além de gerar certa confusão. Até hoje não sei se o Cândido de Voltaire se casa no final com a madame Bovary. Fiquei sem saber também que fim levou o Principe de Machiavelli, se voltou a viver no castelo de If ou se retornou à sua casa da rua Morgue. Sem falar dos inúmeros livros de Agatha Christie que me faltam somente saber quem foi o assassino. As vezes não durmo, pensando nesses casos irresolvidos. Sei que são confissões que afinal eu não poderia estar fazendo aqui. Sei que um bom blog deve mostrar a erudição do autor, nem que pra isso ele tenha que recorrer ao copia/cola com google e wikipedia, ou consultas de última hora à Barsa ou eventuais vizinhos cultos e ocultos. Mas como nós não ganhamos nada pra fazer essas coisas, vou me limitando à verdade dos fatos. Acho que agora que me aproximo da velhice posso voltar a ler meus livros. Penso que a literatura em si foi uma ótima invenção. Se levarmos em conta então que o gênio humano produziu também a bomba de fragmentação, a poluição do ar e da água além do odioso hit parade de música pop, a literatura passa a ser vista como uma das atividades mais belas em absoluto. Chega a ser mais bela que as “Mais-mais do fim de semana da ilha de Caxingui”. Penso que quando puder ter o tempo necessário a uma boa leitura vou começar a ler os clássicos: Pato Donald, Mickey e Tio Patinhas. Depois vou aos modernos: Paulo Coelho e Dante Alighieri, além de um especial da cozinha maravilhosa da Ofélia. Mas aí vou ter que investir dinheiro em livros ou voltar à tática do João sem braço rato de loja descrita mais acima. Pensei até em não criar esta dependência das editôras e produzir eu mesmo meus livros somente para consumo próprio. Seria uma ótima idéia se eu conseguisse guardar segrêdo para mim mesmo, mas eu já tentei escrever algo que eu não soubesse como termina, só para me surpreender, mas chega uma hora que eu não resisto e me revelo a surpresa antes mesmo de começar a escrever. A única saida é contar com minha memória que há mais de seis anos e meio apaga qualquer fato com mais de dois anos de minha mente. Devo escrever hoje, esperar uns dois anos e depois ler com grande surprêsa. Mas me parece que me lembro de haver já escrito algo para ser lido depois de anos, mas não consigo me recordar onde foi que coloquei estes manuscritos. Vou lá perguntar pra empregada. Nesse momento ela está queimando uns papeis velhos lá fora, vou lá ver o que é.
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